Um perto de uma praia

A imagem acima é a última foto tirada pela sonda Cassini antes de ser desativada. Seu último suspiro. O registro monocromático e simples mostra a superfície de Saturno em seu lado escuro, mas iluminada pela luz refletida pelos famosos anéis.

Tudo isso só é menos misterioso para o ser humano graças aos 13 anos de órbita e muito estudo da espaçonave, que trouxeram luz e nos ensinaram muito sobre os astros que nos circundam, especialmente o Planeta dos Anéis.

Após quase 20 anos de serviços para a comunidade científica do planeta Terra, a missão Cassini-Huygens finalmente foi encerrada pela NASA na sexta-feira (15), com um mergulho da sonda na atmosfera densa de Saturno.

Até o “canto do cisne” da espaçonave foi de uma utilidade imensa para os pesquisadores, pois em seus últimos suspiros, a Cassini ainda foi capaz de enviar informações e imagens inéditas para casa, como a foto acima, que retrata todo o mistério e a aura de vazio do planeta Saturno.

Viagem pelo Sistema Solar

A sonda Cassini decolou da Terra em 15 de outubro de 1997, às 5h43 no horário de Brasília, sendo impulsionada pelo foguete Titan IVB/Centaur. Sete anos depois, em 2004, a espaçonave chegou em seu destino final – Saturno –, mas não sem antes ter passado por lugares importantes para coletar dados.

Um dos testes mais importantes realizados na viagem entre Júpiter e Saturno comprovou elementos da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein

Nos anos de 1998 e 1999, a sonda sobrevoou Vênus algumas vezes e retornou para perto da Terra, tendo se aproximado também da Lua e registrado imagens para a calibração da câmera. Em seguida, Cassini registrou imagens distantes do corpo rochoso 2685 Masursky, situado no Cinturão de Asteroides, entre os planetas Marte e Júpiter, e foi capaz de determinar seu tamanho (entre 15 e 20 km de diâmetro).

No penúltimo dia do ano 2000, a espaçonave vez o primeiro sobrevoo em Júpiter e registrou o que é possivelmente a melhor e mais nítida imagem colorida do maior planeta do Sistema Solar, além de ter reunido informações e feito medições científicas nos arredores.

Um dos testes mais importantes realizados na viagem entre Júpiter e Saturno comprovou elementos da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein. Enviando ondas de rádio da nave para a Terra, foi possível medir mudanças de frequência quando elas se aproximavam do Sol, mostrando que a gravidade massiva da nossa estrela era capaz de distorcer o espaço-tempo.

júpiterJúpiter visto pela lente da Cassini

No dia 9 de fevereiro de 2004, uma foto colorida e em alta resolução foi tirada de Saturno pela Cassini e mostra detalhes impressionantes sobre o planeta, especialmente seus anéis. Diversas informações que haviam sido descobertas pela sonda Voyager em sua passagem por lá puderam ser confirmadas ou analisadas de maneira mais detalhada e precisa.

saturnoSaturno na aproximação da sonda Cassini em 2004

No mundo das luas

A partir daí, o que é considerada a mais bem-sucedida missão interplanetária da História passou a se dedicar a estudar e compreender melhor Saturno e seus satélites naturais, dos quais foi responsável pela descoberta de nada menos do que sete deles – Methone, Palene, Polideuces, Dafne, Anthe, Aegaeon, e um ainda sem designação permanente, o S/2009 S 1.

Durante o tempo em que esteve na órbita de Saturno, a sonda Cassini também deu muita atenção para as luas do planeta

No dia 30 de junho de 2004, a espaçonave finalmente entrou na área de influência da gravidade de Saturno e passou a orbitar o planeta

Durante o tempo em que esteve na órbita de Saturno, a sonda Cassini também deu muita atenção para as luas do planeta, tendo feito o primeiro sobrevoo do satélite Febe (ou Phoebe) e tirando fotos em alta resolução do corpo rochoso. Essas imagens mostraram que a superfície de Febe é diferente da de outros astros e ainda hoje acredita-se que pode haver água em estado sólido lá – o que não pôde ser confirmado por enquanto.

Um perto da luaSatélite Febe conforme regitrado pela Cassini em 2004

Pisando em Titã

Em 14 de janeiro de 2004, a Huygens pousou com sucesso na superfície de Titã e registrou informações sobre sua atmosfera

Após um ano todo estudando outros dados importantes para os cientistas, como os movimentos de rotação de Saturno, a missão deu um dos seus maiores passos até então: a sonda Cassini desprendeu o módulo aterrissador Huygens, que tinha como objetivo pousar na superfície rochosa de Titã, o maior dos satélites do planeta.

Em 14 de janeiro de 2004, a Huygens pousou com sucesso na superfície de Titã e registrou informações sobre sua atmosfera, seu terreno e tirou fotos do local. Foi o pouso mais distante da Terra feito por um dispositivo humano até hoje. Lá, foram descobertos os leitos secos de lagos e rios de metano líquido, substância que não se encontra mais na superfície do satélite.

titãPrimeira foto da superfície da lua Titã registrada pelo aterrissador Huygens

Oceanos espaciais

Alterando inúmeras vezes sua órbita em Saturno para poder se aproximar dos diferentes objetivos, a sonda Cassini foi capaz de realizar descobertas que mudaram completamente a nossa concepção do Sistema Solar. Analisando as luas do Planeta dos Anéis, a espaçonave descobriu que realmente existe água fora do nosso planeta e que isso pode ser o primeiro sinal para encontrarmos vida extraterrestre.

