A informação polêmica surge diante dos seus olhos e parece não deixar dúvidas: aquele fato absurdo realmente ocorreu. Para embasar o ocorrido, fontes conhecidas são citadas, mas sem links que auxiliem a comprovação. Sem pensar duas vezes, muitos compartilham o fato, seguido muitas vezes de um texto revoltado, para depois descobrir que tudo não passou de uma farsa.

Uma das pessoas que se dedica a desvendar esses boatos é o analista de sistemas Gilmar Lopes, criador do popular site E-farsas. Todos os sábados, às 10h, ele apresenta o quadro “Verdadeiro ou Farsa”, na Rádio Bandeirantes, em que responde dúvidas dos ouvintes. Por email, conversamos com ele sobre o seu trabalho.

TecMundo (TM): Quando o site foi lançado e como surgiu a ideia de desvendar as farsas na web?

Gilmar Lopes (GL): Em 2001, recebi um email sobre uma menina que estaria com câncer e para cada e-mail repassado ela ganharia R$ 0,10 para ajudar no seu tratamento! Ao invés de repassar esse (como sempre fazia), resolvi pesquisar e acabei descobrindo que essa história era falsa! A criança nem existia e as empresas citadas na corrente não estavam fazendo nenhuma campanha sobre isso.

Respondi a todos que me enviaram a tal corrente que aquilo era mentira e expliquei os motivos. A partir daí, vários amigos começaram a me mandar textos e fotos para eu pesquisar e devolver pra todo mundo os resultados das minhas pesquisas. Até que um dia achei que seria bacana deixar minhas pesquisas em apenas um local para que todos pudessem ler.  No dia 1° de abril de 2002, nascia o www.e-farsas.com.

TM: Quantas pessoas trabalham no site e qual é a sua rotina de trabalho na publicação? Você vive exclusivamente do blog ou tem outro trabalho em paralelo?

GL: A equipe do E-farsas é formada por uma pessoa! Claro que os leitores ajudam muito, sugerindo temas e vários deles já vem com alguma pré-pesquisa que me auxiliam no caminho a tomar. Tenho me esforçado para entregar pelo menos um artigo diário, pois só publico quando tenho certeza daquilo que estou pesquisando. Na dúvida, nem publico!

A ideia do E-farsas sempre foi a de usar a própria web como ferramenta para desmentir (ou confirmar) as histórias que circulam nela. Portanto, todo artigo vem com os links das fontes de onde o material foi pesquisado.

O E-farsas começou como um hobby (trabalhei nele por 8 anos sem ganhar nada!) e, de uns anos pra cá, ele se tornou uma fonte de renda interessante - ainda mais depois que começou a atrair anunciantes. Sou Analista de Sistemas e trabalho com desenvolvimento de Intranets em PHP e Oracle para supermercados porque amo minha profissão, mas já poderia viver apenas do E-farsas se quisesse!

TM: Como é feita a seleção dos temas a serem pesquisados? Quanto tempo em média você leva pesquisando sobre um assunto?

GL: No começo do site (há 12 anos), os emails eram um norte para as publicações do E-farsas. Atualmente, na nossa fanpage (atualmente, com 82 mil "curtidas"), os "fãs" também ajudam bastante com sugestões e dicas e isso serve também como um termômetro, me mostrando quais histórias devo pesquisar.

Além disso, também procuro pesquisar algo que sempre tive curiosidade em saber se é verdade ou não, mas que não está nos trends da web no momento. Um exemplo é a história da águia que dizem se renovar a cada tantos anos, retirando as penas e seu próprio bico. Certa vez, ouvi isso numa palestra motivacional e resolvi pesquisar. Acabei descobrindo que a história, apesar de bacana, é falsa!

Também temos casos de boatos que voltam a circular todo ano, como o do "voto nulo anula a eleição"! Sempre que as eleições estão se aproximando, esse hoax volta a aparecer nas redes sociais! Alguns artigos levam dias para serem finalizados. Vídeos e fotos dão mais trabalho. E tem histórias que, numa rápida busca pela web, já descubro que se tratam de farsa. Só que não fico satisfeito em apenas revelar que aquilo é mentira. O bacana é tentar encontrar a origem do boato, explicar como foi feito, quem fez e (quando possível) porque fez...

TM: Ao longo de sua trajetória, qual foi a farsa que você desvendou que deu mais trabalho para ser descoberta?

GL: Foram várias as que me deram trabalho (e isso é muito bom), mas recentemente me deparei com a notícia afirmando que o líder norte-coreano teria imposto uma lei obrigando a todos os homens país a cortarem o cabelo igual ao seu.

