Vamos começar com uma informação importante: esqueça tudo o que você aprendeu até hoje sobre os motores 1.0 e suas aplicações. Não faz muito tempo que a desconstrução dos conceitos que foram tão batidos na indústria automobilística brasileira se tornou mais do que necessária: o "carro mil", como conhecemos, está em extinção – e o Ford Fiesta, em sua nova versão Ecoboost, veio para provar isso.

A explicação pode ser simplificada com apenas uma palavrinha em inglês: downsizing, a nova febre da indústria de automóveis. Pegue um motor pequeno, adicione sobrealimentação e voilà, você extrai um desempenho melhor que de um 1.6 (ou até de um 1.8, dependendo da referência) de um pequenino propulsor de um litro, com um dos benefícios principais desse tipo de cilindrada, que é a economia de combustível.

No entanto, essa tecnologia bacana vem a um preço – R$ 71.990, para ser mais exato. Isso porque o novo 1.0 Ecoboost está disponível apenas na versão topo de linha do Fiesta, chamada de Titanium Plus, que acompanha também, como única opção de câmbio, a transmissão automática Powershift de seis marchas.

Achou o preço salgado? Relaxa, você não está sozinho. Então será que o Fiesta vale o que pede? É hora de descobrir – mas, antes, alguns tópicos relevantes:

Downsizing: o futuro (breve) dos motores à combustão

O downsizing vem sendo incorporado pelas montadoras do mundo todo para prolongar um pouco mais a vida dos motores à combustão antes da chegada e tomada dos veículos elétricos.

O termo, que basicamente significa "redução de tamanho", é bem explicativo: você pega propulsores menores, que geralmente são mais econômicos e eficientes, e, com a ajuda da sobrealimentação, faz com que eles forneçam potência e torque equivalentes aos de um maior. É a tecnologia embarcada na engenharia, que, geralmente, nós consumidores não vemos, apenas aproveitamos – às vezes, sem saber.

Um motor 1.0 não ser mais relacionado a um carro popular é um choque para o consumidor brasileiro

Em outras palavras: é tirar a potência de um 1.6 em um 1.0. Isso, por si só, já é um choque para nós brasileiros, que sempre relacionamos os motores "mil" aos carros populares. Lembra da parte de desconstruir conceitos, ali em cima? Pois bem, hora de começar: a litragem não significa mais nada.

Mas não pense que esse é um exercício exclusivo nosso: a Ford pode não ter sido a primeira a levantar a bandeira do downsizing, mas, com certeza, tem tido uma boa parcela de sucesso graças a sua família de motores Ecoboost – mesmo que isso signifique mexer com seu público "de casa": os norte-americanos.

Quando a Ford anunciou o lançamento de sua F-150 Raptor sem um V8 – uma das maiores relíquias da indústria automotiva dos EUA –, o povo enlouqueceu. No lugar, veio um V6 turbo de 3.5 litros que gera 40 cavalos a mais do que os 416 anteriores. Quando o Ford GT, um dos ícones da empresa, veio com o mesmo motor, aí sim deu para perceber que não era brincadeira: o downsizing veio para ficar.

A provação veio há poucas semanas, quando a montadora, através da sua divisão Ford Performance, faturou duas posições no pódio das 24 Horas de Le Mans de 2016 – uma corrida absolutamente dominante, graças à eficiência do motor Ecoboost. Por ser mais econômico (na medida do possível, claro), potente, eficiente e, em teoria, barato de ser produzido, fica realmente difícil argumentar contra.

Com dois ótimos representantes que mostraram que a tecnologia realmente funciona, foi a vez dos veículos mais convencionais da marca passarem a receber o mesmo tratamento: aqui no Brasil, o Fusion foi o primeiro a abrir mão do antigo V6 e receber um quatro cilindros turbo com a mesma cavalaria, só que com mais torque e mais econômico. O consumidor recebeu bem a novidade.

Agora chegou a vez do Fiesta ganhar um novo coração que, assim como todos os outros exemplos citados aqui, faz muito bonito.

1.0, três cilindros e turbo: o novo coração do Ford Fiesta Titanium Plus

Por fora, o Fiesta não recebeu qualquer mudança. Por dentro... Também não. Porém, basta abrir o capô para entender quem é o real protagonista do novo anúncio da Ford. O pequenino e premiadíssimo motor de um litro, três cilindros e turbo, da família Fox, é importado da Romênia – o que, segundo o marketing da montadora, justifica em partes o aumento no preço do carro, que custava por volta de R$ 69 mil na versão anterior.

