Qual é a primeira coisa que vem à sua cabeça quando você ouve falar sobre a BlackBerry? Os sentimentos são bem mistos. Há muita gente com ótimas memórias da marca no seu auge, dos celulares de alta produtividade e que pareciam mais modernos do que os demais. Outras pessoas desprezam a empresa, chamando-a de atrasada ou achando até que ela já acabou. Alguns mais novos nem sabem direito o que ela significa — e sua enorme importância para a indústria.

A marca, que começou sob o nome de RIM, tem um lugar marcado na indústria e foi por muitos anos uma das referências em telefonia. Quando Android, iOS e Windows Phone ainda engatinhavam ou nem existiam, ela já utilizava aplicativos, conectividade móvel e serviços de troca de mensagem com segurança e de forma intuitiva.

A seguir, você conhece a saga completa dessa companhia.

Visionária desde o começo

Nada de Japão, Coreia do Sul ou Estados Unidos. Desta vez, a história começa no Canadá. Em 1984, os estudantes de Engenharia Mike Lazaridis e Douglas Fregin fundaram a Research in Motion (RIM). Esse é o nome original da empresa, que só se tornou oficialmente BlackBerry em 2013. Mas “RIM” nunca colou tanto — e, como ele é o principal produto da linha, a mudança foi bastante natural.

Parte da primeira equipe da BlackBerry na apresentação de um projeto

A empresa começou de forma modesta, como um laboratório de engenharia em um pequeno escritório alugado. Só que ela já era ambiciosa e mirava em um mercado novo para o Ocidente: redes sem fio. A RIM lançou terminais e serviços de conexão, sendo a primeira empresa das Américas com produtos de conectividade wireless. A rede utilizada era uma plataforma chamada Mobitex, bastante usada por serviços militares e de segurança pública.

Foi só em 1992 que entrou outra figura famosa na empresa. Trata-se de Jim Balsillie, que assumiu como co-CEO ao lado de Lazaridis. Já o outro cofundador, Douglas Fregin, se aposentou cedo. Desde 2007, ele — sempre o mais tímido e discreto da dupla — vive como bilionário, participando de corridas automobilísticas e financiando pesquisas de saúde na África.

Pontapé inicial

Depois de alguns anos oferecendo serviços de rede e realizando pesquisas, a RIM entrou no mercado de hardware. Mas o primeiro hardware não tinha nada a ver com telefones: foi o DigiSync Film KeyKode Reader, de 1990. O aparelho fazia a leitura e a sincronização de películas e ajudou muito na pós-produção de filmes. Anos depois, ele rendeu à marca um Oscar e um Emmy por contribuição técnica.

Contudo, a estreia no segmento em que ela ficou mais famosa foi só em 1996. O produto se chamava RIM-900 Inter@ctive Pager, tinha formato flip e foi o primeiro pager mensageiro. Ele usava a rede Mobitex e suportava HTML e email.

O sucessor dele, RIM-950, era mais parecido com o formato que ficou famoso. Ele deixou o estilo de concha de lado e tinha um visual bem mais elegante — já com o clássico teclado QWERTY embutido. Apps como calculadora, agenda de contatos e despertador também já faziam parte do sistema.

Mas foi a terceira geração do pager que mudou tudo. Em 1999, o lançamento seria batizado de “RIM-850”, mas a agência de marketing contratada percebeu que as teclas bem separadas entre si pareciam a casca de uma fruta.

O primeiro "BlackBerry" de verdade, já com o nome icônico

Depois de muita discussão, o nome decidido foi BlackBerry, que significa amora-silvestre ou amora-americana. O nome pegou tanto que virou oficial de todas as linhas, do mensageiro, do sistema operacional e de outros serviços da empresa.

Ascensão meteórica

No começo dos anos 2000, a RIM percebeu que era difícil concorrer contra Nokia ou Motorola, líderes do mercado de celulares na época. Ao encontrar o setor corporativo, de políticos e executivos, ela abriu portas que seriam muito bem utilizadas.

O 957 começou a moldar o formato que conhecemos até hoje

Nessa década, a RIM estava no topo. Ela recebeu investimentos e fez abertura de capital em bolsas do Canadá e de Nova York. O BlackBerry 957, de 2000, inaugurou essa nova fase com um design mais vertical, para ser usado com uma só mão.

