Elon Musk apresentou em setembro seu ambicioso plano para colonizar Marte. Ele e sua companhia, a SpaceX, já possuem um cronograma, uma estimativa de gastos e um detalhado método de lançamento da Terra e pouso no Planeta Vermelho. Acontece que, apesar de ter dado muitos detalhes sobre a viagem, Musk deixou de fora alguns pontos cruciais. Por exemplo, aparentemente não há muita coisa definida a respeito de como as pessoas vão viver por lá.

Não há muita coisa definida a respeito de como as pessoas vão viver em Marte

Essa e outras falas de Musk — que fizeram o perigo de contaminação por radiação espacial parecer desimportante — nos deixaram com a pulga atrás da orelha. Por isso, perguntamos: quão arriscada seria a viagem a Marte com a SpaceX?

Não queremos ser pessimistas nem nada, mas é necessário pensar na segurança dos ocupantes que vão arriscar suas vidas nessa empreitada. Afinal, eles vão pagar por suas passagens e não são astronautas supertreinados como os da NASA. A SpaceX planeja fazer um treinamento intensivo com os passageiros pouco tempo antes do lançamento, o que pode não ser suficiente em situações extremas.

De qualquer forma, mesmo esperando que tudo dê certo e que a colônia marciana prospere, não podemos deixar de avaliar todo o perigo envolvido. O próprio Musk falou em sua apresentação que “as pessoas que vão a Marte precisam estar prontas para morrer”.

Método de lançamento

Pouco antes do anúncio definitivo feito por Musk no México sobre os planos da SpaceX para ir a Marte, a companhia testou seu novo motor de foguete, o Raptor. O dispositivo é o mais poderoso equipamento para viagens espaciais da atualidade, e a nave que levará a humanidade ao Planeta Vermelho deve contar com nada menos do que 42 deles.

Mesmo que vários falhem, a estabilidade do foguete permanecerá intacta

Esses motores serão organizados de uma forma que, mesmo que vários falhem, a estabilidade do foguete permanecerá intacta. Uma eventualidade dessas também não deve impedir o lançamento de ser realizado com sucesso.

A nave espacial completa — chamada atualmente de “Heart of Gold”, em referência à série de livros “Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams — deve ser capaz de levar 100 pessoas ou mais ao solo marciano. A estimativa de duração da viagem é de 80 dias e está sendo encarada como muito otimista, dadas as condições de uso de energia durante viagens espaciais.

O primeiro passo será o lançamento inicial, o qual deve levar a Heart of Gold para a órbita da Terra. O foguete será separado dela nesse momento e voltará para o local de lançamento, pousando da mesma forma que a empresa tem feito com foguetes Falcon. Eles aterrissam gentilmente em bases na terra ou no mar, podendo ser reutilizados múltiplas vezes.

Quando o foguete da missão a Marte pousar, ele será reabastecido e vai carregar agora uma nave-tanque, responsável por fornecer combustível à Heart of Gold em órbita. A SpaceX estima que serão necessárias de três a cinco viagens desse equipamento para abastecer completamente a missão.

Note que, a partir daqui, as coisas ficam mais complicadas. Depois da primeira viagem de abastecimento, o foguete terá que pousar mais uma vez perfeitamente na base de lançamento original, e, algum tempo depois, a SpaceX precisará pousar também a nave-tanque — que voltará vazia — em uma localidade muito próxima.

Isso abre margem para pequenas falhas se tornarem catastróficas. Imagina se a nave-tanque, ao pousar pela primeira vez, explode no chão, levando junto com ela o guindaste que vemos no vídeo e o foguete que a colocaria de volta em órbita?

Elon Musk não falou nada sobre a existência de foguetes e naves-tanque reservas

Esse problema terá o potencial para acontecer repetidamente, uma vez que, se forem necessárias três viagens de reabastecimento, a SpaceX deverá realizar sete pousos no total. Se a missão demandar cinco reabastecimentos, serão 11 pousos. Elon Musk não falou nada sobre a existência de foguetes e naves-tanque reservas para entrarem em cena caso algo do tipo aconteça. Portanto, como ficariam as pessoas em órbita? Elas voltariam e pousariam aonde em caso de falha na missão?

