Há algumas semanas, algo inusitado e até um pouco desesperador me aconteceu. De alguma forma, eu “pulei” 12 anos para o futuro e, desde então, estou vivendo essa mistura de sonho com pesadelo.

Como estou muito ocupado babando em tantos avanços tecnológicos, não me dei o trabalho de tentar descobrir como diabos eu vim parar em 2022. Só o que eu consigo fazer é me esbaldar com todas as novidades o máximo que eu puder, pois se isso for um sonho, posso acordar a qualquer momento.

Viagem insólita

Só o que eu sei é que às 14 horas do dia 22 de abril de 2010, eu estava saindo da redação do Baixaki arrumando minha lista de reprodução no iPod Touch — que eu ganhara de presente no final de semana — e fazendo planos para o happy hour do dia seguinte.

Do lado de fora, algum funcionário estava dando uma de alpinista enquanto lavava as janelas do prédio, fazendo com que uma fina cortina de água caísse. Sem perceber, passei por baixo dela, molhando um pouco o iPod.

Viagem insólita

Coincidentemente, toquei na tela do aparelho justamente em uma gotícula de água e vi uma faísca azul sair do meu dedo, exatamente em cima do ícone do jogo “Back To The Future II”. Após isso, só o que me lembro é de um cheiro forte de queimado, ver imagens multicoloridas, unicórnios, uma roda-gigante do tamanho do planeta e desmaiar.

Tive a impressão de acordar 5 minutos depois, deitado na calçada, no mesmo lugar, felizmente sem ninguém lavando janelas. Estava com uma bela dor de cabeça e o dedo indicador direito preto, tostado.

Mas na realidade, mais do que 5 minutos haviam ficado para trás. Eu soube disso instantaneamente, porque a data do iPod marcava o mesmo dia, o mesmo mês, mas o ano 2022. Não acreditei na hora, mas confirmei o fato depois, olhando a data em um relógio de rua.

Choque tecnológico

Quando me recuperei do baque e pude olhar à minha volta, percebi que a paisagem da cidade estava tão diferente que nem parecia ser Curitiba. Para começar, o prédio em que eu trabalhava tinha dado lugar para um arranha-céu que ocupava a quadra toda — e possuía um luminoso gigante na frente, com uma logomarca que lembrava a do Baixaki.

Boa parte dos carros que passavam por mim na rua não possuía escapamento. O design deles não era multicolorido, eles não voavam e suas portas não pareciam abrir para cima. Enfim, pareciam carros perfeitamente normais, mas com linhas mais arrojadas, diferente do que qualquer filme futurista e sci-fi mostraria, 12 ou mais anos atrás.

Choque tecnológico

Fiquei curioso e resolvi andar pelas ruas que costumava usar como caminho de ida e volta do trabalho. Enquanto andava, olhei para o meu reflexo no novíssimo prédio que substituíra o que eu trabalhava. Começou nesse momento uma sucessão de “bocas abertas”.

Meu reflexo no prédio não era exatamente fiel, pois nele eu estava vestido diferente, e dirigia uma moto. Tal reflexo artificial me acompanhava enquanto eu andava e possuía textos publicitários, além de preços indicados em cada peça de roupa, e também na moto.

Choque tecnológico

Algo curioso que notei é que os preços estavam marcados com o símbolo “C$”, que depois eu descobri que significava “Créditos”, já que não se usavam mais notas em papel ou moedas, mas um cartão único que continha todas as informações financeiras e dados pessoais das pessoas.

Como sempre fui um entusiasta do futurismo e de novas tecnologias, continuei meu percurso e tive tantas surpresas ótimas que me senti em um farto banquete, com comida à vontade, e grátis.

Tecnologia avançada no Brasil? Será?

Alguém poderia dizer “isso é impossível! O Brasil sempre fica para trás quando se fala em evolução tecnológica!”, ao que eu responderia “esse pensamento é tão 2010!”.

Explicando: em 2012, ao contrário do que o filme homônimo dizia, o mundo não acabou, mas em 2017, houve uma grande crise energética no mundo devido à grande quantidade de desastres naturais ocorridos nos últimos cinco anos.

Tecnologia no Brasil

Como está em uma posição privilegiada geograficamente, o Brasil se tornou uma das fontes principais de energia das Américas, recebendo recursos para construção de inúmeras usinas hidrelétricas, termelétricas, termonucleares, projetos de captação de energia solar e eólica. Isso fez com que o país se desenvolvesse e conseguisse equiparar seus avanços tecnológicos aos dos EUA.