O protagonista da festa: o motor de três cilindros 1.0 turbo que rende o mesmo que um motor 1.6 – e isso é algo considerável

Disponível desde 2012 na Europa e equipando alguns modelos disponíveis por lá, somente agora o motor fez sua estreia por aqui. Abastecido exclusivamente com gasolina, ele produz 125 cavalos de potência – o mesmo número do seu irmão 1.6 da família Sigma –, mas o grande destaque do Ecoboost 1.0 é a entrega de torque em baixíssimas rotações: são 17,3 kgfm que começam a ser despachados já nos 1.400 RPM até o pico, em 4.500 RPM.

O grande destaque do motor Ecoboost 1.0 é a entrega de torque em baixíssimas rotações: são 17,3 kgfm que começam a ser despachados já nos 1.400 RPM

É aí que está o pulo do gato que faz com que você não sinta a falta de fôlego de um motor mil convencional – e, acredite, o pequenino rende muitíssimo bem. Numericamente, o propulsor Ecoboost supera o irmão 1.6 aspirado em todos os aspectos: é mais econômico, mais potente e mais rápido. O 0 a 100 é feito em apenas 9,6 segundos, o que não é nada mau.

Na estrada, é perfeitamente possível rodar a 110 km/h na faixa dos 2,8 mil giros em sexta marcha e ver o computador de bordo marcando uma saudável média de 16 km/l – sem ruídos e sem a vibração que é característica em motores de três cilindros. Na cidade, não é difícil manter o número acima da faixa dos 12 km/l.

A questão é que, nas retomadas, o motor responde bem, mas o desengonçado câmbio Powershift de 6 marchas mascara bastante a performance do pequeno notável. Seja na estrada ou na pista – porque, sim, ele foi testado no circuito de Velo Città –, o atraso na redução das marchas, junto com a atuação do controle de tração, fazem as respostas serem bem mais lentas do que se espera, mesmo com o câmbio no modo sport.

Para aqueles que têm um certo trauma de carros turbo (obrigado, década de 90), principalmente relacionado à parte de manutenção, não se preocupe: os preços não estão exorbitantes e as revisões programadas ficam, em média, apenas 30 reais mais caras do que as do motor 1.6 convencional.

Estruturalmente, o carro se comporta superbem nas curvas. O controle de estabilidade e os freios funcionam de forma exemplar e transmitem muita segurança mesmo em situações em que o carro é usado no limite.

Mas... e a tecnologia?

No evento de lançamento do Fiesta Ecoboost, o termo "tecnologia" foi usado à exaustão – o que me deixou meio intrigado, na verdade. Ela está lá, mas empregada de uma forma com que todos nós, que escrevemos e lemos o TecMundo, não estamos acostumados. É a tecnologia embarcada na engenharia, usada para fazer um motor e um carro mais inteligentes – algo que vai além dos nossos olhos.

A tecnologia como nós conhecemos – aquela das telas touch, comandos de voz e compatibilidade com smartphones – aparece de forma bem sutil, talvez até sutil demais

Sim, o motor Ecoboost conta com injeção direta, duplo comando variável de válvulas, coletor integrado ao cabeçote e traquitanas que permitem que o turbolag – aquele tempo que leva até a turbina encher – seja bem amenizado. Não há, realmente, qualquer dúvida de que a turma da engenharia fez seu trabalho de forma excelente.

O que causou estranheza, no entanto, é que a tecnologia como nós conhecemos – aquela das telas touch, comandos de voz e todo tipo de compatibilidade com smartphones que facilitam a vida e trazem mais segurança – aparece de forma bem sutil. Talvez até sutil demais.

Minha visão durante boa parte do dia de testes: o painel de instrumentos é bacana, mas o pacote de infotainment poderia ser melhor

O conjunto de multimídia conta com um sistema de conectividade SYNC que tem comandos de voz, além do sistema AppLink que permite que você acesse alguns aplicativos específicos. No entanto, tudo é feito através de botões localizados no painel central do veículo e exibido em uma diminuta tela de 4 polegadas.

