Restos do planeta que formou a Lua estariam no interior da Terra

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Imagem: Computer Graphics World/Dana Berry/Reprodução
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Se fosse sólidas e estivessem na superfície da Terra, a Estação Espacial Internacional (ISS) teria que se desviar das duas gigantescas bolhas de rocha líquida que repousam a dois mil quilómetros abaixo da África Ocidental e do Oceano Pacífico. Descobertas nos anos 1970, elas podem ser restos de Theia, o planeta que se chocou com a Terra primitiva há 4,5 bilhões de anos, segundo dois cientistas da Universidade Estadual do Arizona (ASU).

Com o tamanho de dois continentes, as duas massas se estendem por milhares de quilômetros, influenciando até mesmo as ondas sísmicas dos terremotos: quando elas atravessam aquelas que são chamadas de “grandes campos de baixa velocidade de cisalhamento (Large low-shear-velocity provinces, ou LLSVPs) sua intensidade cai drasticamente, o que pode significar que o material do qual elas são feitas é mais denso do que restante do manto da Terra.

Para chegar a essa hipótese (sugerida há anos mas sem jamais ter sido defendida por alguém que reunisse elementos e evidências o suficiente para apresentá-la), o geoquímico Qian Yuan, um dos autores da pesquisa apresentada em meados de março na Conferência de Ciência Lunar e Planetária, usou como base um trabalho do coautor do estudo, o astrofísico Steven Desch, sobre a teoria do impacto que formou a Lua.

Entre as muitas explicações para a ausência de água e de um núcleo de ferro maior em nosso satélite, uma delas sugere que o corpo que teria se chocado com a Terra teria que ser tão grande como Marte, capaz de provocar um impacto tão catastrófico que a água nos dois planetas imediatamente evaporaria. As rochas menos densas seriam lançados ao espaço para, então, se agrupar no que hoje é a Lua.

O trabalho de Desch, publicado em meados de 2019, sugere que Theia era quase tão grande quanto a Terra. Para chegar a essa conclusão, seu grupo de pesquisas mediu a razão entre o hidrogênio e um de seus isótopos mais pesados, o deutério, em amostras da Terra e da Lua. O que eles descobriram é que nosso planeta tem muito menos hidrogênio em suas rochas do que as pedras lunares.

Pobre em ferro

.  Yuan and Desch/Reprodução 

“Para capturar e reter tanto hidrogênio leve, Theia deve ter sido enorme e bastante seco: a água, enriquecida com hidrogênio pesado durante sua formação no espaço, teria elevado os níveis gerais de deutério. Um protoplaneta tão grande e seco teria um núcleo pobre em ferro e um manto rico nesse elemento, 2% a 3,5% mais denso”, diz Desch.

Os dois cientistas da ASU modelaram o impacto entre a Terra e Theia, e o resultado mostrou que, depois do choque, os núcleos dos dois planetas se fundiram; o manto de Theia, formado de rochas mais densas, teriam formado as LLSVPs que hoje repousam perto do centro da Terra – cenário que a pesquisa de Desch com deutério previu.

Campo de lava Holuhraun, na Islândia, visto pelo satélite Landsat 8.Campo de lava Holuhraun, na Islândia, visto pelo satélite Landsat 8.Fonte:  NASA/Jesse Allen/Divulgação 

O choque com um planeta tão grande teria enviado para as entranhas da Terra uma grande quantidade de rocha densa, exatamente como os LLSVPs. Estudos sismológicos realizados na Islândia e em Samoa apontam para a antiguidade dos LLSVPs. “Eles existem desde o tempo do impacto de formação da Lua”, diz o geoquímico Sujoy Mukhopadhyay, da Universidade da Califórnia.

Para chegar a essa conclusão, a equipe de Mukhopadhyay analisou, na última década, os níveis dos isótopos radioativos, formados nos primeiros cem milhões de anos da história da Terra, seguindo as plumas de magma que alimentam os vulcões das duas ilhas e que descem até os LLSVPs.

Futuras missões

A hipótese ainda pode ser testada pela análise geoquímica da lava expelida pelos vulcões acima das bolhas e de rochas do manto lunar, em busca de semelhanças. Isso, porém, só poderá ser feito futuramente: as amostras existente são aquelas trazidas pelas missões Apollo da superfície do satélite.

Nem todos os cientistas que estudam o passado da Terra concordam com o cenário imaginado por Yuan e Desch, como a sismóloga da Universidade de Durham Jennifer Jenkins.

“A ideia de Yuan não é inconsistente com o que sabemos, mas não estou totalmente convencida. Os LLSVPs talvez sejam os restos de núcleos de outros planetas em miniatura que atingiram a Terra primitiva”, diz ela, acrescentando que Theia pode ser apenas um túmulo em um cemitério planetário no interior de nosso planeta.