O que eles descobriram foi uma série de emissões de vapor de água, algo parecido com os gêisers da Terra

Em um dos sobrevoos da nave pela lua Encélado, uma atividade estranha nos polos do satélite chamou a atenção dos controladores. O que eles descobriram foi uma série de emissões de vapor de água, algo parecido com os gêisers da Terra e, após alterarem o cronograma da missão para obter mais informações e uma análise aprofundada dos dados enviados para o nosso planeta, chegou-se à conclusão de que Encélado possui um oceano de água salgada debaixo de sua crosta.

Um perto de uma luzEncélado e seus gêisers de vapor d'água

O senhor dos anéis

Não existe quem não reconheça Saturno devido a seus característicos anéis. Obviamente, a Cassini também serviu para que conhecêssemos melhor essas misteriosas e belíssimas formações. Em suas órbitas em torno do planeta, a sonda foi capaz de analisar os materiais que compõem a estrutura e quais são suas origens.

Entre as camadas principais de anéis, existe um espaço vazio chamado Divisão Cassini, em homenagem ao astrônomo italiano Giovanni Domenico Cassini

Além dos anéis serem formados por objetos rochosos com tamanhos que vão desde um grão de areia até pedras grandes como montanhas, as partes mais externas, chamadas de anel E, são formadas pelas emissões de partículas dos jatos de vapor de água nos polos da lua Encélado.

Entre as camadas principais de anéis, existe um espaço vazio chamado Divisão Cassini, em homenagem ao astrônomo italiano Giovanni Domenico Cassini, que também batiza a sonda e que foi capaz de identificar quatro satélites de Saturno ainda no século XVII.

Um prato azul e brancoImagem dos anéis de Saturno feita por emissão de ondas de rádio

O triste fim

A essa altura, você deve estar se perguntando por que uma missão espacial tão importante e com tantas descobertas está sendo cancelada agora. Na verdade, existem alguns motivos para que a Cassini seja retirada de atividade enquanto ainda funciona, conforme diversos cientistas da NASA explicaram nos últimos dias.

Em primeiro lugar, saiba que o combustível da sonda está acabando: projetada inicialmente para funcionar até o ano de 2008, a Cassini ganhou um período extra de vida mais duas vezes até o último dia 15. Exatamente por isso, sua bateria feita de plutônio já está mais do que na prorrogação de seu funcionamento.

plutonioDióxido de plutônio-238

Assim, antes que a nave pare de funcionar de uma vez por todas, a NASA decidiu que seria mais seguro se livrar dela por meio da destruição. O primeiro dos motivos diz respeito a lixo espacial – imagine se alguma espaçonave for passar por perto de Saturno algum dia e por uma coincidência infeliz acabe trombando com a Cassini desativada ainda em órbita no planeta.

O segundo é por causa daquilo que chamam de Proteção Planetária, que nada mais é do que um princípio de se evitar contaminação biológica em outros corpos celestes. Imagine se a Cassini (ou alguma parte dela) cair em uma das luas de Saturno contendo algum micróbio que ainda esteja nela por causa do manuseio humano antes de ser lançada.

cassini saturnoRepresentação artística da Cassini na órbita de Saturno

Então, em algum estudo futuro os cientistas descobrem bactérias vivendo nesse satélite e comemoram o achado como o maior feito da ciência até então. Tudo isso apenas para algum tempo depois eles chegarem à conclusão que aquela vida encontrada saiu justamente daqui, da Terra.

Assim, para evitar que a sonda que tanto fez pela ciência do nosso planeta acabe, involuntariamente, nos prejudicando algum dia, ela foi devidamente derrubada na direção da atmosfera de Saturno para que o atrito da entrada desfaça a nave por completo, sem deixar riscos ou perigos para ninguém.

Legado eterno

O legado da missão Cassini-Huygens é imensurável. Além de todas as descobertas feitas especificamente sobre Saturno e seus satélites naturais, a quantidade de testes realizados por meio da espaçonave é imensa e passa por praticamente todas as áreas de conhecimento da humanidade.

aneis de saturnoVídeo feito com algumas das últimas fotos tiradas pela Cassini mostra os anéis de Saturno

A sonda vai deixar um vazio entre os estudiosos e interessados, mas logo mais deve ganhar sucessores para estudar o que mais deixou os cientistas intrigados: a possibilidade de haver algum tipo de vida nas luas do Planeta dos Anéis. Enquanto isso, nos sobra como consolação admirar todas as descobertas e, claro, as imagens estonteantes e misteriosas de lugares tão distantes que ficaram mais próximos graças à audaciosa missão.

Adeus, Cassini. E obrigado por tudo!

 Alguns números da Cassini e sua missão

  • 19 anos e 335 dias de duração
  • 13 anos e 76 dias na órbita de Saturno
  • 5.712 quilogramas na hora do lançamento
  • 2,5 milhões de comandos executados
  • 453.048 fotografias tiradas
  • 7,9 bilhões de quilômetros percorridos

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