Na manhã desta terça-feira (14), fomos até a sede da Google Brasil, em São Paulo, para conferir a fase derradeira do Desafio Impacto Social 2016. O evento contou com representantes dos dez projetos finalistas – vindos de todas as regiões do país –, executivos da Gigantes das Buscas e formou uma comissão julgadora bem diversificada para avaliar quem seriam os vencedores de um prêmio total de R$ 10 milhões.

Apesar de se tratar da 11ª edição do Desafio em escala mundial, essa é apenas a segunda vez que a iniciativa é realizada no Brasil, dando continuidade ao trabalho desenvolvido pela companhia em 2014 e que parece ter impressionado bastante a matriz. O foco da competição é buscar as melhores ideias que relacionem o uso da tecnologia a mudanças positivas na sociedade. Essa versão 2016 da empreitada abriu as suas inscrições no final de fevereiro e fez a peneira final de ONGs e instituições no último dia 23 de maio.

Painel com a temática da iniciativa da Google

Um passo importante

Fábio Coelho, presidente da Google Brasil, foi quem deu início à cerimônia, explicando que esse é um dos dias mais importantes para a companhia, já que é quando eles podem sentir realmente conseguem fazer diferença na vida das pessoas ao viabilizar projetos essenciais para a sociedade. O executivo comentou ainda que iniciativas como essa e as de programas de educação no YouTube mostram que a tecnologia é um recurso importante para a inclusão social e o suporte ao empreendedorismo.

O tema foi expandido posteriormente por Jacquelline Fuller, diretora do Google.org – o braço filantrópico da empresa. Ela falou exatamente sobre como dar o suporte necessário às organizações locais é importante, já que, teoricamente, não há ninguém melhor para lidar com os problemas de uma região do que quem vive e respira seus desafios. Fuller disse ainda que a qualidade das propostas e a dedicação dos brasileiros às causas no Desafio de 2014 fez com que o Brasil fosse um dos únicos países a receber o evento uma segunda vez.

Fábio Coelho iniciando a cerimônia do Desafio deste ano

Para que a edição de 2016 fosse mais justa e privilegiasse menos alguns dos principais focos tecnológicos do país, foram selecionados dois representantes de cada uma das cinco regiões. Desses dez finalistas, seis receberiam automaticamente um investimento de R$ 650 mil reais, enquanto os quatro mais bem avaliados potencializariam seus programas com um prêmio de R$ 1,5 milhão. Inicialmente, três desses ganhadores seriam decididos na hora, por votação dos juízes, e um vencedor seria nomeado por voto popular.

A bancada responsável por decidir o montante atribuído a cada ONG foi formada pelos seguintes membros: a apresentadora Regina Casé; Denis Mizne, CEO da Fundação Lemann; Walela, representando o chefe Almir, seu pai e líder do povo indígena Paiter Suruí; Adriana Varejão, artista plástica; e a própria Jacquelline Fuller. Com uma comissão tão eclética, a disputa entre os vencedores foi acirrada e trouxe algumas surpresas, como a emoção da jovem índia ao falar sobre os competidores e a criação de uma premiação extra para o Desafio.

Conhecendo os participantes

Antes de os ganhadores serem anunciados, participantes de cada projeto puderam subir ao palco do evento para, em apenas 1 minuto, explicar suas propostas ao público e convencer os juízes de que sua causa era merecedora – e faria bom uso – do valor adicional em dinheiro. Depois dessa apresentação, cada um deles teve 3 minutos adicionais para responderem a perguntas e dúvidas da comissão julgadora, esclarecendo pontos mais sensíveis do projeto ou desdobramentos futuros da empreitada. Confira abaixo um resumo de tudo:

WWF-Brasil (região Norte)

O biólogo Marcelo Oliveira da Costa foi o representante do projeto, que busca combater a Zika e a Dengue ao unir o uso de uma armadilha de baixo custo e um aplicativo mobile para criar um monitoramento comunitário dos focos do mosquito. Os dados coletados por meio dessa dupla são enviados para servidores, e o número de larvas em cada área é contabilizado automaticamente. A ideia é tanto educar as pessoas quanto criar um mapa aberto com a contagem de cada ponto em relação à média municipal.

