Galáxia 'água viva' revela sinais invisíveis ao homem por 40 anos

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A 340 milhões de anos-luz da Terra, em um aglomerado de galáxias chamado Abell 2877, um exemplar curioso produz ondas de rádio nas mais baixas frequências. Abrangendo uma área de 1,2 milhão de anos-luz, trata-se de uma imensa "água-viva" espacial – e cientistas estão de olho nesta "criatura" cósmica com a expectativa de que ela revele mistérios do Universo realmente antigos.

Tais sinais passavam despercebidos por equipamentos nos últimos 40 anos, explica Melanie Johnston-Hollitt, astrofísica da Universidade Curtin, Austrália, e sugerem que gases intergalácticos da região aceleraram elétrons expelidos de buracos negros monumentais há muito tempo. "Era uma fonte invisível [de dados] para a maioria dos radiotelescópios", indica.

A partir do momento em que se eleva a frequência analisada, complementa a pesquisadora, os registros visíveis vão desaparecendo e apresentam as maiores quedas detectadas até então. Em suma, as ondas têm mais de um metro de comprimento e correspondem a fótons, partículas de luz; surpreendentemente, são 30 vezes mais brilhantes a 87,5 MHz – similar à de uma estação FM – do que a 185,5 MHz.

"Isso é espetacular", destaca Reinout van Weeren, astrônomo da Universidade de Leiden, na Holanda, quanto à descoberta do fenômeno, encabeçada por Torrance Hodgson, graduando que se dedicava a suas pesquisas no complexo Murchison Widefield Array. "É um resultado muito bom, porque é realmente extremo", defende, mesmo que não tenha participado do estudo.

Dipositivos do Murchison Widefield Array, Austrália.Dipositivos do Murchison Widefield Array, Austrália.Fonte:  Reprodução 

Especulações a todo vapor

Uma das características mais interessantes a respeito das galáxias "águas-vivas" é que, embora também habitem aglomerados, são individuais e passam pelo gás quente de suas vizinhanças, que rasga seus materiais e cria o que seriam os tentáculos de sua equivalente animal.

Ainda assim, o USS Jellyfish, nome de batismo da personalidade da vez, esconde um segredo: ele parece ter se formado justamente por tal interação, não antes.

Assombrados com o achado, Hodgson e seus colegas, então, notaram que duas galáxias do cluster Abell 2877 coincidem com as manchas mais brilhantes de ondas de rádio na cabeça do bichinho – e especulam a presença de buracos negros supermassivos em seus centros, que, conforme simulações apontam, estariam acumulando elementos há cerca de 2 bilhões de anos.

Nesse processo, discos de gás quente formaram-se em torno de cada um deles, lançando enormes jatos de materiais no aglomerado de galáxias circundante. A agitação, claro, teve suas consequências.

Pontos mais brilhantes na "cabeça" teriam buracos negros.Pontos mais brilhantes na "cabeça" teriam buracos negros.Fonte:  Reprodução 

Quase à velocidade da luz, o material, supostamente, possuía elétrons que giravam em torno de campos magnéticos e, assim, emitiam ondas de rádio. Ao perderem energia com o passar do tempo, entretanto, as partículas mais potentes teriam enfraquecido, mas as ondas de gás espalhadas pelo aglomerado reaceleraram os elementos ao redor das duas galáxias.

“É um processo muito suave", conta Johnston-Hollitt. "Os elétrons não recebem tanta energia, o que significa que eles não acendem em altas frequências”, finaliza a pesquisadora, que, com a teoria, publicada Astrophysical Journal, traz à luz uma resposta para o comportamento bizarro de algo que, pelo que tudo indica, sabemos muito pouco a respeito.

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