Experimentos de neurociência são considerados éticos e morais

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Desenvolver estruturas semelhantes a cérebros em miniatura e implantar células cerebrais humanas em animais estão entre os experimentos da neurociência que têm deixado o público, líderes religiosos e até alguns cientistas incomodados. Tais pesquisas seriam éticas?

Para responder à pergunta, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) encomendou um estudo, em parceria com a Dana Foundation, organização que financia pesquisas sobre o cérebro, cujo objetivo era descobrir a maneira mais ética de equilibrar os avanços da neurociência com as preocupações que pairam sobre estes tipos de experiências.

Uma das questões morais levantadas é a possibilidade de que os cientistas criem em laboratório, acidentalmente, organismos parcialmente conscientes e apresentando alguma forma primitiva de sentimento, ao desenvolver modelos para estudar o cérebro humano e identificar doenças e tratamentos.

Muitos experimentos científicos são questionados quanto à ética.Muitos experimentos científicos são questionados quanto à ética.Fonte:  Unsplash 

Mas conforme apontou a Science Magazine nessa quinta-feira (8), o relatório elaborado pelo painel científico encontrou poucas evidências de que os organoides cerebrais e os animais com células humanas experimentem consciência ou dor semelhante à nossa. Dessa forma, concluiu-se que as preocupações parecem infundadas, por ora, e os neurocientistas podem continuar o trabalho.

Experimentos analisados pelo comitê

Formado por 11 membros, incluindo especialistas em ética e legislação, o painel científico examinou três tipos de experimentos para responder ao NIH. Um deles é o de criação de organoides neurais a partir de uma complexa receita química, minúsculos aglomerados de células do cérebro humano muitas vezes chamados de minicérebros.

Os outros dois foram os estudos envolvendo transplantes neurais, nos quais algumas células humanas são adicionadas ao cérebro de animais, e de criação de quimeras, um tipo específico de transplante com as células-tronco de uma determinada espécie sendo injetadas no embrião de outra.

Os minicérebros são cultivados em laboratório para vários estudos.Os minicérebros são cultivados em laboratório para vários estudos.Fonte:  Science/Reprodução 

Para o comitê, faltam nos organoides vários tipos de células e estruturas conectadas presentes em um cérebro real e por isso eles não são capazes de apresentar consciência, resultando em um trabalho eticamente não problemático. Eles chegaram a uma conclusão parecida no caso dos transplantes neurais e também no das quimeras: as células transplantadas têm influência limitada nos circuitos do cérebro do animal que as recebe.

Integrante do painel, o neurocientista da Universidade de Harvard Joshua Sanes ressaltou que parte da preocupação em relação aos trabalhos surge da forma exagerada como alguns pesquisadores divulgam seus estudos, utilizando alguns termos erroneamente. “O mundo seria um lugar substancialmente melhor se os cientistas e as assessorias de imprensa fossem um pouco mais cuidadosos com as palavras nas entrevistas e comunicados à imprensa”, comentou.

Recomendação pode mudar no futuro

Entidades e pesquisadores ficaram satisfeitos com o relatório, que recomendou a continuidade das experiências em laboratório. A Sociedade Internacional de Pesquisa em Células-Tronco (ISSCR), por exemplo, vai lançar diretrizes atualizadas para experimentos na área envolvendo quimeras e organoides.

O neurocientista da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) Arnold Kriegstein também comentou sobre os resultados apresentados pelo painel: “É muito importante para o campo que o público e as agências de financiamento tenham certeza de que ninguém está passando dos limites éticos no momento”, revelou.

As preocupações com esse tipo de pesquisa são infundadas, conforme os especialistas.As preocupações com esse tipo de pesquisa são infundadas, conforme os especialistas.Fonte:  Freepik 

No entanto, Kriegstein alertou para a possibilidade de que as regras mudem a qualquer momento, ou seja, algo hoje considerado moral em pesquisas na neurociência pode se tornar antiético amanhã. “É uma declaração clara de que os modelos atuais não representam um dilema ético, mas no futuro isso pode mudar”, ressaltou o especialista da UCSF.

Já o NIH, que recentemente ficou em dúvida se financiava projetos visando o cultivo de órgãos para transplante em porcos e ovelhas, adotará as recomendações do painel.