Pessoas que escutam uma mesma história sincronizam batidas do coração

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Assistir à sua série favorita com o "mozão" pode ser ainda mais romântico com esta descoberta: quando pessoas são cativadas pela mesma história, seus corações passam a bater em sincronia. Não é fofo?!

Segundo um estudo publicado em 14 de setembro na revista científica Cell Reports, apesar das batidas do coração serem um processo autônomo – que acontece independente da nossa vontade –, aparentemente elas podem ser moduladas conscientemente conforme os estímulos que recebemos.

Gráfico do estudo demostra a sincronicidade de batidas do coração entre indivíduos que ouvem a mesma história.Gráfico do estudo demostra a sincronicidade de batidas do coração entre indivíduos que ouvem a mesma história.Fonte:  Perez and Madsen et al/Reprodução

Os pesquisadores descobriram ainda que o estímulo narrativo que desencadeia a sincronicidade pode ser em áudio ou visual — mas para dar certo tem que ser interessante para ambos. Se uma pessoa dispersar a atenção durante a narrativa, a sincronia se perde. O estudo concluiu que as flutuações nas batidas do coração são, em parte, movidas por um processo consciente que depende do estado de atenção do indivíduo.

E fica ainda mais interessante: para que a sincronização ocorra, não é necessário que as pessoas que ouvem a história estejam juntas ou ouçam-na ao mesmo tempo. Segundo um tweet do engenheiro biomédico Lucas Parra, envolvido no estudo, isso ocorre porque quando recebemos um determinado estímulo, ficamos preparados para o que pode ocorrer — mesmo que seja apenas uma história e não uma situação real.  E isso inclui as batidas do nosso coração.

Sincronizando corações

af  Macro Mama/Stocksnap 

Para realizar o estudo, os pesquisadores do Instituto do Cérebro de Paris monitoraram os batimentos cardíacos de voluntários por meio de eletrocardiogramas. Independente de onde os participantes estivessem, ouvir um trecho de um minuto de "Vinte mil Léguas Submarinas" (livro de Júlio Verne) ou assistir a vídeos curtos fez com que seus batimentos cardíacos batessem no mesmo ritmo.

Mesmo um vídeo educacional realizou a tarefa de sincronizar as batidas, mostrando que o fenômeno não está vinculado à emoção. "Não se trata de emoções, mas de estar envolvido e atento, pensando no que vai acontecer a seguir. Seu coração responde a esses sinais do cérebro", explicou o neurocientista Jacobo Sitt, co-autor sênior da pesquisa, no comunicado de divulgação do estudo.

Os pesquisadores tentaram repetir o feito com 19 pacientes inconscientes, juntamente com 24 voluntários saudáveis. Como previsto – já que para sincronizar as batidas do coração é necessária atenção –, a maioria dos inconscientes falhou na experiência: 17. Os outros dois não estavam completamente inconscientes — e um deles, posteriormente, recobrou totalmente a consciência.

“Há muita literatura demonstrando que as pessoas sincronizam sua fisiologia umas com as outras. Mas a premissa é que de alguma forma você está interagindo e fisicamente presente no mesmo lugar. O que descobrimos é que o fenômeno é muito mais amplo e que simplesmente seguir uma história e processar o estímulo causará flutuações semelhantes na frequência cardíaca das pessoas. É a função cognitiva que aumenta ou diminui a frequência cardíaca", explicou Parra.

A equipe alertou, no entanto, que este é um estudo muito pequeno e que os resultados precisarão ser verificados com grupos maiores de pessoas. "A neurociência está se abrindo em termos de pensar no cérebro como parte de um corpo físico anatômico real", afirmou Parra. Para ele, a pesquisa é um passo na direção de olhar para a conexão cérebro-corpo de forma mais ampla, "de como o cérebro afeta o corpo."

ARTIGO Cell Reports: doi.org/10.1016/j.celrep.2021.109692.