A dificuldade, nesse caso, foi que as principais agências de notícias estavam dando como verdadeira (nos jornais da TV, inclusive) e tive que pesquisar em publicações coreanas até descobrir que tudo não passou de mais um boato.  

TM: Quais são os temas mais populares? Mesmo depois que você revela que a informação era falsa, é grande o número de pessoas que colocam em xeque as suas pesquisas? Você já sofreu alguma ameaça ou represália por conta de ter desmentido alguma coisa?

GL: Religião, política, saúde e (curiosamente) ufologia estão no topo da lista. Procuro variar de assunto a cada dia para não cansar o leitor (e também, é claro, pra não me cansar também, né?), mas em época de eleição, não tem jeito.

Muita gente questiona nos comentários se aquilo que publico está correto. Acho até bom, pois isso serve para levantar algumas discussões legais sobre assuntos polêmicos. Fico satisfeito em poder contribuir dessa forma para a web. É claro que sempre tem alguns que se exaltam, me insultando. Faz parte!

Uma vez, publiquei a respeito da farsa do chazinho de graviola que diziam curar o câncer! Um perigo danado, pois quem estava doente e lia aquele texto poderia até largar o tratamento convencional pra se tratar com essas simpatias inócuas. Depois que publiquei o artigo explicando as razões do produto não funcionar, uma empresa (que vende esse chá) me pediu "educadamente" que o texto fosse retirado do ar! O artigo está no site até hoje!   

Também tem os fanáticos, que me atacam de vez em sempre. Mas isso é uma diversão à parte! Rsrsrsrsrs! Ah! Tem o outro lado também, que é a satisfação de saber que o E-farsas fez parte do TCC de alguns formandos, que algumas das nossas matérias já foram citadas em livros, jornais e em revistas, além dos programas de rádio e TV que sempre me chamam para entrevistas no Brasil inteiro. No ano passado, palestrei na UNICID e na Carlos Drummond (faculdades de São Paulo) a respeito de boatos digitais. Foi uma experiência bem gratificante!  

TM: Já aconteceu de você se equivocar em alguma pesquisa e ter que voltar atrás depois, acrescentando mais informações?

GL: Sim, mas é raro de acontecer! Na grande maioria das vezes são apenas novas informações que acrescento no artigo! É bom deixar claro que não tenho nenhum problema em admitir que errei. Nas vezes em que isso aconteceu, fiz uma atualização no artigo, sem apagar o que já estava publicado e explicando melhor aquela história. Um exemplo foi esse: “Carro capota com 4 pessoas e uma mulher”.

Na época, entrei em contato com o jornal, que me garantiu que a manchete era falsa. Dias depois, um morador daquela cidade tirou uma foto do jornal, mostrando que erramos. A correção está lá no site!

TM: O número de informações falsas compartilhadas nos dias de hoje é maior ou menor do que quando você começou? As pessoas estão mais atentas ou ainda cometem os mesmos erros?

GL: Em 2002, a maioria das histórias era repassada por email. Hoje, temos inúmeras fontes de disseminação de informações. Acredito que as redes sociais ajudaram a espelhar muito mais rápido e com um alcance muito maior do que antes. Além disso, atualmente basta clicar em “Compartilhar” pra espalhar alguma coisa. Bem mais fácil, né?

Os erros ainda são os mesmo que antes: algumas pessoas ainda têm um pouquinho de preguiça de verificar se aquela notícia é mesmo real antes de espalhá-la!

TM: Por pesquisar tanto sobre o assunto, você deve ter um pé atrás com muita coisa que vê por aí, não é mesmo? Você ainda cai/compartilha algum conteúdo que, posteriormente, descobre que era uma farsa?

GL: Hoje em dia, já não caio mais, mas já compartilhei informações falsas, como por exemplo, a foto que mostrava o painel do automóvel do filme De Volta para o Futuro mostrando uma data em 2010, que não tinha nada a ver com a mostrada no filme. Depois que retuitei é que descobri que era uma montagem!

TM: Que consequências graves você já acompanhou relacionadas a algum assunto falso que circulou na rede?

GL: A mais grave que me recordo foi a trágica morte de uma moça no Guarujá, vítima de um boato da web.

TM: Nem sempre as pessoas têm tempo de pesquisar sobre um assunto antes de sair compartilhando um link. Que conselhos você daria para que as pessoas evitassem repassar informações falsas?

Sempre duvide de tudo. Verifique em mais de uma fonte e em fontes confiáveis. Na dúvida, não repasse!

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