Um Romeu ferido e refugiado na Jordânia, uma Julieta bloqueada na Síria e cercada pelas forças do regime. Graças ao Skype, duas crianças interpretam uma adaptação livre do clássico "Romeu e Julieta", que pretende denunciar o sofrimento dos que conseguiram fugir da guerra civil ou ficaram a mercê dela.

Romeu é um jovem sírio refugiado na Jordânia e sua amada está bloqueada na região de Homs, razão pela qual seu único meio para se comunicar é o Skype e outras plataformas da internet. A história de amor se desenrola em uma tela de computador com imagens transmitidas por Skype ao público que a acompanha.

Interpretada no terraço de um hospital improvisado para refugiados sírios em Amã, capital da Jordânia, a obra mergulha no sofrimento das pessoas que tiveram a vida estraçalhada pela guerra. Com esta obra única, queríamos colocar o foco da atenção nas zonas sírias sitiadas pelo regime após o fracasso das organizações humanitárias em enviar comida, água e medicamentos", disse o diretor da obra, o ator sírio Nawar Bulbul.

"Também queríamos mandar uma mensagem ao mundo de que as pessoas sitiadas não são terroristas, mas crianças ameaçadas por bombardeios, pela morte e destruição", acrescentou. O Romeu da obra é Ibrahim, um menino de 12 anos que perdeu a mãe e três de seus irmãos em um bombardeio do regime sobre Damasco no ano passado. Três operações em sua perna direita o salvaram da amputação, mas o caminho da recuperação é tedioso e exigirá mais duas operações.

Sua Julieta é uma menina de 14 anos privada de ajuda e de sua família, uma dos 440.000 civis que, segundo a ONU, estão presos no conflito sírio em zonas sem acesso à ajuda humanitária. A identidade de Julieta e sua localização exata são secretas, por segurança, e durante toda a atuação ela usa um véu.

"Já não há amor na Síria"

Os problemas concretos do mundo real se intrometem frequentemente na peça, com os comuns cortes de internet e de eletricidade de Homs, que às vezes interrompem a obra. 

Em uma das apresentações, os espectadores precisaram esperar uma hora antes que a imagem do balcão de Julieta aparecesse para que Romeu pudesse declarar seu amor. Bulbul disse acreditar que sua obra é a primeira que utiliza o Skype desta maneira. O ator reescreveu a peça substancialmente para eliminar a violência e se concentrar na história de amor.

Em 2014, Nawar Bulbul trabalhou com crianças a obra de William Shakespeare "O Rei Lear", produzida no campo de refugiados de Zaatari, no norte de Amã, onde vivem 80.000 sírios. "O objetivo era humanizar e inspirar as crianças através da arte. Usar a arte como uma via de escape para sua angústia, sua tristeza e sua dor", disse Bulbul à AFP. Ibrahim declarou que após vários meses de testes cresceu junto aos que estão do outro lado das câmeras. "Espero vê-los um dia cara a cara, depois que a guerra tiver terminado", disse.

Para o público, composto em grande parte por refugiados sírios, a obra aproximou tudo o que seu país perdeu nos últimos anos. "Já não há amor na Síria como o desta história. A guerra destruiu tudo o que era belo em meu país", afirma Mohamed Halima, um refugiado de 24 anos que recebe tratamento depois de ter sido vítima de cinco disparos há dois anos na Síria. Agora se desloca em cadeira de rodas.

"Nós, os homens jovens, somos as maiores vítimas desta guerra descabelada, todos tinham uma história de amor com alguém", declarou Halima. "Mas agora não sabemos onde estão nem se seguem com vida", completou.

Por Kamal Taha - AmãJordânia

Via EmResumo

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