'Não Olhe para Cima': e se a história do filme fosse verdade?

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*Este texto foi escrito por uma colunista do TecMundo; saiba mais no final.

A comédia satírica de Adam McKay "Não Olhe para Cima" foi lançada no dia 24 de Dezembro de 2021 na Netflix, e foi um sucesso. Se você ainda não assistiu ao filme, começamos com o aviso: cuidado com os spoilers neste texto.

Cartaz oficial do filme "Não olhe para cima!"Cartaz oficial do filme "Não olhe para cima!"Fonte:  Netflix 

O filme começa com a doutoranda da Universidade de Michigan, Katy Dibiasky (Jennifer Lawrance), conduzindo observações no telescópio profissional Subaru — telescópio japonês localizado no Havaí que possui cerca e 8 metros de diâmetro, nada pequeno. Apesar da falha técnica da presença de luzes na sala de observação, a cena relata como corre uma observação profissional: guiada através de um computador.

Telescópio japonês Subaru, localizado no Havaí.Telescópio japonês Subaru, localizado no Havaí.Fonte:  Subaru Site Oficial 

Durante a noite, Katy nota um objeto difuso desconhecido no seu campo de observação. Comparando diferentes imagens, fica claro que esse objeto tem um movimento aparente detectável. Ou seja, sua posição em relação às estrelas presentes no campo muda. Isso significa que esse objeto está próximo, no sentido que não poderia ser uma galáxia distante mas sim um cometa dentro do Sistema Solar.

A celebração do descobrimento do cometa não dura muito. Usando de licença poética, no filme a trajetória do objeto é determinada imediatamente, com poucos dados. E então, o choque: esse cometa, que possui diâmetro aproximado de 10km, estaria em rota de colisão com a Terra e dentro de 6 meses e 14 dias, passaríamos por um evento de extinção em massa.

E se fosse real?

Para esclarecer: não existe ameaça conhecida para os próximos 100 anos. Isso porque temos um monitoramento constante de vários objetos que passam próximo da Terra. Enfatizando que "próximo" em escalas astronômicas, sem representar nenhum perigo à vida terrestre. O centro para estudos de NEO (Near-Earth Objects) do JPL mantém uma tabela de aproximações atualizada diariamente.

Imagens do cometa NEOWISE no céu do Stonehenge, em Julho de 2020.Imagens do cometa NEOWISE no céu do Stonehenge, em Julho de 2020.Fonte:  APOD 

Mas, e se um cometa não monitorado acontecesse de estar em rota de colisão com a Terra? A boa notícia é que qualquer cometa que represente um perigo real para vida terrestre, ou seja, maior que 5km, não chegaria de surpresa, sem detecção. Conseguiríamos detectá-lo com alguma antecedência.

E planos de defesa planetária se tornam cada vez mais próximos da realidade. De fato, entre diferentes estratégias, a NASA lançou a primeira missão teste que tem como objetivo tentar desviar a rota de asteróides. Essa é a DART (Double Asteroid Redirection Test), lançada em Novembro desse ano! O objetivo da DART é entender se colidir um satélite intencionalmente com um asteroide é o suficiente para alterar sua rota e garantir a segurança na Terra. Mas os cientistas gostam de enfatizar: o asteroide usado como teste NÃO representa perigo nenhum. Essa missão é um teste para, caso no futuro, venhamos a descobrir um asteroide que de fato representa um perigo à vida terrestre.

O alvo escolhido para demonstração é o sistema binário Didymos, com um corpo de 160 metros de diâmetro e outro com 780 m. O sistema está sendo intensivamente observado para que, quando DART chegar ao seu alvo, seja possível medir precisamente os efeitos da colisão proposital. O objetivo da missão é colidir com o corpo menor a uma velocidade de 6.6 km/s. Isso faria com que a orbita do corpo secundário ao redor do primário seja alterada por 1%, causando uma alteração de minutos em seu período. A previsão para o impacto é em setembro de 2022, a uma distância de 11 milhões de km da Terra.

Ilustração da missão DART.Ilustração da missão DART.Fonte:  NASA 

Então, podem olhar para cima que o espetáculo é bonito! E fica o convite para assistir a esse filme, que ilustra muito bem nosso contexto atual!

Camila de Sá Freitas, colunista do TecMundo, é bacharel e mestre em astronomia. Atualmente é doutoranda no Observatório Europeu do Sul (Alemanha). Autointulada Legista de Galáxias, investiga cenários evolutivos para galáxias e possíveis alterações na fabricação de estrelas. Está presente nas redes sociais como @astronomacamila.