No último vídeo, para comemorar o capítulo 50 da nossa série de História da Tecnologia, a gente contou a origem da internet no mundo e também como foram feitas as primeiras conexões. Nós vamos seguir falando disso, mas agora contando a história da internet no Brasil.

Você vai saber onde e como começou a rede por aqui, o início das conexões discadas, os provedores clássicos, as pessoas e empresas que fazem parte dessa trajetória e muito mais. Curtiu o conteúdo? Então não se esqueça de se inscrever no canal do TecMundo no YouTube e também conferir todos os episódios anteriores do História da Tecnologia.

Educação é a chave

O começo da internet no Brasil tem um ponto em comum com o da internet geral: educação. Em outubro de 1988, o Laboratório Nacional de Computação Científica, LNCC, no Rio de Janeiro se conecta com a Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. No mesmo ano, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, ou Fapesp, faz uma conexão via Bitnet com um laboratório norte-americano.

As únicas ações eram trocar emails e compartilhar arquivos. A conexão era individual por linha telefônica e ponto a ponto, sem precisar de discagem.

As universidades pagavam tarifas pelo uso dos circuitos pra Embratel, a Empresa Brasileira de Telecomunicações, que na época era estatal e parte da Telebras. 

A Embratel já fazia experimentos desde 76 com transmissão digital de dados, além de criar uma rede interna de serviços chamada Ciranda e uma pública, o Cirandão, com bases de dados públicas pra consulta. Projetos de redes acadêmicas também começaram a surgir nos anos 70, como a Rede Sul de Teleprocessamento, ou RST, no Rio Grande do Sul, mas a grande maioria ficou só no papel. A PUC do Rio também foi pioneira nessas propostas.

Uma logo.

Outro nome importante é o do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, Ibase. Ele abriu em 88 a Alternex, primeira rede privada e independente das universidades pra acessar a internet. Dá pra considerar de forma bem geral que esse foi o primeiro provedor brasileiro.

Começo tímido

Em 1989, é criada a RNP, Rede Nacional de Pesquisa. Com apoio do conselho de pesquisa científica CNPq e do governo, o órgão criou a primeira infraestrutura de conexão com alcance nacional. Em abril desse ano, nasce o domínio .br, pra sites e contas de brasileiros. Faltavam os registros e as pessoas com acesso, mas já era alguma coisa.

Já em 1990, o Brasil entra na NSFNET com esse domínio junto de outros países. Essa sigla era a rede científica dos Estados Unidos e parte do que restou da parte não militar da ARPANET, e foi nada menos que um dos grandes backbones iniciais do que chamamos de internet.

Um mapa.O ainda limitado backbone da RNP em 1992.

No ano seguinte, são criados mais domínios, como org, gov, .com.br e .net.br. Mas o grande feito do ano foi a primeira conexão do Brasil com a internet, em janeiro na Fapesp. Os pacotes trocados com rede mundial já usavam o protocolo padrão TCP/IP.

Em 92, ONGs ganham acesso à internet e a RNP abre o primeiro backbone do país. Essa espinha dorsal ligava 11 estados entre si nas capitais com backbones regionais menores pra integrar outras cidades. Surgiram a ANSP, ou Academic Network at São Paulo, e a Rede Rio.

A revolução da Rio-92

A Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, chamada de Eco92 ou Rio92, foi o primeiro evento com internet no Brasil. A ONU doou máquinas pra ajudar na estrutura, RNP e Alternex uniram esforços pra garantir a rede e a correria deu certo. O ano ainda marca o fim da lei de reserva de mercado, que já abordamos em outros vídeos, e aí equipamentos importados chegaram aos montes. A partir daí, o Brasil mostrou ao mundo que estava pronto.

Uma plateia vendo uma palestraA Rio-92, essencial para o início da internet no Brasil.

Vale lembrar que as BBS já eram mania no país desde a década anterior. A sigla pra bullet board system é um sistema que conecta pessoas via telefone pra interagirem em fóruns, troca de arquivos, chat ou até jogos. Uma das mais famosas foi a Canal Vip, criada em 1986. Em 93, o Canalvip foi o primeiro sistema do Brasil a oferecer uma conta de email gratuita.