IPAM Amazônia (região Norte)

Paulo Moutinho, pesquisador, representou o IPAM no evento. O grupo tem o intuito de desenvolver um aplicativo que utilize dados climáticos da região amazônica para alertar de forma didática os povos indígenas que vivem por lá. O objetivo é fornecer informações importantes para que os índios possam se preparar adequadamente para períodos de seca, enchente e outras mudanças bruscas que podem ocorrer em suas terras – com essas comunidades também podendo contribuir com material para a plataforma.

Vetor Brasil (região Centro-Oeste)

Joyce Toyota, uma das líderes do programa, explicou como o Vetor Brasil surgiu com a tarefa de dar a jovens inovadores a chance de agir efetivamente na mudança do país. Para isso, a ONG dialoga constantemente com governos por todo o Brasil para alocar esses profissionais de alto nível em cargos públicos ou em projetos governamentais sérios. A proposta é que o prêmio do Desafio seja utilizado para criar um portal que facilite o mapeamento de carreiras disponíveis e aplique testes de afinidade aos candidatos.

Aliança da Terra (região Centro-Oeste)

Encabeçando a iniciativa, Aline Maldonado Locks comentou sobre como seu objetivo é usar a tecnologia e o acesso à informação para transformar a vida de milhares de pequenos produtores locais. O programa envolve a utilização de smartphones para auxiliar os moradores de três assentamentos rurais da região a coletar, analisar, gerenciar e compartilhar dados sobre a sua produção e sobre o meio ambiente – aumentando as chances de sucesso e renda com seus negócios.

Themis (região Sul)

Creuza de Oliveira, presidente da Federação Nacional de Trabalhadoras Domésticas, tomou o microfone do evento para comentar sobre a dificuldade das domésticas em terem acesso a informações sobre os seus direitos trabalhistas. Como o celular é, muitas vezes, o único meio de comunicação dessas profissionais durante o expediente, a ideia é produzir um aplicativo que destrinche as leis da categoria em tópicos e responda facilmente a dúvidas dessas trabalhadoras.

Creuza, do Themis, defendendo seu projeto

Centro de Valorização da Vida (região Sul)

Antonio Carlos Braga dos Santos, do CVV, explicou ao público como é importante que as pessoas possam ter alguém com quem desabafar. Adotando a máxima “Compartilhar o sentimento é suavizar o sofrimento”, a ONG pretende utilizar a premiação para expandir seu tradicional atendimento telefônico em um app mobile. O objetivo é poder atender um público ainda maior e que pode ter acesso rápido aos voluntários do grupo através de contatos por texto ou voz no celular.

Transparência Brasil (região Nordeste)

Representado por Manoel Galdino P. Neto, a organização tem como meta monitorar e acompanhar construções de creches e escolas, garantindo que elas não sofram com as estatísticas bem desfavoráveis do setor – com quase metade das obras paradas ou atrasadas em virtude de corrupção ou desperdícios. Um aplicativo focado nesses projetos deve contribuir para que seja criada uma espécie de fiscalização social, aumentando efetivamente o número de instituições de ensino entregues dentro do tempo estimado.

Inovagri (região Nordeste)

Débora Camargo, em nome do Inovagri, discorreu sobre como o consumo consciente de água é importante e necessário nos mais diversos setores da sociedade. Com isso em mente, seu grupo trabalha com foco nos agricultores, auxiliando a categoria a utilizar a medida certa do recurso para suas plantações ao mesmo tempo que cruza dados com centros de distribuição para implantar uma oferta mais eficiente e econômica do material.