Estamos falando que é arriscado fazer pousos porque a própria SpaceX tem tido más experiências com esse procedimento até o momento. Boa parte dos foguetes Falcon não teve sucesso ao pousar e acabou completamente destruída. Fora isso, sempre existe o perigo dos lançamentos. A própria NASA já registrou acidentes nessa fase das viagens espaciais, incluindo o desastre com o ônibus espacial Challenger, que explodiu no ar com sete astronautas.

O que pode dar errado na viagem

Se não houver nenhum problema com o lançamento e o abastecimento da Heart of Gold durante sua estadia na órbita da Terra, os passageiros e tripulantes poderão seguir viagem para conquistar o glorioso título de “primeiros humanos em Marte”.  Como já mencionamos, Elon Musk acredita que é possível fazer o trajeto em apenas 80 dias, o que é uma estimativa bastante otimista.

Elon Musk acredita que é possível fazer o trajeto em apenas 80 dias

Considerando a tecnologia que se tinha à disposição até agora, descartando então qualquer trunfo que a SpaceX possa ter nesse sentido, pesquisadores calculam que o tempo de viagem a Marte seria de seis a nove meses, ou seja: até 270 dias.

Para que Musk consiga enviar uma nave com cem pessoas a bordo para Marte em um terço do “tempo normal”, seria necessário fazer a Heart of Gold viajar a altíssimas velocidades. Para tal, entretanto, seria preciso queimar mais combustível —o metano nesse caso —, o que pode encarecer a viagem e ainda gerar outros desafios, como espaço para armazenamento no transporte espacial.

Viajando mais rápido, a nave também precisa gastar mais combustível para desacelerar quando estiver se aproximando de Marte. Ou seja, a não ser que Musk tenha uma solução para minimizar isso a fim de completar o percurso em 80 dias, é possível que surjam obstáculos antes mesmo de a nave decolar de Cabo Canaveral, nos EUA.

Outro problema plausível seria a viagem de volta. A atmosfera de Marte é bem menos densa que a da Terra e não deve impor muita dificuldade para uma nave espacial que pretenda decolar de lá, o que é muito positivo para a missão da SpaceX. Contudo, a Heart of Gold deverá fabricar seu próprio combustível a partir dos gases presentes nessa atmosfera alienígena, especialmente o dióxido de carbono.

É perfeitamente possível fabricar o gás metano a partir da atmosfera marciana

Isso em teoria é possível, dada a composição do “ar” de Marte e também graças ao fato de que recentemente foi encontrada água em estado líquido no planeta . É perfeitamente possível “fabricar” o gás metano a partir da atmosfera marciana e também da água, mas isso nunca foi feito lá. Portanto, não se tem, por enquanto, uma estimativa realista de quanto tempo seria necessário manter a nave no lugar para que ela consiga gerar combustível suficiente para voltar.

Claro que dá para calcular isso com certa precisão, mas não existem relatórios de eventuais condições adversas, como tempestades de areia e coisas do tipo. Como você provavelmente assistiu ou leu em “Perdido em Marte”, muita coisa pode dar errado nesse ponto, supondo que a ficção tenha sido corretamente inspirada na realidade.

Saúde no espaço

Elon Musk, em sua apresentação sobre o plano de ir a Marte, comentou o seguinte: “a situação da radiação é bastante comentada, mas eu não acho que seja um grande problema. Certamente existe algum risco relacionado à radiação, mas não é mortal…”. Pode não ser realmente fatal, uma vez que a nave terá algum tipo de escudo para proteger os astronautas, mas, com a tecnologia atual, é impossível impedir que 100% dos raios cósmicos atinjam os passageiros.