Em maio de 2022

A propósito, o iPod Touch ainda está comigo, caso você esteja curioso, mas depois de um mês vivendo em 2022, comprovei que absolutamente nada é compatível com ele, mas não pretendo me desfazer dele, já que foi o responsável pelo meu salto temporal.

Cheguei a ouvir risos quando fui a uma loja de eletrônicos perguntar sobre a evolução dos iPods e o vendedor não acreditar que eu tinha em mãos o que ele chamou de “museu”. “Já faz três anos que a Microsoft, a Apple e a Google deram origem ao consórcio mais poderoso do mundo. Não existe mais Windows, não existe mais Mac OS, muito menos o Chromium. Só o que há é o sistema que leva o nome da nova empresa: Horizzon.” – disse ele.

Perguntei a idade do vendedor, que prontamente me disse que tinha 23 anos. Ou seja, ele nasceu no ano de 1999 e viveu tudo o que eu perdi nesses 12 anos que “pulei”. Cheguei, portanto, à conclusão de que ele poderia ser um bom guia e resolvi voltar sempre que tivesse alguma dúvida.

Microsoft, Apple e Google juntas? É ruim hein!

Parte dos relatos que você verá daqui para frente eu ainda não testemunhei, mas o vendedor que riu e fez pouco caso do meu iPod se encarregou de me esclarecer.

Para mim, um mês atrás ainda era 2010, porém hoje é o dia 25 de maio de 2022. Aparentemente eu não envelheci 12 anos como deveria, pois estou com a mesma aparência que tinha em 2010, aos 27 anos de idade.

Isso me deu pelo menos alguma alegria no meio dessa situação peculiar — afinal, quem é que não gostaria de chegar em 2022, com teóricos 39 anos, com a mesma cara de 27 anos que tinha em 2010?

A propósito, devo ressaltar que, provavelmente no início da década de 2030, os primeiros seres humanos poderão ser congelados por períodos de dois anos para teste da tecnologia de criogenia. Alguns milionários que querem ser imortais já estão na fila, incluindo o atual presidente brasileiro, Marcos Mion, que é o sétimo da lista.

Criogenia

A tecnologia de criogenia já era pesquisada antes de 2010 e foi divulgada como revolucionária em 2016. Mas até hoje ela não foi autorizada por nenhum governo, por não ter sido provada sua segurança, o que deve acontecer na próxima década.

"Batutices e traquinagens"

Como eu gosto de tranqueiras tecnológicas, passei meu primeiro mês em 2022 garimpando tudo o que pudesse achar sobre novidades.

A primeira, e mais bem-vinda, foi o fato de praticamente todas as interfaces das máquinas interativas, como bombas de posto de gasolina, caixas de banco, sistemas operacionais, vitrines de loja, computadores, etc., serem usados sem qualquer contato físico.

Devido à recente erradicação da epidemia de gripe F (ou gripe da gaivota), as pessoas preferem não tocar em nada. Por isso, todo tipo de interação com máquina é feita por gestos ou comandos de voz.

Biometria não existe mais. Aliás, existe, mas seu processo é diferente. A autenticação de usuários  através das impressões digitais é feita a laser ou pelo escaneamento da retina, ou mesmo ambos em um só sistema, para melhorar a segurança.

Biometria

Algo que percebi sem querer foi que eu não preciso mais assinar serviços de internet. Não se anime muito, pois a internet não é fornecida pelo governo, nem se tornou gratuita.

Na verdade, as 25 operadoras presentes na cidade se acotovelam para conquistar a fidelidade dos clientes, mas ainda assim é preciso pagar pelos pacotes de dados.

Contudo, em praticamente qualquer lugar que você estiver, haverá um ponto de acesso, e 90% deles são gratuitos e sem qualquer tipo de restrição ou senha. Ou seja, a internet está por todos os cantos, e de graça.

Rede Mesh

Ainda mais impressionante é um sistema inaugurado no ano passado (2021): todo equipamento conectado funciona como um repetidor de sinal.

Ou seja, se você estiver a 20 km da antena Wi-Fi ou 7G mais próxima, o notebook do seu vizinho, que está conectado ao smartphone do dono da padaria, que está conectado ao relógio de pulso de um transeunte, que está conectado a um celular esquecido em um restaurante, que está ao alcance de uma antena, será usado para que você consiga entrar na internet.

