Covid-19: higienização profunda de superfícies é realmente necessária?

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Desde o início da pandemia, dentre as medidas de contenção contra a doença mais recomendadas por órgãos da Saúde está a higienização constante de ambientes e objetos, além do uso de máscaras, do distanciamento físico e de outras amplamente divulgadas pelos meios de comunicação.

Apesar da orientação desse cuidado constante, o que explica o fato de que tais ações sejam aplicadas com alta frequência (e até exigidas em determinadas regiões do planeta) se infecções pelo contato com superfícies contaminadas respondem por uma parcela ínfima dos casos de covid-19 cientificamente comprovados? Dyani Lewis discorre sobre o assunto em artigo na revista Nature.

Para cumprirem os requisitos de higiene impostos, diversos setores tiveram de correr contra o tempo e dedicar funcionários à tarefa, o que elevou os custos envolvidos em suas atuações — tanto com pessoas quanto com produtos de limpeza. Ao final de 2020, segundo Lewis, as vendas globais de desinfetantes totalizaram US$ 4,5 bilhões, um aumento de mais de 30% em relação ao ano anterior. De todo modo, ainda que levantem a dúvida da real necessidade de tanta precaução, os especialistas não se atrevem a afirmar de maneira contundente que ela pode ser deixada de lado.

Não é segredo que, a cada dia, pesquisadores descobrem informações inéditas sobre o novo coronavírus. Entretanto, há perguntas não respondidas, e uma delas diz respeito justamente ao potencial de transmissão em situações nas quais o microrganismo esteja depositado sobre algum lugar. O fato de ele ser resistente nós já sabemos, mas as condições específicas de laboratórios não se aplicam ao mundo real — e pode ser que o agente nem dure tanto tempo no supermercado de sua cidade.

A questão principal é: dar chance ao azar e a possíveis mortes não é exatamente o melhor caminho a se seguir.

Venda de desinfetantes aumentou em mais de 30% de um ano para o outro.Venda de desinfetantes aumentou em mais de 30% de um ano para o outro.Fonte:  Unsplash 

Aprofundando investigações

Centenas de estudos foram e estão sendo realizados, assim como não faltam notícias de pessoas supostamente infectadas depois de apertarem botões de elevadores e tocarem o rosto. Ainda assim, nada atesta que essas situações ocorreram como descritas. "O que realmente valorizamos são as investigações epidemiológicas dos padrões de transmissão, seja em domicílios, seja em locais de trabalho ou em qualquer outro lugar", defende o epidemiologista Ben Cowling, da Universidade de Hong Kong. "Eu não acho que temos feito isso o suficiente", ele afirmou.

Métodos que poderiam esclarecer eventos do tipo já foram aplicados no passado com outros vírus, como uma pesquisa realizada em 1987 por cientistas da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, que colocou voluntários saudáveis em uma sala para jogar cartas com pessoas infectadas com um rinovírus de resfriado comum. Nela, metade dos voluntários saudáveis ficaram doentes quando estiveram no mesmo ambiente. Por outro lado, em um experimento separado, com apenas cartas e fichas de pôquer contaminadas, todos permaneceram saudáveis. Com o Sars-CoV-2, a técnica seria antiética, uma vez que ele pode ser fatal.

Havendo todas essas limitações, é natural que resultados clínicos pautem o que pode auxiliar a população no dia a dia e aquilo que não desperta preocupação. Acontece que segundo Emanuel Goldman, microbiologista da Rutgers New Jersey Medical School, também nos EUA, além de o RNA viral encontrado sobre superfícies ser o equivalente ao cadáver do microrganismo, experimentos controlados se valem de quantidades muito superiores às do material espalhado por aí.

Apesar de não adotar medidas especiais relacionadas a objetos cotidianos, Goldman não dispensa a máscara ao sair de casa, uma vez que nem todos os estabelecimentos realizaram implementações nos sistemas de ar-condicionado e o novo coronavírus é, certamente, transmitido por essa via com uma eficiência assustadora.

Limpeza pode prevenir infecção. Máscara, por outro lado, a evita de fato.Limpeza pode prevenir infecção. Máscara, por outro lado, a evita de fato.Fonte:  Unsplash 

Por que não?

Mais de 2,2 milhões de mortes relacionadas à covid-19 e mais de 103,3 milhões de casos foram confirmados no mundo todo até o fim desta quarta-feira (3). Evidências apontam que a proximidade de pessoas gera cenários catastróficos, como os vistos nas últimas semanas no Amazonas, com escassez de recursos e fatalidades que poderiam ser evitadas. Contudo, não se viu algo semelhante relacionado às infecções geradas comprovadamente a partir do contato com superfícies.

A engenheira Linsey Marr defende a importância de que medidas mais potentes nessa área sejam tomadas somente após o devido cuidado com o ar, ou seja, com o tempo e os recursos que sobram depois das ações que fazem diferença de fato. Lavar compras, por exemplo, segundo ela, não requer tanta dedicação. "Isso é muito trabalhoso e provavelmente não está reduzindo tanto a sua exposição", ela disse. “Uma higiene razoável das mãos, bem como o uso de uma máscara e o distanciamento social para reduzir a exposição de contatos próximos são jeitos melhores de concentrar os esforços", complementou a engenheira.

Ainda de acordo com Marr, autoridades não se comprometem a indicar ações porque, com toda essa incerteza, as consequências podem ser devastadoras. "Você nunca quer dizer 'não faça isso' porque [a contaminação] pode acontecer. E, você sabe, devemos seguir o princípio da precaução", ela considerou. De acordo com a OMS, "as práticas de desinfecção são importantes para reduzir o potencial de contaminação pelo vírus."

Resumindo: na dúvida, por que não? Afinal, não é desejo de ninguém entrar para uma estatística que, infelizmente, não para de crescer.

Fontes

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