"A situação da radiação é bastante comentada, mas eu não acho que seja um grande problema", disse Musk

Portanto, existe sim o risco de prejuízos à saúde por conta da radiação espacial, e estamos falando de algo grave. Segundo um estudo realizado na Universidade da Califórnia, EUA, e publicado na revista Science Advances, a longa exposição à radiação no espaço pode causar sérios danos no cérebro, deixando as vítimas com sequelas similares às da demência.

Essa pesquisa levou em consideração que uma viagem a Marte duraria pelo menos nove meses e afirmou que é provável que os efeitos sejam sentidos ainda durante a jornada. Como o Planeta Vermelho não tem um campo magnético como a Terra, ele também não oferece proteção contra radiação para seus futuros habitantes.

Por isso, mesmo que a viagem com a SpaceX dure apenas 80 dias, existe sim o risco de os passageiros sofrerem danos cerebrais graves, que podem prejudicar sua cognição definitivamente. Isso porque, somando todo o tempo da viagem de ida e de volta com o período necessário para ficar em Marte produzindo metano, certamente já será o suficiente para sintomas da radiação cósmica começarem a aparecer.

A exposição às partículas poderá provocar problemas cognitivos para o resto da vida

"Isso não é uma boa notícia para os astronautas que poderão ser escolhidos para uma missão a Marte. Déficits de memória e a diminuição de atividades cerebrais, por exemplo, poderão afetar partes críticas da missão. E a exposição às partículas poderá provocar problemas cognitivos para o resto da vida", afirmou Charles Limoli, coordenador do estudo, à BBC.

Musk não comentou sobre os sistemas de suporte à vida dentro da Heart of Gold. Durante o vídeo introdutório, também não a vimos girar de alguma forma para simular gravidade nas partes extremas. Isso é importante porque a falta de gravidade e mesmo a microgravidade têm efeitos nefastos no corpo humano, como a possibilidade de atrofia muscular, nos ossos, entre outras.

Estima-se que, a cada mês no espaço, um astronauta pode perder até 1,5% da massa do seu fêmur, por exemplo. Isso causaria osteoporose, já que o corpo humano para de produzir células ósseas quando não há estímulo. Quando não existe gravidade, não há peso; quando não existe peso, não há pressão sobre os ossos das pessoas.

Claro que isso pode ser contornado com máquinas especiais para exercícios no espaço, mas, contando que seriam mais de 100 pessoas na Heart of Gold, quantos equipamentos do tipo seriam necessários para manter todos saudáveis?

Há uma série de outras complicações relacionadas ao sangue e a enjoos, que também podem acontecer tanto em Marte quanto dentro da nave durante a viagem. Isso porque o planeta tem apenas um terço da gravidade da Terra.

Como e do que viver em Marte?

A SpaceX espera concluir a primeira nave espacial para a viagem a Marte até 2019. Em 2024, o lançamento com os cem passageiros seria realizado. Antes disso, entretanto, a companhia mandaria algumas sondas e também uma nave tripulada (com umas 12 pessoas) ao Planeta Vermelho a fim de avaliar as condições e testar todas as suas hipóteses sobre a jornada. Uma base de pouso apropriada seria construída para a chegada dos passageiros mais tarde.

A companhia lançaria uma nave tripulada para o Planeta Vermelho a fim de avaliar as condições e testar todas as suas hipóteses

Essa também seria uma boa chance de levar suprimentos para os primeiros colonizadores do planeta, antes mesmo de eles chegarem lá. Também seria uma oportunidade de avaliar quanto tempo realmente é necessário para produzir combustível suficiente para uma viagem de volta. Mas isso não muda o fato de o nosso planeta vizinho ainda ser um mundo mortal para a espécie humana.

