Sinal alienígena? Mistério da detecção de Proxima Centauri foi resolvido!

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Imagem: Jeff Hellerman
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*Este texto foi escrito por um colunista do TecMundo; saiba mais no final.

Nos meses de abril e maio de 2019, o radiotelescópio do Observatório de Parkes, na Austrália, captou um sinal bastante peculiar. Essa detecção, cuja origem parecia ser o sistema estelar de Proxima Centauri, nosso vizinho estelar mais próximo, a "apenas" 4,2 anos-luz de distância, foi um sinal de frequência equivalente a 980 MHz que apareceu só uma vez e nunca foi detectado novamente.

Na busca por vida inteligente fora da Terra, essa frequência específica é fundamental porque se encontra na faixa de ondas de rádio que podem ser geradas devido à presença de instrumentos tecnológicos. Em outras palavras, essa seria uma possível detecção das chamadas tecnoassinaturas: marcadores que fornecem evidências científicas de tecnologia passada ou presente.

Radiotelescópio Parkes, na AustráliaRadiotelescópio Parkes, na AustráliaFonte:  Stephen West 

O radiotelescópio Parkes faz parte do ambicioso projeto de US$100 milhões chamado Breakthrough Listen Project, o maior programa de pesquisa científica já criado para encontrar evidências de civilizações inteligentes além da Terra que, além de incluir a observação de um milhão das estrelas mais próximas do Sistema Solar ao longo de toda região na direção do centro da Via Láctea e do seu disco, buscará “escutar” outras 100 galáxias próximas à nossa.

O sinal captado ficou conhecido como BLC1 (Breakthrough Listen Candidate 1) e não oferecia nenhuma explicação imediatamente óbvia. Registrado por cerca de 30 horas, observações subsequentes falharam em detectá-lo novamente, fato imprescindível para confirmar um sinal como uma tecnoassinatura. Por essas características, muitos cientistas recordaram-se do famoso sinal Wow!, detectado em 1977, que também apresentava características de uma possível tecnoassinatura. O sinal Wow! também foi detectado apenas uma vez, nunca foi totalmente confirmado e permanece inexplicado até hoje — Essa história contaremos em um outro texto.

Quando a detecção do BLC1 foi feita, os pesquisadores escaneavam o sistema de Proxima Centauri em um intervalo de frequência de 700 MHz a 4 GHz, com uma resolução de 3,81 Hz. E o que isso significa? Bom, seria o equivalente a tentar sintonizar mais de 800 milhões de canais de rádio ao mesmo tempo e com uma grande precisão.

Proxima Centauri, a estrela mais próxima do Sistema SolarProxima Centauri, a estrela mais próxima do Sistema SolarFonte:  ESA/NASA/Hubble 

Primeiro, os astrônomos verificaram se o sinal estava mudando de forma constante em frequência ao longo do tempo. Ao detectar uma tecnoassinatura, é esperado que a fonte do sinal, que estaria localizada em um planeta fora do Sistema Solar, se mova em relação a qualquer telescópio na Terra que o detecte, o que levaria a uma mudança em sua frequência. Essa mudança na frequência é caracterizada pelo famoso efeito Doppler.

Ao descartar as detecções que não apresentavam essa variação na frequência, o número de casos possíveis caiu de cerca de 4,1 milhões para aproximadamente 1 milhão. A partir disso, os pesquisadores determinaram se esse número reduzido de casos parecia vir, de fato, da direção de Proxima Centauri. Para fazer isso, o telescópio apontou na direção da estrela e depois apontou para longe, repetindo esse padrão por várias vezes. Dessa forma, as tecnoassinaturas deveriam aparecer apenas nas observações feitas quando o telescópio está olhando em direção à estrela. Ao final desse processo, apenas o sinal BLC1 persistiu e se tornou o melhor candidato do programa até o momento.

Contudo, o que poderia terminar com uma grande revelação para humanidade e certamente um dos mais fortes candidatos ao prêmio Nobel de Física dos anos seguintes, acabou provando-se como mais uma detecção errônea. Quando Sofia Sheikh, radioastrônoma coautora destes trabalhos, buscou em um catálogo de dados mais amplo, que incluía observações feitas em outras ocasiões, ela encontrou ao menos outros 60 sinais que compartilhavam muitas características do BLC1, mas que também foram detectados em observações quando o telescópio apontava para longe de Proxima Centauri. Isso sugere fortemente que o BLC1 não é, de fato, uma tecnossignatura genuína e sim alguma interferência de tecnologia humana.

Mas não se engane! Os astrônomos conhecem bem as formas de interferência de sinais de rádio de instrumentos humanos, tanto daqueles localizados na superfície, quanto dos satélites em órbita. Esse não foi um equívoco infeliz. O BLC1, embora tenha sido gerado por interferência humana (ainda que não se saiba exatamente qual), era particularmente similar ao tipo de sinal que se esperaria vir do espaço. Isso fez com que os algoritmos e os filtros de detecção da interferência de radiofrequências terrestres fossem enganados, o que levou muito mais tempo que o comum para que se concluísse que era um sinal de origem humana.

Concepção artística de Proxima Centauri b, exoplaneta de 1,3 massas terrestres que estaria na zona habitável de Proxima CentauriConcepção artística de Proxima Centauri b, exoplaneta de 1,3 massas terrestres que estaria na zona habitável de Proxima CentauriFonte:  ESO 

De todo modo, o programa Breakthrough Listen continuará monitorando Proxima Centauri, além de outras estrelas, e continuará refinando seus algoritmos para melhorar sua capacidade de discriminar entre sinais reais e falsos. Além disso, no futuro próximo, novas instalações de sofisticados radiotelescópios — como por exemplo o MeerKAT, na África do Sul — possibilitarão melhorarias significativas na sensibilidade e no poder de observação, podendo chegar a observar milhões de estrelas por ano. Com sorte, assim teremos a evidência necessária de que não estamos a sós no Universo.

Nícolas Oliveira, colunista do Tecmundo, é licenciado em Física e mestre em Astrofísica. É professor e atualmente faz doutorado no Observatório Nacional, trabalhando com aglomerados de galáxias. Tem experiência com Ensino de Física e Astronomia e com pesquisa em Astrofísica Extragaláctica e Cosmologia. Atua como divulgador e comunicador científico, buscando a popularização e a democratização da ciência. Nícolas está presente nas redes sociais como @nicooliveira_.

Fontes