Mas foi só com o 5810 que o produto conquistou o status de telefone, juntando o celular com agenda eletrônica em um só lugar. Esse modelo tinha conectividade GSM, internet móvel 2G e plataforma baseada em Java. A grande crítica era a ausência de alto-falante e microfone: sim, você precisava de fones de ouvido pra ouvir e falar.

BlackBerry 7210

No ano seguinte, veio uma nova série com o BlackBerry 7210, um dos mais icônicos da marca. Ele finalmente tinha tela colorida e trazia a interface que ficaria conhecida por bastante tempo. Já o 7100t estreou o teclado SureType, que coloca duas letras em uma única tecla para economizar espaço. Isso era combinado com um sistema de dicionário com aprendizado inteligente.

Mas a mudança veio mesmo com o Blackberry Pearl 8100, o primeiro que tentou pegar o consumidor comum, não só o mercado business. Ele tinha uma trackball no topo do teclado para melhor navegação, que virou clássica, além de câmera digital e funções multimídia.

O modelo Pearl com a "trackball"

Depois, vieram diversas séries, incluindo algumas de destaque:

  • 8330 Curve

  • 9000 Bold

E foi em 2005 que saiu o BBM, ou Blackberry Messenger, que funciona até hoje em várias plataformas.

Chega a concorrência

O ano de 2007 foi importante para a companhia, mas por causa de outra empresa. A Apple apresentou ao mundo o iPhone, indicando que o design e as funções do celular estavam prestes a mudar. O Android estreou no ano seguinte — e esses dois rivais seriam responsáveis por muitas dores de cabeça para a RIM.

Sem se intimidar, ela apresentou o BlackBerry 8800 no mesmo ano. Ele tinha GPS, 64 MB de memória interna e tela de 2,5 polegadas. Saiu ainda o Storm série 9500, que trazia tela sensível ao toque pela primeira vez

O primeiro com touchscreen

A BlackBerry teve um de seus melhores momentos de 2005 até 2010, quando ela dominou o mercado de smartphones em vários países, especialmente nos Estados Unidos. Por criptografia na troca de mensagens, teclado e intuitividade de uso, ela era a favorita de líderes mundiais, empresários, quem focava em produtividade ou só queria um telefone “alternativo”.

O começo da queda

A partir da popularização de outras fabricantes e dos sistemas operacionais rivais, a BlackBerry passou a cometer erros fatais. Para começar, o touchscreen não foi bem aplicado pela marca — e virou essencial. Além disso, a loja virtual perdia feio em compatibilidade para as concorrentes Google Play e App Store. Outro golpe sentido foi uma falha geral nos serviços em 2011: ela durou vários dias e tirou a confiança do consumidor.

A dupla Z10 e C10 levantou o mercado, mas não o suficiente

Ela ainda lançou um tablet para entrar no mercado, mas o PlayBook foi um fracasso comercial e de crítica. Em 2013, os BlackBerry Z10 e Q10 tentaram reviver a chama antiga da marca e até geraram publicidade, mas não foram o sucesso esperado. Em 2014, o Passport encantou pelo visual, mas encalhou por ser caríssimo.

Balsillie e Lazaridis: a época de sorrir logo acabaria

A área institucional também apresentava problemas. Em 2012, Lazaridis e Balsillie pediram para sair e foram substituídos por Torsten Heins, que fez vários cortes e adiou um dos principais projetos da empresa, que viria a ser o sistema operacional BlackBerry 10.

Os anos se passaram, e a empresa não conseguiu sair do vermelho. Em 2016, o atual CEO, John Chen, anunciou que a BlackBerry abandonaria o mercado de smartphones, focando em softwares e serviços, deixando parcerias com terceirizadas para o hardware. Atualmente, ela lança modelos com a ajuda da fabricante TCL, incluindo dispositivos com Android, como o KeyOne. Alto custo e foco em segurança e produtividade continuam como principais características da marca — uma tentativa de segurar a base fiel que a segue por todos esses anos.

...

E essa é a história da BlackBerry, uma empresa clássica que ajudou a criar a indústria de smartphones, chegou ao seu auge e foi praticamente destruída por essa mesma indústria anos depois. Hoje, ela tem 0,1% da fatia de mercado, e muita gente acredita que não há mais volta. E você, o que acha?

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