Não se pode duvidar da influência dos jogos de tiro em primeira pessoa na atualidade. Por mais que o gênero não seja uma unanimidade entre os gamers, são títulos como Call of Duty ou Battlefield que ditam os rumos da indústria e servem como referência para a esmagadora maioria das desenvolvedoras.

A importância de tais títulos é tão grande que até mesmo jogos de outros gêneros acabam tentando embarcar nesse mercado. É o caso, por exemplo, da Capcom, que lançou recentemente o game Resident Evil: Operation Raccoon City e afirma que a franquia de terror é grande demais para o survival horror. Para o produtor Masachika Kawata, a ação é o caminho a ser seguido.

Uma evolução dentro de outra

Títulos com perspectiva em primeira pessoa existem desde os primeiros anos da indústria de jogos, no início da década de 70. Naquela época, a premissa para a utilização desta mecânica era simples: se os games colocavam o jogador na pele de heróis, por que não dar a ele exatamente a mesma visão de, por exemplo, um piloto de avião?

É esse o objetivo de títulos como os arcades Jet Rocket, de 1970, ou Battlezone, lançado em 1980. Havia também conceitos que chamavam a atenção pela inovação, como Killer Shark, no qual o jogador utilizava uma arma física para lançar arpões em tubarões. Nos sistemas caseiros, porém, os jogos de tiro normalmente se resumiam a games em que uma mira simples era controlada pelo joystick.

Foi daí que surgiu uma ideia: e se a arma pudesse estar dentro da tela? Essa foi uma das inovações trazidas por The Super Spy para o Neo Geo, o primeiro game a contar com esse tipo de jogabilidade. Porém, por misturar diversos elementos – desde o beat’em up até um sistema de evolução parecido com o de RPGs – ele não é considerado o pai do FPS.

Nasce um sucesso

Em 1992, pelas mãos da desenvolvedora id Software, é lançado Wolfenstein 3D, título que não apenas dava origem a um novo gênero, como também firmaria bases que estão presentes até hoje na maioria dos games do gênero. No comando de um soldado preso pelos nazistas, a missão do jogador é se armar até os dentes e escapar à bala do castelo que dá nome ao game.

(Fonte da imagem: Reprodução)

O lançamento chacoalhou as estruturas da indústria e trouxe um sopro de criatividade a um mercado inundado por títulos de plataforma ou esportivos. A jogabilidade ágil e a violência extrema do game agradaram principalmente aos adultos e à crítica especializada. Em 1993, a id Software esteve presente em inúmeras cerimônias de “Game do Ano”.

Os conceitos de Wolfenstein 3D seriam levados ainda mais além em Doom, lançado em 1993. Com gráficos melhores que o seu antecessor, mas baseado no mesmo estilo de jogabilidade, o game colocava o jogador na posição de um soldado que, sozinho, enfrentava hordas de criaturas infernais. Enigmas e uma constante busca de itens se tornaram parte da equação e ampliaram ainda mais o desafio.

A primeira onda

O sucesso absoluto da id Software motivou uma série de outras empresas, pequenas ou não, a investir no gênero. Entre títulos bastante ruins, existiam aqueles que eram verdadeiras pérolas e acrescentaram conceitos interessantes à fórmula.

(Fonte da imagem: Reprodução)

Um destes títulos foi Star Wars: Dark Forces. Para contar uma história que fazia parte do universo expandido da saga de George Lucas, foram adicionados elementos como a possibilidade de abaixar ou mirar para cima e para baixo. A diversificação na jogabilidade acabou se transformando em padrão para todos os games que viriam a seguir.

(Fonte da imagem: Divulgação / id Software)

Enquanto isso, a id Software tentava se diferenciar em seu próprio campo. Games como Heretic ou Hexen adicionaram elementos mágicos à fórmula, mas foi Duke Nukem 3D que, mais uma vez, levou o gênero ao topo do mercado. O estilo jocoso, claramente inspirado nos heróis brucutus dos anos 90, o foco no sexo e a jogabilidade fluída e sangrenta transformaram o game da 3D Realms em um clássico instantâneo.