Uma tela de computador.Cena de matéria de TV da época mostrando as redes BBS.

Em 94, o backbone da RNP ainda era o dominante, mas empresas preferiam redes privadas via satélite. No começo da rede, a velocidade da conexão era de 4800 bps, quase 12 vezes menos que as conexões discadas de anos mais tarde. E o governo em si não tava muito envolvido com isso, só a partir da ação independente de universidades e de órgãos mais específicos.

O nascimento da internet comercial

Aí vem a revolução. Em 20 de dezembro de 1994, a Embratel lança o serviço experimental de internet comercial no Brasil. Só cinco mil usuários foram escolhidos pra esses testes. Em maio de 95, ele começaria a operar de forma definitiva.

Olha o que tava acontecendo. A Embratel, estatal que detinha a infraestrutura de conexão, seria a única forma do consumidor comum acessar a internet no Brasil. Claro que isso era um absurdo. Nesse ensaio de monopólio, 500 usuários previamente cadastrados eram escolhidos por semana pra ganhar acesso, e tem relatos até de comércio de senhas por fora nessa época.

Um recorte de jornal.

Mas isso durou pouco. No começo de 95, a Embratel perde a exclusividade de distribuição e empresas privadas começam a explorar o serviço, graças a um decreto do ministro das Comunicações, Sergio Motta. Mas a empresa não sai só perdendo: ela ainda daria o acesso da rede aos provedores, e aí eles forneciam ao usuário. A RNP lidou com tráfego comercial até 98, e depois voltou a atuar nos bastidores pra promover o avanço da rede.

Explodindo no país

Aí os internautas brasileiros puderam surfar a vontade nessa rede mundial dos computadores, com o World Wide Web já virando padrão de navegação. A novidade virou capa de revista e até assunto de novela, tipo em Explode Coração, aquela do Cigano Igor.

É nesse período também que computadores aparecem com mais frequência nas casas, ainda de forma bem tímida. Eles eram caros, mas algumas marcas começaram a lançar modelos mais acessíveis, e o povo também fazia alguns sacrifícios. Marcas como CCE, Gradiente e Positivo, que já tiveram a história contada aqui, eram alternativas nacionais.

A partir daí, é novidade atrás de novidade. Em 95 surge o canalvip.com.br, primeiro domínio comercial registrado no Brasil. Sites de notícias, bancos, empresas e bandas foram os primeiros nessa corrida. No final desse ano, já eram 20 provedores privados e 120 mil pessoas conectadas. Nasceu ainda a primeira rede de IRC do país, a Brasirc, e o buscador Cadê.

Uma página antiga.

O ano marca a criação do Comitê Gestor da Internet, ou CGI. O órgão tem representantes da academia, de empresas e usuários, e debate temas e diretrizes da internet no país.

Gigantes que existem até hoje

Em janeiro de 1996, já são 851 domínios no Brasil, incluindo o Jornal do Brasil Online, primeiro jornal online brasileiro, o portal ZAZ que seria o Terra e o UOL. O cantor Gilberto Gil até estreou transmissões de música no país com o lançamento pela internet da música chamada... “Pela Internet”. O Brasil nesse ano ainda teve uma exposição chamada Internet World pra empresas, provedores e empresários mostrarem ou conhecerem a internet.

Em 97 o TSE divulga em tempo real o resultado das eleições, e o Imposto de Renda pode começar a ser declarado online. Surge ainda o cliente de email Zipmail. Em 98, somos 2,1 milhões de usuários e a Telebrás inteira é privatizada, incluindo a Embratel.

Em 99, surge o Mercado Livre pra classificados, o eterno bate-papo UOL e a AOL chega ao Brasil com distribuição em massa daqueles CDs de provedor. Aliás, aqui vale explicar o que são essas siglas. UOL é Universo Online, AOL é América Online e o saudoso BOL é Brasil Online. Tinha ainda o SOL, que era a sigla de uma sigla: SBT Online.

No meu tempo era melhor?