A representante da Inovagri, que falou sobre ajudar os agricultores a usarem a água de forma eficiente

ITS-Rio (região Sudeste)

Subindo ao palco da Google, Ronaldo Lemos falou sobre como a sociedade está cada vez mais politizada, mas que, em geral, as pessoas sentem falta de um canal para serem ouvidas. Indo além das petições online, a ideia do app em desenvolvimento pela ITS é criar uma plataforma de coleta de assinaturas registradas que viabilize a criação de projetos de lei válidos. O projeto visa empoderar a população e se baseia em um recurso já presente na Constituição para facilitar essas propostas.

Arredondar (região Sudeste)

Nina Valentini, representante do movimento, mostrou rapidamente que a captação de recursos para ONGs é um problema grande para diversas iniciativas. Assim, a estratégia adotada pelo Arredondar para viabilizar projetos de terceiros é trabalhar com lojas parceiras e oferecer aos consumidores a função de arredondar os centavos da sua compra, jogando o excedente para um fundo de doações. Futuramente, os planos envolvem a implementação do sistema em lojas online, em máquinas de crédito e débito e, possivelmente, em instituições financeiras.

Os grandes nomes da vez

Depois de um tempo relativamente grande de deliberação entre os juízes, finalmente os vencedores da edição 2016 do Desafio de Impacto Social da Google foram revelados. ITS-Rio, Vetor Brasil e Arredondar foram o trio de organizações celebradas pela bancada, enquanto o Transparência Brasil venceu no quesito votação popular, conseguindo cerca de 200 mil dos mais de 1 milhão de votos computados.

Antes de encerrar a cerimônia, Jacquelline Fuller elogiou todos os participantes e comentou o quanto os jurados do evento foram ferozes na disputa pelos projetos que sairiam vencedores dali. Como forma de valorizar essa competição entre causas importantes que ficaram fora do Top 4 por muito pouco, ela revelou que a Google premiaria um grupo adicional com o investimento de R$ 1,5 milhão. Assim, o IPAM Amazônia foi o quinto programa social a receber a premiação milionária.

Vencedores, juízes e organizadores no palco do evento

Investindo no Brasil

Em entrevista ao TecMundo, a chefona do Google.org explicou que o retorno ao Brasil foi bastante acertado e se deve muito ao empenho da equipe brasileira da empresa à iniciativa, acompanhando até hoje os vencedores de 2014 e conseguindo ótimos resultados com essa parceria. A decisão de ter participantes de cada região também agradou a executiva, que acredita que a inovação possa vir de qualquer lugar e que é uma obrigação para a Google compartilhar uma pouco de seus recursos e de sua visibilidade com esses inovadores.

Jacquelline também comentou sobre o fato de parte dos projetos finalistas estarem relacionados à política ou a fazer com que os cidadãos se tornem mais envolvidos com o que ocorre no país. “Vemos isso ocorrendo nos EUA também, com nossa atual situação política sendo, no mínimo, surpreendente. As pessoas andam se perguntando ‘como nós, como cidadãos, podemos nos envolver mais com isso?’. Essas plataformas mostram que há diferentes maneiras de exigir mais transparência ou fazer a diferença”, analisou.

Jacquelline disse ter ficado surpresa com a qualidade dos projetos brasileiros

Para finalizar, ela lembrou que, apesar de ainda precisar haver um acompanhamento das atuais ganhadoras do Desafio para decidir se haverá uma terceira edição brasileira, os dados dessa segunda empreitada foram fenomenais. Houve um crescimento de 40% nas inscrições, totalizando 1.052 participantes, e a votação no site do evento registrou mais de 1 milhão de votos, por exemplo, com ambos os números batendo recordes da iniciativa pelo mundo.

O detalhe? Jacquelline revelou, em um tom muito bem-humorado, que “como é tradicional dos brasileiros”, muitos dos inscritos e dos votantes surgiram em peso nos momentos finais do prazo de cada um desses quesitos. Será que deixamos mesmo tudo para a última hora? A profissional diz que não, acreditando que todos estavam usando o máximo do seu tempo para refinar ainda mais seus programas e propostas. “Mesmo assim, estávamos roendo as unhas até o fim”, brincou.

Cupons de desconto TecMundo: