Longevidade: o segredo pode estar nas bactérias que vivem no intestino

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Imagem: Alpha Tauri/Shutterstock
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Algumas pessoas com mais de 100 anos de idade apresentam um número maior de micróbios intestinais únicos que inibem o crescimento de patógenos no órgão, permitindo que esses indivíduos vivam mais tempo.

Esta é a conclusão de um artigo publicado no fim de julho na revista Nature que pode ser mais um passo para revelar o segredo da longevidade, buscado por gerações ao longo da história.

Para avaliar essa provável relação entre microbiota entérica e tempo de vida, os pesquisadores analisaram os microrganismos dos intestinos de pessoas de diferentes idades. Dos 319 indivíduos estudados, 160 deles tinham pelo menos 100 anos (107 em média), 112 tinham entre 85 e 89 anos, e 47 pessoas eram mais jovens, com idades entre 21 e 55 anos.

O estudo sugere a possibilidade de manipulação de um conjunto de ácidos biliares, metabolizando as capacidades dessas bactérias amigáveis pelos benefícios que elas são capazes de proporcionar à saúde.

No entanto, falando ao site Live Science, uma das autoras do estudo, Kenya Honda, recomenda cautela, pois "não temos nenhum dado mostrando a relação causa e efeito entre eles”.

A microbiota humana

Nos últimos anos, diversos estudos têm sido publicados com fortes evidências de que uma boa qualidade de vida está relacionada à saúde intestinal. Essas pesquisas demonstraram que alguns perfis bacterianos no intestino estão ligados a transtornos psíquicos e psiquiátricos, tanto através de influência direta no cérebro, quanto da proteção cardiovascular.

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A nossa microbiota, também chamada de flora intestinal, tem início logo após o nascimento do bebê, sendo a mãe a fonte primordial desses microrganismos.

Pesquisas indicam que a colonização das bactérias entéricas pode começar antes mesmo do parto, dentro do útero. Já o perfil metabólico é influenciado por inúmeros fatores.

Hipóteses da nova pesquisa

A microbiota intestinal é a soma de todos os microrganismos que residem no intestino humano. Composta principalmente por bactérias, mas incluindo também certos fungos, arqueias e até vírus, essa comunidade de micróbios desempenha importante papel em nossa saúde à medida que envelhecemos. Assim, menor diversidade bacteriana tem sido associada a fragilidades em adultos mais velhos.

Com base nessa premissa, os pesquisadores enunciaram a hipótese de que pessoas centenárias podem ter bactérias intestinais que contribuem para a sua boa saúde e, consequentemente, para a longevidade.

Os resultados da análise comparada revelaram que os indivíduos com mais de 100 anos possuem níveis particularmente altos de um ácido biliar secundário (produzido no fígado) chamado ácido isoalolitocólico (isoalloLCA). Ao identificar quais bactérias produziam especificamente o isoalloLCA, descobriram que elas pertenciam à família Odoribacteraceae.

Mas a descoberta mais importante foi de que o isoalloLCA possui propriedade antimicrobianas potentes, que teoricamente pode inibir o desenvolvimento de bactérias nocivas ao intestino. Em um experimento com ratos, a aplicação do ácido retardou o crescimento da Clostridium difficile, uma bactéria que causa diarreia e inflamação no cólon. O isoalloLCA também inibiu o crescimento de enterococos resistentes a antibióticos.

Se essas bactérias produtoras de ácido biliar são naturalmente úteis para um intestino saudável, poderiam então ser utilizadas como probióticos, pondera Honda, para melhorar preventivamente a saúde humana de pessoas mais jovens. Segundo a microbiologista, essas células biológicas revelaram-se seguras para o organismo humano, por não secretarem toxinas ou abrigarem genes resistentes a antibióticos.

Embora a pesquisa não tenha coletado informações sobre a dieta dos participantes, nem hábitos de exercícios ou uso de medicamentos, o campo de estudos revela-se promissor. Ensaios futuros, com populações maiores, poderão fornecer informações mais precisas sobre a relação entre bactérias intestinais e longevidade.

ARTIGO Nature: doi.org/10.1038/s41586-021-03832-5