Os FPS chegam aos consoles

Até a metade dos anos 90, os fãs de jogos de tiro em primeira pessoa se viam obrigados a possuir um PC. Eram pouquíssimos os games do gênero que saiam para consoles, e mesmo estes normalmente eram ports muito ruins de games já existentes para computador ou títulos inéditos de baixa qualidade. James Bond, porém, chegaria para mudar esse jogo.

GoldenEye 007, lançado em 1997 e baseado no filme de mesmo nome, provaria que os video games caseiros também poderiam ser um terreno fértil para o gênero. Com uma campanha que seguia com fidelidade a trama do filme e um modo multiplayer local extremamente criativo, o game abriu um precedente interessante nas plataformas caseiras.

Em 1999, Medal of Honor viria para iniciar uma longa linhagem de FPSs baseados na Segunda Guerra Mundial e mostrar definitivamente que o gênero poderia ser muito bom também nos consoles. A jogabilidade era mais simples, claro, mas nem por isso deixava de ser extremamente divertida.

Guerras virtuais e roteiro de cinema

Enquanto os donos de consoles aprendiam o que era, finalmente, ter jogos de tiro em primeira pessoa, os usuários de PC já estavam dando um passo à frente. Com Quake, a id Software decidiu inovar mais uma vez e invadiu o terreno da jogatina online, criando tiroteios infindáveis entre jogadores espalhados ao redor do mundo.

Imagem de Unreal Tournament 3. (Fonte da imagem: Divulgação / Epic Games)

O conceito seria expandido nas sequências e chegaria também a outros games, como Unreal Tournament, um verdadeiro marco na jogabilidade competitiva. Mais tarde, Halo traria a jogabilidade cooperativa à mesa e firmaria para sempre os consoles como um competidor à altura dos computadores.

Aos poucos, porém, os fãs do gênero passaram a sentir falta de tramas elaboradas e games realmente envolventes. Para mostrar que os jogos de tiro não precisam se concentrar apenas nos disparos, a Valve lançou Half-Life, título que contava com uma série de eventos pré-programados para contar a história. Em diversos momentos, o protagonista se encontrava com personagens para desenvolver a trama, sem que a perspectiva em primeira pessoa fosse abandonada.

(Fonte da imagem: Divulgação / Valve)

É engraçado notar que justamente um game que privilegiava a história acabou dando origem a um dos maiores tiroteios de todos os tempos. Um grupo de fãs fervorosos decidiu transformar Half-Life em Counter Strike, título que colocava grupos de agentes federais e terroristas para trocar disparos em arenas virtuais. Mais tarde, o mod acabou oficializado e deve ganhar uma nova edição ainda em 2012.

Quando parecia que o gênero não tinha mais como expandir, a Electronic Arts lançou Battlefield 1942. Apesar de se focar no já tradicional período da Segunda Guerra Mundial, o título inovou ao adicionar veículos à jogabilidade. Agora, além de acabar com os inimigos a pé, também é possível usar tanques de guerra, aviões ou qualquer outra máquina de combate.

Como um filme

Até a chegada de Call of Duty, os jogos focados no enredo ou no combate seguiam caminhos distintos. O game da Activision, porém, surpreendeu a todos ao abandonar completamente a exploração de cenários e a busca de itens de seus antecessores, transformando o FPS em uma experiência extremamente linear cujo único foco era a ação.

(Fonte da imagem: Divulgação / Activision)

A trama, porém, não foi deixada de lado, e sim incorporada à jogabilidade. A impressão era de que o jogador estava controlando um filme. Os tiroteios frenéticos do game eram acompanhados de música alta e gritos de companheiros pelo rádio, enquanto ações pré-programadas davam o toque final a uma experiência alucinante.

Da metade da década passada para cá, os temas se tornaram incrivelmente variados. É possível encontrar desde os clássicos FPSs ambientados na Segunda Guerra Mundial até games que se passam no futuro, como a série Deus Ex, ou até mesmo em outros planetas ou realidades. A ficção científica se incorporou de forma legítima ao gênero, tendo Crysis como um dos principais expoentes desta mistura.