Quem viveu esse período da discada tem boas lembranças de coisas não tão boas. A conta telefônica estourava, não podia tirar o telefone do gancho, tinha que esperar horários estratégicos pra pagar menos, tipo depois da meia-noite ou domingo, demorava eras pra tudo... isso sem contar aquele barulhinho clássico do modem estabelecendo conexão.

Um discador de internet.

E olha que curioso. Em 96, com 25 reais você tinha só dez horas de conexão, segundo a Folha de São Paulo. Por volta de 2000, aqueles discadores gratuitos bombavam. Tinha Ibest, Pop e por aí vai. Em janeiro de 2000, entra no ar o portal iG ainda sem o famoso cachorrinho. Fora o discador, ele foi pioneiro com notícias em tempo real no Último Segundo.

Mais estreias

E em 1º de outubro de 2000, entra no ar um certo site de downloads de jogos e programas chamado Baixaki. Eu sei que vocês querem saber a história do Baixaki e do TecMundo, a gente lê os comentários. Vai ter, mas outra hora, porque já tem muita coisa na fila.

Um site antigo.

As conexões de banda larga, com alta velocidade sem ocupar a linha telefônica, começaram a ser testadas antes disso. A operadora TV Filme, de Brasília, oferecia 2,4 Mbps de velocidade ainda em 97, contra 56 kbps das discadas. Já a tecnologia ADSL, ou Linha digital assimétrica por assinatura, era a mais difundida entre suas variantes e veio só em 2000. Você não pagava por tempo de acesso, mas sim uma mensalidade. Conexões via cabo e rádio vieram a seguir.

Em 2001, estoura a bolha da internet, uma história que a gente já contou por aqui. Vários empresários se deram mal, mas vários sites surgiram também. Rapidamente, o brasileiro também virou fanático por redes sociais e o Orkut, de 2004, foi uma verdadeira febre.

Uma comunidade do Orkut.

O país tinha o maior número de inscritos no serviço e só foi ultrapassado pelo Facebook em 2011. O fechamento das portas pra postagens aconteceu em 2014, pra tristeza da nação.

Onde estamos hoje?

Em conexões móveis, a operadora Vivo estreou o 3G no Brasil em 2004 com velocidades de até 2 Mbps, restrito a poucas cidades. O leilão das faixas de frequência só veio três anos depois. Uma das novidades mais recentes da internet no Brasil é o Marco Civil da Internet, um conjunto de regulamentações e direitos aprovado em 2014.

Uma logo.

Entre os conteúdos está o de neutralidade da rede, que garante que o acesso seja oferecido de forma integral ao consumidor, sem limitação de banda de acordo com o conteúdo acessado. A evolução é bastante notável.

Em 2005, segundo o Ibope, só 11 milhões e 30 mil de pessoas tinham internet em casa e o tempo de navegação mensal era de 15 horas e 14 minutos, que é o tempo que muita gente passa diariamente hoje.

Já em 2016, segundo o IBGE, foram registradas 116 milhões de pessoas conectadas de alguma forma, sendo o celular o principal aparelho. Isso é 64% da população brasileira, ou seja, ainda tem muita gente de fora por desinteresse ou falta de acesso e estrutura. Aliás, em 2016 foi histórico porque as compras online superaram as de lojas físicas por aqui.

Só feras

E a gente precisa falar aqui de algumas das personalidades que tornaram tudo isso possível. Demi Getschko foi o responsável pela primeira conexão no Brasil na Fapesp, e entrou há alguns anos pro Hall da Fama da Internet. Carlos Afonso é outro pai da criança, no comando do Alternex no fim dos anos 80. Aleksandar Mandic foi um dos primeiros executivos daqui a explorar a área e foi sócio fundador do Ig.

Demi Getschko.

Paulo Cesar Breim, o PCB, tinha a famosa BBS Canal Vip que depois virou o primeiro domínio .com.br. E Jack London foi o criador do primeiro e-commerce do país, o Booknet, que virou o Submarino. Tem muita gente que ficou de fora, mas que merece nosso agradecimento por levar a internet brasileira ao que ela é hoje. 

...

Essa é a história da internet no Brasil: um caminho difícil e cheio de problemas, mas que acabou dando certo. E, sem tudo isso, não esqueça que você nem estaria aqui assistindo a esse vídeo.