Imagem de Gotham Knigths
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Gotham Knigths

Nota do Voxel
80

Gotham Knights mostra que um jogo do Batman sem o Batman pode ser bom

Anunciado em agosto de 2020, Gotham Knights foi apresentado com uma premissa um pouco diferente: ser um jogo do Batman sem o Batman. No caso, o detetive fantasiado de morcego morreu - calma, isso não é spoiler, está literalmente na sinopse - e deixou a missão de cuidar de sua cidade para a chamada “Família Batman”, que é composta por Capuz Vermelho (Jason Todd), Robin (Tim Drake), Batgirl (Barbara Gordon) e Asa Noturna (Dick Grayson).

A revelação pegou bastante gente de surpresa, que começou a questionar a correlação do novo game com os títulos da série Arkham e até mesmo se algo assim poderia dar certo. Afinal, como fazer um novo jogo excluindo o protagonista de uma franquia que estava dando tão certo? Bom, a verdade é que a WB Games Montreal (que trabalhou em Batman: Arkham Origins) conseguiu entregar um bom produto.

Peraí, e a série Arkham?

Gotham Knights é um RPG de ação em terceira pessoa em mundo aberto que pode ser jogado em modo solo ou multiplayer co-op para até dois jogadores. Mas antes de começar a destrinchar os pontos positivos e negativos do jogo eu gostaria de fazer o reforço do que já foi dito nos parágrafos anteriores. Ao contrário da série Batman: Arkham, Gotham Knights não foi desenvolvido pela Rocksteady. A desenvolvedora britânica que ganhou bastante popularidade com os jogos do Homem-Morcego trabalhou nos últimos anos em Esquadrão Suicida: Mate a Liga da Justiça, enquanto a empresa canadense ficou com a missão de trabalhar com os outros heróis do lore.

E a ideia de não deixar o game nas mãos da Rocksteady reflete também na questão do enredo. A Warner Bros. Games faz questão de ressaltar que a história de Gotham Knights não tem nada a ver com a série Arkham. Ou seja, o conglomerado de entretenimento preferiu uma narrativa própria sem qualquer vinculação com outros produtos.

A partir disso, o jogador já começa sabendo que Bruce Wayne (e consequentemente o Batman) morreu. A partida do ricaço (e do vigilante) deixa um vácuo de poder em Gotham, fazendo com que a chamada Família Batman tenha que agir para que o caos não tome conta das ruas.

Gotham Knights

Sem o principal herói por perto, vilões como Senhor Frio, Arlequina e Cara-de-Barro, além de gangues como os Lokos, Máfia e Reguladores. Apesar da presença de todos esses clássicos antagonistas, o destaque fica por conta da Corte das Corujas.

A organização secreta apareceu pela primeira vez em uma graphic novel de 2011 escrita por Scott Snyder e com ilustrações de Greg Capullo. Reconhecida como uma das melhores histórias recentes do Batman, a adição desse grupo secreto que comanda Gotham por centenas de anos foi uma grata novidade.

E nesse quesito história, Gotham Knights vai muito bem. Apesar de ir passeando por vários clichês de jogos e filmes de super-heróis, a construção da mitologia da Corte das Corujas é bem-feita e deixa no jogador uma sensação parecida com quem está lendo a HQ. A percepção de que você está sendo observado o tempo todo ajuda na ambientação e faz com que você queira descobrir mais sobre o que está acontecendo “debaixo dos panos” de uma das principais cidades fictícias da cultura pop.

Ainda no quesito enredo, outro elogio que precisa ser feito é em relação à Família Batman. Fazer quem está consumindo um produto de mídia se importar com os personagens não é exatamente uma tarefa fácil. E o jogo consegue entregar isso, a ponto de você gostar de ver como funciona a relação entre os protagonistas ao longo da história. E para isso, o game faz bastante uso de diálogos, além das mais tradicionais cut scenes.

Vigiando e punindo em Gotham City

Gotham Knights tinha a difícil tarefa de tornar ainda melhor a experiência que os jogadores tiveram com a série Arkham. Mesmo as duas obras não tendo ligação direta, era bastante óbvio que o novo título entregaria uma experiência bem similar a Batman: Arkham Asylum, City, Knight e Origins.

Os jogos do herói viraram referência na indústria principalmente por causa da deliciosa mecânica de combate, que tornou marcante a experiência de combinar golpes estando na pele do Cavaleiro das Trevas.

Neste sentido, Gotham Knights faz um trabalho bastante parecido. Existe até mesmo uma sensação de dejavu já nos primeiros movimentos, já que desde o posicionamento da câmera até o ritmo das lutas tudo é bastante reconhecível. Não sei se o fato nostalgia pesou mais alto, mas para mim o combate na série Arkham era ainda mais gostoso, já que ele aparentava ser mais bem-acabado e polido do que o do game atual. O que não é um demérito para Gotham Knights, longe disso.

