Nuvens devem aumentar aquecimento global, sugerem dados de satélites

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Cientistas do Imperial College de Londres e da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, publicaram um estudo que afirma que as nuvens da Terra devem amplificar o aquecimento global no longo prazo — agravando ainda mais as mudanças climáticas. Os resultados foram publicados em julho no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Essa nuvem fofinha pode ser responsável por deixar nosso planeta mais quente.Essa nuvem fofinha pode ser responsável por deixar nosso planeta mais quente.Fonte:  freestockcenter/Freepik 

A pesquisa sugere que, com concentrações de dióxido de carbono atmosférico (CO2) medindo o dobro dos níveis pré-industriais (já passamos de 280 ppm — partes por milhão — para os atuais quase 420 ppm), o clima provavelmente não aquecerá menos do que 2 ºC — inclusive é mais provável que aqueça mais de 3 °C. Isso significa que, se não forem feitos cortes significativos nas emissões do gás tóxico, podemos nos aproximar do dobro da quantidade pré-industrial em meados do século.

Sensibilidade climática

A sensibilidade climática é a medida de quão fortemente nosso clima reagirá à quantidade de aquecimento do clima prevista pela duplicação dos níveis pré-industriais de CO2. Até o momento, a maior incerteza nas previsões de sensibilidade ao clima era a influência das nuvens no aquecimento global — e como elas poderiam mudar no futuro. Isso porque as nuvens, dependendo de propriedades como densidade e altura na atmosfera, podem aumentar ou diminuir o aquecimento.

Calculando as nuvens

“O valor da sensibilidade climática é altamente incerto, e isso se traduz em incerteza em futuras projeções do aquecimento global e no orçamento de carbono restante", explicou, em comunicado à imprensa, o coautor do estudo, Dr. Paulo Ceppi, do Instituto Grantham de Mudanças Climáticas e Meio Ambiente do Imperial College.

“Há, portanto, uma necessidade crítica de quantificar com mais precisão como as nuvens afetarão o aquecimento global futuro. Nossos resultados irão significar que estamos mais confiantes nas projeções do clima e podemos ter uma imagem mais clara da gravidade das mudanças climáticas futuras. Isso deve nos ajudar a conhecer nossos limites — e agir para permanecer dentro deles”, afirmou o pesquisador.

Enquanto nuvens baixas tendem a ter um efeito de resfriamento, pois impedem o sol de atingir o solo, nuvens altas têm efeito de aquecimento, pois, embora deixem a energia do sol atingir o solo, a energia emitida de volta da Terra é diferente — e pode ficar "presa" pelas nuvens, aumentando o efeito estufa.

Inspirada por ideias da comunidade de inteligência artificial, a equipe de pesquisadores desenvolveu um novo método para quantificar as relações entre as observações globais de nuvens por satélite mais recentes e as condições associadas de temperatura, umidade e vento. A partir dessas relações observadas, eles finalmente conseguiram entender melhor como as nuvens mudarão com o aquecimento da Terra.

Resultados da análise das nuvens

Os pesquisadores descobriram que a probabilidade de que as nuvens ampliem o aquecimento global é de 97,5%. Assim, elas refletiriam menos radiação solar e aumentariam o efeito estufa. Os resultados também sugerem que uma duplicação das concentrações de CO2 levará a cerca de 3,2 °C de aquecimento na temperatura média da Terra. O estudo é o de maior confiança até o momento, baseado em dados de observações globais ao invés de apenas de determinadas regiões ou tipos de nuvem.

“Nossa nova abordagem nos permitiu, pela primeira vez, derivar um valor global para esse efeito de feedback usando apenas os dados de satélite da mais alta qualidade como nossa linha de evidência preferida", disse, na mesma publicação, o coautor Dr. Peer Nowack, da Escola de Ciências Ambientais e Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia.

Nowack enfatizou que o trabalho destaca um novo caminho, no qual métodos de machine learning podem ajudar a restringir os principais fatores de incerteza remanescentes na ciência do clima.

ARTIGO PNAS: doi.org/10.1073/pnas.2026290118