Nos últimos anos, temos visto muitas notícias sobre o desenvolvimento e os testes realizados com carros autônomos, ou seja, que não precisam de um motorista humano para percorrer determinados percursos.

Não faltam exemplos de projetos dessa categoria, sendo o veículo autônomo da Google o mais famoso, o qual já percorreu 700 mil milhas sem ninguém no volante. Grandes fabricantes de automóveis também não ficam para trás: Volvo e Volkswagen já demonstram estar em estágios bem avançados de desenvolvimento de seus produtos. E nós temos um representante nesse segmento, o CaRINA — veículo brasileiro projetado por pesquisadores da USP de São Carlos.

Alguns especialistas da indústria automobilística estimam que 75% dos carros vendidos em 2035 serão totalmente automáticos. Contudo, um segmento está de olhos e ouvidos bem abertos para esse tipo de tecnologia: o de logística. O interesse das empresas desse ramo é grande e nós podemos ver caminhões com direção autônoma antes mesmo que os carros “de rua”. Neste artigo, nós trazemos mais detalhes sobre como um caminhão pode ser guiado remotamente e quais são os benefícios oferecidos por essa tecnologia.

Direção espelhada

A ideia de ter veículos de transporte autônomos não é exatamente uma novidade. Na verdade, projetos dessa natureza acompanham os de carros que dispensam motoristas. Alguns testes já foram efetuados ao redor do mundo, como na Europa e nos EUA. Porém, o feito mais recente e que ganhou grande notoriedade aconteceu no Japão, onde um comboio de caminhões controlados por computador andou pelas estradas do país (confira o experimento no vídeo abaixo).

É importante salientar aqui que existe uma diferença grande entre a tecnologia empregada nos carros e a usada nos caminhões. Nos veículos leves, o sistema é mais complexo e necessita de um aparato maior de mecanismos para que eles possam circular pelo trânsito caótico das cidades sem que ninguém esteja no comando.

Por sua vez, os gigantes autônomos das rodovias operam com base em um conceito diferente, chamado de “platoon”. A ideia aqui é a de que os caminhões andem em comboio. O veículo que segue à frente é dirigido por um caminhoneiro e os demais “simplesmente” espelham os movimentos realizados pelo primeiro.

Para isso, os caminhões usam uma combinação de radares, sensores com lasers, câmeras, aparelhos para comunicação de dados via wireless e ferramentas de geolocalização. Mediados por sistemas próprios das fabricantes, os veículos conseguem andar em grupos. Obviamente, esses sistemas possuem recursos de segurança que podem identificar um possível acidente com o “veículo-líder”, como uma saída abrupta do traçado.

Os benefícios

E não é somente a menor complexidade da tecnologia de autonomia para caminhões que anima as empresas de transporte a investir nela. As companhias têm muito a ganhar com a aplicação prática desse tipo de mecanismo — a começar pelo “custo de direção”, se é que podemos defini-lo assim. Computares e aparelhos eletrônicos possuem um gasto muito inferior ao de motoristas num longo prazo. Salários, impostos e benefícios empregatícios saem muito mais caro do que a aquisição de alguns equipamentos eletrônicos. E isso não é tudo.

Por lei, caminhoneiros brasileiros, por exemplo, não podem dirigir mais do que oito horas por dia (existindo a possibilidade de no máximo duas horas extras), sendo que o motorista deve fazer pausas de 30 minutos a cada quatro horas na boleia. Em compensação, os caminhões autônomos poderiam rodar 24 horas — seja por meio de um revezamento de pessoas na direção do veículo que “puxa” o comboio ou até de tecnologias futuras que permitam o deslocamento completamente autônomo.

Comboio de caminhões autônomos da Scania em teste durante trajeto entre cidades da Suécia.

O corte de gastos pode ser ainda mais significativo. A proximidade com que os veículos são capazes de trafegar faz com que a resistência do ar afete menos os caminhões que seguem atrás. Assim, os comboios podem poupar combustível. Separados por 15 metros de distância, eles podem economizar até 15% no consumo de diesel. Isso é bem relevante para a lucratividade dessas companhias, pois estima-se que o combustível represente entre 20% e 40% de todos os custos nesse ramo. Isso sem falar na redução da emissão de carbono na atmosfera e na maior segurança nos transporte de cargas, já que os caminhões andam em velocidades e distâncias controladas.

Mas nem tudo no desenvolvimento de caminhões autônomos pode ser encarado como ponto positivo. Se as empresas vislumbram reduzir consideravelmente seus gastos, muitos caminhoneiros podem perder seus empregos, já que a frota de motoristas necessária para pilotar os veículos, em teoria, também seria cortada.

Ainda existem alguns obstáculos

A tecnologia é promissora e pode proporcionar drásticas mudanças em uma das indústrias mais importantes e ricas para a economia de qualquer país. Porém, antes de vermos caminhões rodando por aí sem ninguém na cabine, as fabricantes precisarão ultrapassar alguns obstáculos.

A princípio, os veículos de transporte autônomos devem ser implementados somente em rodovias. Isso se deve ao fato de as vias urbanas possuírem uma série de obstáculos que dificultam a atuação da atual tecnologia em desenvolvimento — como sinaleiros, cruzamentos de pedestres e o próprio tráfego pesado das grandes cidades. Contudo, o maior agravante nesse cenário é a direção indisciplinada dos humanos.

Fila de caminhões adaptados pela NEDO rodam por rodovias no Japão.

Porém, o maior desafio para as companhias envolvidas nesses projetos deve ficar mesmo é na esfera judicial. A maioria dos países sequer discutiu leis ou regulamentações para a atuação de transportes sem motoristas — e mesmo aqueles que já possuem iniciativas nesse sentido ainda apresentam relutância entre seus territórios.

Por exemplo, nos EUA poucos estados permitem o tráfego de caminhões e carros desse gênero. Entre eles estão Califórnia, Nevada e Flórida. Até que as nações entrem em um consenso, além de a tecnologia ser realmente finalizada, é preciso inúmeras avaliações e discussões entre os órgãos de justiça e segurança. Ou seja, ainda serão necessários alguns bons anos até que todos esses detalhes sejam acertados.