Não é possível respirar em Marte, não há o que comer em Marte, e a gravidade do planeta não é suficiente para manter nossos corpos saudáveis por muito tempo. Portanto, como conseguiríamos viver lá? Musk não deu muitos detalhes, mas se espera que sejam construídas redomas de vidro e fibra de carbono para convivência em solo, devidamente pressurizadas e capazes de oferecer algum conforto. Recentemente, o empreendedor ainda falou que robôs escavadores construiriam grandes espaços subterrâneos pressurizados para atividade industrial.

Mesmo assim, Musk comentou em sua apresentação que o grande objetivo de sua empresa é construir o transporte e possibilitar a ida a Marte. Outros problemas inerentes a essa viagem poderiam ser resolvidos por indivíduos dispostos a explorar o lugar e “construir as funções de um novo planeta”.

Ele até comparou a SpaceX a uma empresa que criou uma linha de ferro na Califórnia e, com isso, abriu um mar de possibilidades para outras pessoas e negócios, ressaltando que hoje aquele é o estado mais bem-sucedido dos EUA. Ou seja, a SpaceX quer ser a “empresa de trem”, e os passageiros teriam que se virar, até certo ponto, para conseguirem fazer algo produtivo em Marte.

Quanto tempo as pessoas poderão ficar lá?

Musk comentou também que, com milhares de lançamentos entre Terra e Marte, seria possível ter 1 bilhão de pessoas vivendo no Planeta Vermelho. Esse objetivo seria alcançado em algo entre 40 e 100 anos, o que tornaria a colônia marciana completamente funcional e quiçá autossustentável. Com isso, deu até para inferir que não haveria um limite de tempo para uma pessoa ficar morando em Marte.

Contudo, considerando os problemas inerentes ao ambiente, como baixa gravidade e recursos alimentares limitados, provavelmente uma colônia no planeta não poderia manter as mesmas pessoas para sempre ou por muito tempo. Até existe a possibilidade de população permanente, mas com rodízio de moradores, como é feito na Estação Espacial Internacional e também na Antártica, uma localidade terrestre muito inóspita, porém não tanto quanto Marte.

Arte-conceito de como poderia ser uma colônia humana em Marte

Possibilidade de volta

Diferente de outra iniciativa europeia, que pretendia mandar humanos a Marte para uma colônia definitiva, a SpaceX deseja sim trazer as pessoas de volta. Assim como os foguetes da empresa, a Heart of Gold pousaria suavemente em solo marciano já na posição de decolagem. Essa técnica é chamada de retropropulsão supersônica, na qual a nave ou foguete começa sua descida na atmosfera “de barriga” e vai se posicionando “em pé” para o pouso.

Como a atmosfera de Marte é pouco densa, ela não ajuda a desacelerar objetos que chegam do espaço. Isso é ótimo para quem pretende decolar a partir de lá, mas terrível para quem quer pousar. A retropropulsão supersônica seria praticamente a responsável integral pela descida de forma segura.

Contando que isso dê certo e não acabe em desastre, os viajantes do espaço teriam a chance de construir uma colônia e morar um tempo em Marte até a nave produzir metano o suficiente a partir do ar e da água locais. A possibilidade de retorno, portanto, seria menos arriscada do que todo o procedimento de decolagem da Terra, que envolve muitos lançamentos para abastecimento.

O retorno seria menos arriscado do que todo o procedimento de decolagem da Terra

Essa diferença se dá pelo fato de ser mais viável fazer vários lançamentos leves a partir da Terra em vez de um bem pesado. A nossa atmosfera densa, que impõe atrito na subida, assim como a gravidade mais intensa, dificultam esse tipo de atividade. Como em Marte o problema é bem menor, a Heart of Gold provavelmente não precisaria de um foguete propulsor como na Terra e conseguiria levantar todo o seu combustível em um só lançamento.

Se nada der errado no caminho de ida — a menos que toda a tripulação sofra com “demência” decorrente da radiação cósmica —, a volta para casa deve ser relativamente tranquila. Pelo menos assim esperamos. Mas depois de tudo isso que você leu, ainda teria coragem de ir a Marte com a SpaceX? Deixe sua opinião nos comentários.

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