Será que um dia poderemos envelhecer mais lentamente? (Fonte da imagem: ShutterStock)

O envelhecimento é uma preocupação constante do ser humano e, felizmente, objeto de estudo da ciência. Graças a isso, conseguimos melhorar a nossa qualidade e envelhecer com mais saúde. Aqui mesmo, no Tecmundo, já divulgamos pesquisas muito curiosas e que atestam que café e bichos de estimação ajudam pessoas a envelhecerem mais lentamente. Ir para o espaço e verificar emails com menos frequência também.

Mas há pessoas que não acham essas soluções muito eficientes e acreditam que o segredo da juventude prolongada está em nosso próprio corpo. Uma dessas pessoas é Bill Andrews, biólogo molecular e dono da empresa Sierra Sciences, que agora pretende expandir o tempo de vida do ser humano para 150 anos.

Mas para entender o que Andrews tem feito, precisamos antes passar por alguns conceitos importantes, já que o cientista ganhou, em 1977, o prêmio de segundo lugar como “Inventor Nacional do Ano”, tendo 35 patentes registradas nos Estados Unidos e relacionadas com a telomerase.

Conheça os telômeros

O Dr. Andrews é a pessoa com mais autoridade para falar sobre telômeros atualmente. Esses pedaços de DNA não codificante foram encarados como lixo genético durante muito tempo, mas eles possuem uma função muito importante: proteger o DNA a cada multiplicação. Quando um cromossomo se divide ou se multiplica, nós perdemos telômeros em vez de pedaços importantes do nosso DNA.

Telômeros (em branco) nos cromossosmos humanos (em cinza) (Fonte da imagem: Reprodução/Wikipedia)

O problema é que, a cada multiplicação, a sequência de telômeros fica menor e, por isso, cientistas hoje medem a idade de uma célula com base no comprimento dos telômeros: quanto mais velha é a pessoa, menor é esse trecho do cromossomo. Quando essas estruturas se tornam pequenas demais, as células se tornam incapazes de se reproduzir, entrando em um estado de paralização conhecido como senescência, ou então acabam morrendo.

Isso faz com que os telômeros sejam uma espécie de cronômetro reverso do envelhecimento humano e estipulem um limite teórico de cerca de 125 anos de vida para a espécie humana. É praticamente impossível passar dessa idade, não importa o quão saudável você seja.

Andrews acredita poder prolongar a juventude

Agora que você já entendeu o primeiro conceito para este artigo, podemos dizer que William Andrews não concorda muito com ele. Segundo Andrews e outros profissionais, nossas células reprodutivas não perdem partes do telômero, pois, se o fizessem, eles gerariam embriões tão velhos quanto os das pessoas envolvidas na geração deles, ou seja, os fetos teriam idade avançada.

Se comparadas com as outras células do corpo, as células reprodutivas são imortais, ou seja, não gastam telômeros. A razão pela qual isso acontece se deve à produção de uma enzima conhecida como telomerase, responsável por aumentar novamente os telômeros assim que eles são reduzidos.

E o que torna esse conhecimento interessante é o fato de que todas as nossas células possuem a capacidade de produzir telomerase, mas o gene responsável por essa função está desabilitado. Dessa forma, se pudéssemos ativar esse gene novamente, as células de um adulto teriam seus telômeros restaurados e, com isso, se tornariam biologicamente jovens de novo, podendo ultrapassar os 125 anos de vida.

Como “hackear” células

Agora, a principal missão da empresa de Andrews, a Sierra Sciences, é encontrar o que eles chamam de “indutores de telomerase”, ou seja, medicamentos ou substâncias químicas capazes de ativar o gene da telomerase nas células em que ele está desativado. E os cientistas já obtiveram sucesso: encontraram mais de 800 indutores depois de analisar cerca de 240 mil compostos.

Sede da empresa Sierra Sciences, de Bill Andrews (Fonte da imagem: Reprodução/Sierra Sciences)

Infelizmente, nenhum dos indutores encontrados é forte o suficiente para fazer com que os telômeros cresçam rápido o suficiente para reverter a idade de uma célula. Mas a busca continua e cerca de 4 mil análises são realizadas semanalmente. Se depender desse ritmo de trabalho e de tanta dedicação, é muito possível que a Sierra consiga encontrar o composto que tanto procura ou, na pior das hipóteses, modificar um já encontrado para torná-lo mais potente.

O seu cão poderá viver mais

Em entrevista para o empresário David Bunell, Andrews contou que, se tudo correr bem, eles serão capazes de registrar medicamentos, submetê-los a testes e, depois de aprovados pela Food & Drugs Administration, colocá-los finalmente à venda. Entretanto, esse é um processo demorado, que deve durar cerca de 12 anos.

E os benefícios não são apenas para humanos, visto que o biólogo acredita que poderá comercializar essa solução também para o mercado de bichos de estimação. Pesquisadores da Universidade do Texas e da Universidade de Edimburgo descobriram que gatos, cachorros e cavalos envelhecem de maneira semelhante à dos humanos, ou seja, por ação da telomerase. Os indutores comercializados poderiam então fazer o pet de alguém viver mais. Infelizmente, eles não funcionariam com hamsters, gerbils e outros roedores, já que o processo de envelhecimento desses animais é diferente.

Telomerase combateria a AIDS

A medicina também poderia ser aperfeiçoada com os avanços científicos da Sierra. Segundo Andrews, um determinado tipo de célula-tronco, conhecida como pluripotente induzida, também costuma ter telômeros reduzidos e, por isso, pode não ser tão eficaz. Nesse caso, os indutores de telomerase de Andrews poderiam também ajudar a aumentar a eficiência dessas células.

Mas há diversos casos em que esse medicamento poderia usado, inclusive para doenças muito perigosas. Uma delas é a progeria, que faz com que crianças envelheçam precocemente e, normalmente, acabam morrendo antes dos 20 anos. Segundo Andrews, ajudar na cura dessa doença seria uma enorme satisfação, mesmo que isso não rendesse dinheiro para ele e seus funcionários.

Bill Andrews, o homem que deseja chegar aos 150 anos de idade (Fonte da imagem: Reprodução/Sierra Sciences)

Outro caso em que os indutores poderiam ser aplicados diz respeito ao sistema imunológico de pacientes com AIDS. As células de imunidade de uma pessoa com essa doença acabam tendo o telômero rapidamente reduzido, já que tentam acabar com o vírus que está dentro delas mesmas, fazendo com que a defesa do organismo envelheça mais rapidamente. Um indutor de telomerase poderia também manter esse sistema imunológico vivo por mais tempo.

Andrews garante que a sua busca não é apenas pela longevidade, mas também para aumentar a saúde humana. Segundo o pesquisador, são mais de 100 doenças que poderiam ser controladas caso fosse possível manipular a produção de telômeros, incluindo problemas cardiovasculares, osteoporose e até mesmo o câncer.

Sendo assim, mesmo que as ideias de Andrews estejam erradas e que o envelhecimento não possa ser controlado pela telomerase, nós poderíamos viver mais, visto o número de doenças que poderiam ser combatidas com a técnica. Por enquanto, só nos resta torcer para que Andrews tenha uma vida bastante longa e leve a pesquisa adiante até alcançar seus objetivos.

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