Algumas funções, como telefone e rádio, podem ser controladas através de botões no volante, mas o processo de pareamento de Bluetooth e acesso aos aplicativos é mais complicado do que deveria, principalmente quando comparado às centrais multimídias já disponíveis no mercado.

Outras comodidades estão lá: partida por botão – e, por consequência, chave com sensor de presença –, piloto automático (não adaptativo), acendimento automático de faróis, sensor de chuva e ar condicionado digital. Mas isso é esperado num carro desse preço, certo?

Sim, precisamos falar do preço

O Fiesta agora passa a ser disponibilizado em três versões: SE, partindo de R$ 51.990; SEL, a partir de R$ 58.790; e, finalmente, a Titanium Plus, que começa em R$ 70.690 na versão 1.6, mas chega nos fatídicos R$ 71.990 na versão Ecoboost.

O Fiesta, do ponto de vista mecânico, é um carrinho realmente espetacular: dinâmico, potente, confortável e gostoso de dirigir

O Fiesta, do ponto de vista mecânico, é um carrinho realmente espetacular: dinâmico, potente, confortável e gostoso de dirigir. A parte de segurança também faz bonito: os sistemas de estabilidade, ABS e o conjunto de 7 airbags estão lá e são ótimas características no segmento dos hatches compactos.

Não se engane: o Fiesta Ecoboost não veio para rivalizar com os tipos de Up! TSi ou Peugeot 208 GT THP. Seu turbo não tem função de esportividade, mas sim de eficiência. Ele continua sendo a versão topo de linha, voltada para o conforto e para o conjunto.

No entanto, por um preço parecido – e às vezes mais baixo –, é justamente esse conjunto na parte de infotainment que você consegue algo mais avançado. No que diz respeito à tecnologia orientada para os ocupantes, ele poderia ser melhor: os rivais imediatos elencados pela própria Ford, o Hyundai HB20 e o Volkswagen Fox, dispõem de um sistema multimídia bem mais avançado, com tela touchscreen e compatibilidade com o Apple CarPlay e Android Auto.

No que diz respeito à tecnologia orientada para os ocupantes, ele poderia ser melhor

Apesar de funcionar relativamente bem, o SYNC não possui uma interface intuitiva e faz com o que o usuário "se bata" para conseguir fazer o que quer, seja tocar uma música do celular ou acessar algum aplicativo.

Além disso, na parte de dirigibilidade, a ausência de paddle shifts – as borboletas atrás do volante – é bastante sentida num carro de transmissão automática sequencial. Nesse ponto o Fiesta até não fica atrás dos concorrentes, já que poucos oferecem o item, mas isso acaba fazendo com que a presença de um modo Sport no câmbio perca um pouco do sentido.

No fim das contas, vale a pena?

A Ford acertou em cheio ao trazer a família Ecoboost para o Brasil. A chegada do downsizing com força total é algo que deve ser visto com muitos bons olhos porque faz com que os consumidores percebam que existe todo um trabalho e uma tecnologia orientados para tornar os carros mais eficientes – o problema foi o cálculo do custo para trazer isso para cá e a forma como isso foi repassado ao consumidor.

A empresa afirmou que esse é um carro feito para quem busca um produto diferenciado e sabe que isso corresponde a uma parcela relativamente pequena do mercado brasileiro. Eles sabem que o valor é alto e assumiram o risco da manobra mesmo assim – inclusive sabendo que sua chegada faz com que ter um modelo com as mesmas características na versão 1.6 perca completamente o sentido.

A Ford sabe que o valor é alto e assumiu o risco mesmo assim

Por outro lado, a abordagem de que ele é um carro altamente tecnológico pode causar confusão na cabeça dos consumidores, que não estão habituados a considerarem a tecnologia embarcada na engenharia como algo palpável. Enquanto a parte mecânica e de segurança foi aplicada de forma exemplar, o carro peca em uma parte que é considerada hoje como um diferencial para compra.

O #17 ao fim do dia: ótimas impressões do excelente desempenho do pequenino motor Ecoboost

De qualquer forma, não há qualquer dúvida de que o novo Fiesta com o motor Ecoboost é um veículo excelente: ele tem um ótimo desempenho, é econômico, confortável e seguro – ou seja, faz tudo o que um Ecoboost se propõe a fazer. Agora, ele realmente vale R$ 72 mil? Só o resultado das vendas poderá dizer.

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