Gotham Knights

A porradaria aqui segue podendo ser encarada de formas diferentes dependendo da abordagem e do personagem escolhido. Falando sobre isso, é importante dizer que cada herói possui um estilo diferente. Robin é o mais gatuno e é ideal para abordagens mais silenciosas, enquanto o Asa Noturna tem combos rápidos e golpes rápidos, a Batgirl consegue hackear sistemas de segurança com mais facilidade e o Capuz Vermelha é o mais forte e tem os golpes que tiram mais sangue dos inimigos. Como é possível trocar de avatar durante o gameplay, é válido pensar no cenário que você está lutando para avaliar qual dos quatro é mais adequado.

Apesar das inclinações de cada um para determinadas habilidades – que vão sendo aprendidas em troca de XP conseguido ao se concluir objetivos –, todos eles conseguem se portar em cenários stealth e na luta franca.

É possível se pendurar em muros, estátuas, gárgulas e mais para ter uma ideia geral do ambiente, mapear os inimigos com o “modo detetive” e escolher a melhor tática.

Gotham Knights

Apesar de as lutas serem bastante divertidas e satisfatórias, com os controles respondendo bastante bem aos comandos, já que tudo é muito frenético, há pouca complexidade. Existem diferentes tipos de esquiva, por exemplo, mas como ao invés de somente o Batman, agora são quatro personagens, a impressão é que tudo foi diluído entre eles e que por isso a combinação de movimentos individuais foi prejudicada em função do coletivo. As lutas me parecem menos plásticas do que já foram anteriormente.

Além dos golpes físicos, os ataques também são realizados à distância. No caso do Capuz Vermelho – que foi meu escolhido durante praticamente toda a campanha –, ele tem uma arma de fogo não letal que pode ser utilizada na combinação com os socos e chutes. Mas é fato que a adição não cria uma gama de movimentos como havia na série Arkham.

Uma das grandes novidades de Gotham Knights é que ele pode ser jogado em modo multiplayer com até dois jogadores. Como eu não testei o cooperativo, não entrarei em detalhes. Mas gostaria de ressaltar que quem jogar solo não terá a oportunidade de ter outro personagem te ajudando nas lutas, sendo controlado pela inteligência artificial. Ou seja, para um jogador a caminhada de combater o crime é 100% solitária.

Gotham Knights

Ademais das brigas, também é preciso explorar a cidade para combater crimes, encontrar colecionáveis e fazer missões paralelas ajudando personagens secundários. No quesito locomoção, os quatro protagonistas têm um gancho para se locomover entre os prédios. Para auxiliar cada pupilo do Homem Morcego tem uma técnica adicional. No caso do Capuz Vermelho, ele tem um salto quântico, enquanto o Asa Noturna tem um planador, por exemplo.

Para quem prefere o concreto, é possível utilizar a Batmoto. Nesse sentido, os controles do veículo são bem melhores do que o Batmóvel em Arkham Knight, diga-se de passagem.

RPG de Gotham

Talvez o que mais diferencia Gotham Knights dos outros títulos da série Arkham é o fator RPG. O jogador tem dezenas de opções para customizar armas e trajes. Para quem gosta da questão estética isso é bem interessante, já que o game permite a troca de esquemas de cores do capuz, emblema, luvas e botas. Só que é mais do que isso.

Os diferentes fardamentos contam com pontuações específicas de poder, defesa e vida. Além disso, eles têm níveis de raridades e vão sendo adquiridas de várias formas, incluindo a partir da subida do level do personagem. Mesmo os nomes das armaduras sendo os mesmos para os quatro heróis, elas ainda permitem combinações com chips que potencializam certos atributos.

Os chips, inclusive, são combinados para gerar tipos mais raros. Assim como os equipamentos, eles podem melhorar efeitos de defesa ou ataque ligados a elementos como o gelo.

Gotham Knights

Mesmo as combinações de equipamento sendo imensas, esse não é o caso da árvore de habilidades – o que explica a pouca combinação de golpes nas batalhas. Separada em 3 categorias – e uma adicional que pode ser acessada com a conclusão de um desafio específico –, a árvore permite o desbloqueio das técnicas em troca de pontos.

É fato que também existem ataques especiais que consomem o “impulso”, que é uma barra que se enche na medida que você vai combatendo os vilões. Quando os dossiês – missões – são concluídos, o jogador ganha novas habilidades de impulso.

Os inimigos têm resistências e fraquezas específicas e alguns deles exigem movimentos de quebra de guarda e perfuração para serem realmente atingidos. Só que em 80% dos casos os vilões são comuns e exigem somente uma porradaria padrão para serem exterminados, o que diminui o fator surpresa.

Gotham Knights

Como é possível trocar entre Capuz Vermelho, Robin, Asa Noturna e Batgirl durante a campanha, não importa se você escolher um deles para jogar a maior parte do tempo. Com o avanço no nível e o ganho de trajes e armas, as outras skins não utilizadas também vão ganhando os espólios. Isso evita que na troca de um pelo outro o jogador acabe tendo que ficar upando com bandidos comuns, até porque os vilões vão todos aumentando de nível de acordo com o passar da história.

As missões, inclusive, dão sugestões de níveis para que você não chegue em combates muito mais difíceis do que é capaz de lidar. E não é só a pancadaria que você terá que encarar, já que também há vários puzzles que são relativamente simples, indo desde a combinação de elementos em cenas de crime até quebra-cabeças para formar imagens na sombra.

Bancando o detetivão

O trabalho da WB Games Montreal e da Rocksteady no quesito HUD sempre foi bastante interessante. As informações exibidas na tela sempre mostravam somente questões úteis e tudo organizado de acordo com as necessidades.

Gotham Knights segue com esse bom trabalho de interface. No meu caso, eu prefiro informações mais claras porque considero cansativo ficar explorando grandes cenários em busca do objetivo. Mas para quem gosta de uma tela mais limpa, o HUD é personalizável. Então fica a gosto do cliente.

Também é preciso elogiar as várias opções de acessibilidade como modo para daltônicos, tamanho de legendas e interface, sensibilidade das câmeras, alterações de comandos de segurar para simplesmente pressionar e mais.

Gotham Knights

O game também tem o clássico menu de seleção de dificuldade com opções de muito fácil, fácil, média e difícil. Em relação ao tema dificuldade não há nada para criticar. O título é bastante balanceado e o modo normal entrega desafios bastante satisfatórios com somente uma única exceção: a batalha final.

O confronto derradeiro é bastante complicado e exige muita coordenação. Eu penei tanto para concluir que lembrei até da série Souls, já que o vilão é bastante ágil, sendo necessária toda a atenção do mundo para antever os golpes. Na verdade, preciso confessar que eu cheguei para enfrentar ele com alguns níveis abaixo do que o recomendado, o que certamente explica a minha dificuldade.

Vale a pena?

Gotham Knights é um jogo bastante divertido e que entrega horas de boa diversão em combates e um enredo com um dos grupos de vilões mais interessantes do Batman, que é a Corte das Corujas.

Contudo, é preciso dizer que o game sofre com o mesmo problema de outros jogos do gênero, como é o caso de Marvel’s Spider-Man e o próprio Batman: Arkham, que é a repetição do meio para o final. As missões paralelas tentam dar uma arejada, mas é pouco. Por mais que a embalagem dos objetivos seja diferente, no fundo você ainda estará resolvendo quebra-cabeças de combinação de elementos para descobrir crimes, coletando itens e batendo em bandidos genéricos.

Outro problema é que o jogo simplesmente não se justifica só para a atual geração. É verdade que os cenários são bastante bonitos. Contudo, se ele não roda a 60 frames por segundo e não tem resolução em 4K nos consoles, como a WB Montreal confirmou, por que então lançar somente para Xbox Series, PS5 e PC?

Não há praticamente nada nele que faça a decisão de disponibilizá-lo só para a atual geração justificável. Como eu joguei no PS5, nem mesmo um uso inovador do feedback háptico do Dual Sense é perceptível, já que o controle só vibra de maneira genérica com impactos, o que o primeiro DualShock já fazia.

Para dizer que não há nada realmente interessante para a atual geração, é preciso salientar que as telas de carregamento são realmente rápidas - o que convenhamos é o mínimo.

Gotham Knights

O fato é que Gotham Knights é um jogo muito bom, mas quem tem uma percepção mais atenta vai perceber que ele tem uma base muito forte de elementos da série Arkham. Tudo o que eu descrevi será muito reconhecível para quem gosta do Batman e andou jogando video game na última década.

O título chega a pecar pelos mesmos erros dos outros games do Batman. Os inimigos continuam com inteligência artificial ruim e se esquecem da existência de um intruso em menos de um minuto depois de terem visto um colega abatido no chão, por exemplo.

Contudo, é preciso ser honesto comigo mesmo e salientar que o contrário também é verdadeiro. Gotham Knights exalta as mesmas qualidades da série Arkham e honra o legado da franquia, mostrando ao mercado como adaptar um herói tão popular para uma mídia em franca ascensão.

Esta análise de Gotham Knights foi realizada com uma cópia digital de PlayStation 5 cedida gentilmente pela Warner Bros. Games. Gotham Knights será lançado em 21 de outubro de 2022 para PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC.

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Pontos Positivos
  • Combate viciante
  • Bom enredo
  • Customização completa de personagens
  • Possibilidade de jogar com os amigos em cooperação
Pontos Negativos
  • Gameplay vai ficando repetitivo
  • Utiliza mal os recursos dos consoles da atual geração
  • Não tem modo resolução de 4K e nem modo desempenho com 60 fps nos consoles
  • Pode parecer mais do mesmo para quem gosta da série Batman: Arkham