InCor faz cirurgia inédita no mundo com dois corações em um paciente

3 min de leitura
Imagem de: InCor faz cirurgia inédita no mundo com dois corações em um paciente
Imagem: Shutterstock
Avatar do autor

O Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor) realizou em outubro uma cirurgia inédita no mundo, destinada a tratar de um paciente com hipertensão arterial pulmonar acometido também de uma insuficiência cardíaca congestiva (ICC). Esta última condição torna obrigatória a realização de um transplante que, por sua vez, não pode ser feita por causa da doença pulmonar.

Para resolver essa "sinuca de bico" fisiológica, o InCor adotou uma solução de uma lógica muito simples, mas de execução altamente complexa: usar um coração novo doado para reverter a pressão alta do pulmão, enquanto o coração doente, já "acostumado" à sobrecarga da pressão alta pulmonar, fornece um suporte ao coração recém-implantado.

Embora a ideia de usar dois corações em um só paciente possa parecer estranha aos leigos, ela já existe no mundo e se chama heterotópica, mas não é eficaz no longo prazo. Dessa forma, o inventor da nova técnica, o dr. Fábio Gaiotto, cirurgião cardiovascular, desenvolveu uma variante para que, a princípio, "o coração doado seja usado como terapia para a hipertensão pulmonar e, ao final, substitua o coração doente", disse o médico em comunicado.

Fonte: Incor/DivulgaçãoFonte: Incor/DivulgaçãoFonte:  Incor 

O homem de dois corações

O paciente operado com a nova técnica, Lincon, havia sofrido um infarto em fevereiro de 2020, época em que teve três stents implantados em seu coração, mas a pandemia o forçou a interromper o tratamento. Ao retornar ao médico, o paciente descobriu que estava com insuficiência cardíaca congestiva (ICC) grave nível 3, em uma escala na qual 4 é terminal.

Como a doença faz com que o coração perca a capacidade de bombear sangue, o médico disse que ele faria um transplante no futuro. Só que o futuro chegou na forma de outra péssima notícia: Lincon também recebeu o diagnóstico de hipertensão pulmonar associada à ICC, o que provocou uma piora no estado de saúde, e outra internação no InCor em 7 de junho. Impossibilitado de fazer o transplante, o paciente de 55 anos foi para os cuidados paliativos.

Foi "esperando a morte chegar" que Lincon ficou sabendo que o dr. Fábio Gaiotto estava procurando um paciente para testar uma nova técnica para salvar pessoas que se encontravam exatamente em sua condição. Aceitando se submeter à cirurgia que vinha sendo desenvolvida há três anos, o paciente submeteu-se em julho à primeira etapa do tratamento, que foi a implantação de um coração novo de forma heterotópica (de cabeça para baixo).

A execução das cirurgias

Conectado a artérias e a outras partes do coração antigo, o órgão implantado teve a função de auxiliar na redução da pressão arterial pulmonar. Lincon respondeu tão bem ao tratamento que em três meses (metade do que a pesquisa prevê) a pressão interna do seu pulmão já estava estabilizada, abrindo caminho para a realização da fase dois do tratamento.

Em outubro, foi realizado então o "autotransplante", parte mais difícil e complexa da técnica. Nela, o coração doente é retirado e no lugar dele é colocado o sadio doado, porém após uma rotação de 180 graus. Depois de realizadas as costuras cirúrgicas das artérias e das veias, foi restabelecido o fluxo natural da circulação cardiopulmonar de Lincon.

Após uma ausência de cinco meses de sua residência, para a qual não tinha certeza se voltaria um dia, o paciente retornou ao convívio com seus familiares no dia 5 de novembro, e fará a sua recuperação em casa. "Estou muito feliz de poder voltar para minha vida normal e daqui pra frente é poder recuperar e retomar minha vida", disse o paciente no comunicado.

O dr. Gaiotto garante que, a partir desse procedimento, o paciente passa a levar uma "vida normal de transplantado", com alguns cuidados e restrições protocolares. No entanto, quanto à expectativa de vida Lincon evoluiu de uma sobrevida de três meses para outra que pode chegar a mais de 20 anos, e com boa qualidade. Veja no vídeo abaixo relatos do paciente e do corpo clínico envolvidos na realização da técnica pioneira no mundo.

Fontes