No final do século 18, um cientista chamado Thomas Malthus disse que a população humana sofreria um colapso alimentar em alguns séculos. De acordo com a teoria dele — a Teoria Malthusiana —, a melhoria nas condições de saneamento e outros avanços da civilização fariam com que as taxas de mortalidade fossem reduzidas, enquanto as taxas de natalidade cresceriam. Logo, a quantidade de pessoas no mundo aumentaria.

Ao mesmo tempo, Malthus observou que a capacidade de produção de alimentos ao redor do mundo não aumentava na mesma proporção do crescimento populacional. Isso significava, para ele, que em alguns séculos não haveria comida suficiente para todas as pessoas. Por mais que essa teoria tenha sido rechaçada pelo avanço industrial e pelas melhorias nas capacidades de produção agrícola, alguns traços dela ainda são vistos.

Apesar de haver comida — desconsiderando os problemas de distribuição e acesso —, ainda há locais em que a produção não é tão simples. Países com superpopulação acabam sofrendo bastante, e uma série de soluções vêm sendo criadas para sanar esse problema. Isso inclui as fazendas verticais e também as “fazendas indoor”. Isso mesmo, estamos falando de fazendas em locais fechados.

Elas estão começando a ganhar força no Japão, um país em que há pouco espaço para grandes plantações e uma crescente demanda por alimentos. Mas como funcionam e o que realmente são essas fazendas indoor? É o que nós vamos descobrir agora mesmo, utilizando a fazenda japonesa Mirai como exemplo principal.

O que é?

A Mirai — nome que significa “Futuro”, em japonês — é uma fazenda indoor com pouco mais de 2.320 metros quadrados. Dentro dela, é possível produzir uma quantidade incrível de 10 mil pés de alface em um único dia. Este número é 100 vezes maior do que o que seria possível com a mesma área em uma fazenda comum. Mas não é somente isso que faz dela mais produtiva.

É válido dizer que a Mirai consegue produzir essa grande quantidade de vegetais com 40% menos energia e gerando 80% menos desperdício do que haveria no modo convencional. Quando falamos sobre a água economizada, o resultado é ainda mais impressionante: é preciso 99% menos água para o desenvolvimento de cada pé de alface no local.

Um dos grandes trunfos da fazenda Mirai é a utilização de lâmpadas especiais para a produção de tudo. Isso é possível graças a uma grande parceria entre o criador Shigeharu Shimamura, os investidores e a General Electric (GE). Além de disponibilizar as lâmpadas de LED de alto desempenho (cerca de 17.500 delas) , a GE também é responsável pela produção dos softwares de controle que são utilizados para a otimização de todos os recursos.

Uma questão de tecnologia

O criador Shigeharu Shimamura precisou de muito investimento para conseguir transformar uma antiga fábrica de semicondutores em uma fazenda, mas conseguiu. E é claro que isso não aconteceu de uma hora para a outra. Tudo o que é feito dentro da Mirai é fruto de uma grande pesquisa e de vários anos de desenvolvimento tecnológico. Nesse ponto, a GE é uma das maiores aliadas do projeto.

Com base nos conhecimentos acumulados na fazenda, a GE conseguiu criar uma série de sensores e sistemas de análise informatizada para fazer com que todos os recursos utilizados sejam aproveitados ao máximo. De acordo com a própria General Electric, isso inclui a utilização de sistemas de monitoramento e controle remoto, com muito mais autonomia e facilidade para os “fazendeiros”.

Como já dissemos, a GE é a fornecedora oficial de lâmpadas LED para a fazenda Mirai. Essa iluminação é o grande segredo para a produção, pois ela é responsável pela ambientação artificial das plantações. Shimamura desenvolveu um sistema de encurtamento dos ciclos de cada dia, fazendo com que “o dia passe em menos de 24 horas”. Em resumo, ele acelera os processos na fazenda.

Aliando isso à otimização de temperaturas, iluminação e umidade, ele conseguiu fazer com que os vegetais crescessem muito mais rapidamente do que aconteceria em outras fazendas. Isso ainda se soma ao fato de serem usados sistemas verticais, que levam maiores quantidades de sementes para menores espaços.

O processo de plantio, manutenção e colheita é híbrido, sendo dividido entre trabalhadores humanos e máquinas especialmente produzidas para estes fins. Shimamura imagina modificar isso e tornar todo o processo automatizado no futuro, mas ainda não sabe dizer quando isso será possível — pois ainda depende da disponibilização de alguns robôs com capacidades nesse âmbito.

Quando surgiu a ideia?

Produzir alimentos em fazendas indoor é uma alternativa excelente, mas quando surgiu a ideia de fazer isso? No caso da Mirai, ela foi fruto de uma demanda que poucos esperavam enfrentar. Em 2011, um terremoto e um tsunami devastaram algumas cidades no Japão, e isso também atingiu algumas áreas agrícolas do país. Foi nesse cenário que Shimamura decidiu investir na Mirai.

Não demorou para que ele conseguisse encontrar a construção ideal para o seu projeto. Os ajustes para a iluminação e o aproveitamento dos recursos foram rapidamente feitos, e a fazenda Mirai conseguiu atingir seus objetivos principais. Mas é preciso dizer que a produção de alfaces não é a única pretensão da fazenda, pois muito mais é esperado para o futuro.

O futuro das fazendas indoor

Em uma entrevista para o site Web Urbanist, o criador da Mirai informou que pretende expandir tudo isso. Ele disse: “Eu acredito que, pelo menos tecnicamente, nós podemos produzir qualquer tipo de planta na fábrica. Mas faz mais sentido economicamente investir na produção de vegetais que podem crescer com velocidade e ser enviados ao mercado rapidamente.”.

Com isso, ele deixa bem claro que pretende manter a Mirai para vegetais folhosos — como alfaces, acelgas, couves e outras. Shimamura também acredita que há como criar propriedades similares a essa para a produção de plantas medicinais. Como revela o próprio dono da fazenda: “Eu acho que em breve poderemos envolver uma série de produtos nesse sistema!”.

Vale dizer que um dos grandes trunfos de todo o projeto é a versatilidade com que as plantações podem ser criadas. Como tudo o que acontece no interior das fazendas é emulado — incluindo o controle climático, a iluminação e outras condições —, torna-se possível simular ambientes de quase qualquer lugar do mundo. Isso significa que é possível plantar vegetais “fora da estação” ou mesmo “fora do habitat”.

Como revelamos no início do texto, ainda existe a dificuldade em alimentar toda a população mundial. Com fazendas indoor é possível que o futuro reserve boas chances para todos. Com menos recursos sendo necessários e menos espaço utilizado, será que algum dia todos os vegetais poderão ser produzidos assim? É bem provável que não em escala global, mas não é difícil imaginar um futuro com plantações verticais em regiões mais populosas.

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Você já tinha visto algo sobre a Mirai ou sobre outras fazendas indoor? Será que algum dia o mercado brasileiro será abastecido por vegetais plantados em gigantescas fábricas, como a japonesa mostrada aqui? Vamos esperar para ver!

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