Aridez, e não apenas água, é essencial para o surgimento da vida

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Um elemento norteia a busca por vida fora da Terra: a água líquida (elemento capaz de sustentar a vida como a conhecemos). Se ao longo das últimas décadas pesquisadores têm descoberto mais e mais indícios de que, afinal, nosso Sistema Solar é bem mais úmido do que sempre se pensou, a pergunta agora é quanta água é preciso para a vida surgir.

“Hidrogênio e oxigênio são os elementos mais comuns no Universo, então é fácil deduzir que a água é um dos principais constituintes de muitos corpos celestes”, disse em agosto o físico Federico Grasselli, pesquisador da Escola Internacional de Estudos Avançados (SISSA).

Se antes a Terra era o único membro do clube dos planetas oceânicos, agora as inscrições estão abertas para outros integrantes — os planetas-anões Ceres e Plutão, assim como as luas de Júpiter, Europa e Encélado, já dão mostras de abrigar imensos oceanos de água sob suas crostas de gelo.

As áreas brilhantes em Ceres são depósitos de carbonato de sódio, levados à superfície pela água de um oceano subterrâneo.As áreas brilhantes em Ceres são depósitos de carbonato de sódio, levados à superfície pela água de um oceano subterrâneo.Fonte:  NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA 

Vida a seco

Achar sinais de vida primitiva é o objetivo da missão a Marte que chegará ao planeta em menos de 2 meses. Em 18 de fevereiro de 2021, a Mars 2020 da NASA pousará o rover Perseverance no equador do planeta, dentro da cratera de Jezero, um leito seco do que era um lago alimentado por rios há 3,5 bilhões de anos (Marte tinha um ciclo da água que sobreviveu no planeta por mais de 100 mil anos).

A escolha partiu, em grande parte, por conta dos argumentos do bioquímico do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade de Cambridge John Sutherland, que afirma ter sido em águas rasas — e não em oceanos primitivos — que a vida surgiu na Terra e, possivelmente, em Marte.

A cratera Jezero, o antigo leito de um lago alimentado por rios.A cratera Jezero, o antigo leito de um lago alimentado por rios.Fonte:  ESA/DLR/FU-Berlin 

Paradoxo da água

O ponto principal de sua pesquisa é a resposta a um paradoxo que persiste há décadas: se a água decompõe o DNA e outras moléculas importantes, como que esse foi o meio no qual as primeiras células surgiram? Resposta: ela não estava nos oceanos, mas em terra firme.

Sutherland levou adiante o resultado de estudos que, nos últimos anos, mostraram que as substâncias químicas essenciais ao surgimento da vida precisam existir em alta concentração e receber radiação ultravioleta do Sol para reagirem, além de um ambiente aquoso que não provoque sua diluição — um lugar onde a água eventualmente seque.

Mesmo a hipótese da vida primordial se formando em terra firme não ser uma unanimidade entre a comunidade científica, ela explica o paradoxo da água.

Sopa primordial

Em 1952, um experimento provou que expor a chamada sopa primordial (elementos químicos à base de carbono dissolvidos em água) ao calor e à eletricidade gera glicina, um aminoácido simples — o que fez surgir o paradoxo de como as moléculas fundamentais da vida, como proteínas e ácidos nucleicos (a base do DNA), sobreviveram à água.

As células resolveram o problema limitando a entrada da água em seu interior; se elas aprenderam a fazer isso, a vida provavelmente se formou onde a água esteve presente apenas de tempos em tempos.

A equipe de Sutherland, aquecendo suavemente elementos simples à base de carbono, submetendo-os à radiação ultravioleta e alternando umidade e aridez, produziu precursores de proteínas e lipídios e, em seguida, os blocos de construção do DNA — o que se considerava impossível de fazer.

Fontes