Tudo conectado

Finalmente, em 2020, foi terminado o projeto “Conecta Galera”, responsável pelo aumento e melhoria das redes de fibra ótica nos quatro cantos do país. O projeto começou com a desativação definitiva das redes comuns de telefonia e mudança para os sistemas derivados do extinto VoIP.

Ele também viabilizou a chegada dos equipamentos inteligentes:

— Geladeiras percebem quando o leite está acabando e fazem o pedido ao mercado automaticamente;

— Relógios, seja de pulso ou de mesa, possuem conexão 7G e sincronizam a hora automaticamente. Se você viajar para outro fuso horário, o relógio detecta a hora local e faz sozinho o ajuste;

— Praticamente todos os equipamentos utilizados possuem conexão com a internet. Vassouras, geladeiras, micro-ondas, televisões, prédios comerciais e residenciais, relógios, celulares, carros, motos, tratores, aviões, naves espaciais, óculos de grau, óculos de sol, bonecas Barbie, enfim, tudo está ligado a fibras óticas, Wi-Fi ou 7G.

Geladeira inteligente

Nuvens e mais nuvens

Como todos estavam prevendo, a computação em nuvens tomou proporções gigantescas. Encontrar pessoas que possuam computadores com um disco rígido instalado é raríssimo — apesar de eles ainda existirem.

Como a infraestrutura da internet permite altíssima velocidade de transferência de dados, os discos rígidos saíram da moda. O que aconteceu foi uma fusão das redes sociais, tão populares em 2010, com sistemas de armazenamento e compartilhamento online.

Computação em nuvens

As pessoas não se preocupam em instalar software em seus dispositivos, pois só o que elas precisam é de um navegador. Algumas empresas fornecedoras dos serviços até lançaram seus próprios navegadores, facilitando assim o acesso aos recursos que o assinante contratou.

Jogar, digitar textos, elaborar planilhas e apresentações, usar mensageiros, ouvir música e executar qualquer outra tarefa agora dispensa o usuário da aquisição de equipamentos físicos de armazenamento.

Eficiência energética

Lembro-me bem de ter escrito em 2009 ou 2010 um artigo para o Baixaki, falando sobre a tecnologia de transmissão de energia através do ar.

Apesar de ter eficiência para carregar equipamentos que tenham pouco consumo de energia, uma grande quantidade de produtos eletrônicos são alimentados e carregados por eletrodos espalhados pelas residências e escritórios.

Eficiência energética

Quando um eletrodo não estiver disponível e o dispositivo for portátil, ele automaticamente procura outra fonte de energia, que geralmente é a solar.

Dia a dia

Apesar de imaginar os riscos, resolvi visitar um amigo tão entusiasta de tecnologia quanto eu. Quando acordou do terceiro desmaio devido ao susto de me ver depois de doze anos desaparecido, e com a mesma aparência, finalmente ele recobrou a presença de espírito e pôde me convidar para entrar em sua casa.

O portão da residência se abriu quando meu amigo olhou para um pequeno orifício no muro, a porta não tinha maçaneta e, além de ela se abrir assim que nos aproximamos, uma voz robótica disse “seja bem-vindo Sr. Ricardo. Para qual temperatura devo ajustar o termostato?”. Meu amigo respondeu com um “vinte” e, poucos segundos depois, uma brisa fraca começou a circular.

Quando entrei, vi duas empregadas circulando pela casa, organizando e limpando qualquer coisa que encontrassem. Uma delas passava tinta branca no teto, próximo ao lustre, para cobrir uma mancha de infiltração. Ambas eram de uma espécie de robô destinada especificamente ao trabalho doméstico.

Empregadas cibernérticas

À medida que caminhávamos, as luzes se acendiam automaticamente, pois estava anoitecendo. Fomos até a sala e sentamos no sofá, fazendo com que a televisão ligasse sozinha, com o volume baixo.

Depois de algumas horas tentando explicar o que aconteceu, pedi ao meu amigo que me emprestasse qualquer coisa que eu pudesse usar para digitar este relato. Ele fez alguns gestos e uma espécie de processador de texto apareceu na tela da televisão, além de um teclado ser projetado em cima da mesa de centro do cômodo.

iPod Touch

Não me pergunte como este texto chegará até vocês, em 2010, porque eu não faço a menor ideia, mas suspeito que meu iPod terá algo a ver com isso.

Só sei que estou aqui, preso em uma época mais avançada do que eu, que tenho um cérebro ainda tentando se desvencilhar do ano em que ganhei um iPod Touch e achei que era um dos “brinquedinhos” mais revolucionários.

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