Inclusão digital: como as comunidades carentes estão usando a tecnologia a seu favor?

Será que os dispositivos móveis e as redes de internet de alta velocidade já são uma realidade na vida dos menos favorecidos? Como essas novas tecnologias de informação e comunicação são utilizadas para aprimorar a qualidade de vida da população? O TecMundo foi a campo investigar essas questões e saber um pouco mais sobre a inclusão digital no território brasileiro.

Foi em 2011 que a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou publicamente que o acesso à internet deve ser enxergado como um direito humano. De acordo com ela, a rede mundial de computadores “permite que indivíduos busquem, encontrem e compartilhem informações de todos os tipos, de uma forma instantânea e barata”, além de “impulsionar o desenvolvimento econômico, social e político das nações, contribuindo para o progresso da humanidade como um todo”.

Hoje em dia, todo mundo sabe que a web é uma poderosa ferramenta para exercer a democracia e garantir seus direitos como cidadão. Redes sociais e outras plataformas digitais vêm sendo usadas há tempos para dar voz àqueles que nunca puderam falar, disseminar culturas alternativas, tornar a educação mais acessível e servir como ponto de encontro para discussões construtivas. A internet também se provou o melhor meio de expressar suas ideias e opiniões, e é justamente por isso que ela vem sofrendo tantas tentativas de censura ao longo dos últimos tempos, especialmente em países politicamente conturbados.

Mesmo sendo tão importante para a vida de qualquer pessoa, apenas um dentre três cidadãos ao redor do mundo tem acesso à web. No Brasil, de acordo com um relatório desenvolvido pela própria ONU, 42% da população está desconectada — e somente 11,5% dos brasileiros possuem banda larga. Nosso país ainda sofre com graves deficiências em sua infraestrutura de telecomunicações, e o alto custo dos planos de dados atualmente oferecidos impedem sua contratação por parte dos menos favorecidos.

A situação é simples: por mais que vejamos infinitas novidades tecnológicas surgindo diariamente ao redor do mundo, poucas delas efetivamente chegam na vida de toda a população brasileira. Os dispositivos móveis, por exemplo, só se popularizaram recentemente, com o lançamento de modelos com um melhor custo-benefício e a inauguração de incentivos fiscais como a Lei do Bem. Mesmo assim, as novas tecnologias continuam longe do cotidiano de indivíduos de classe baixa.

O TecMundo foi a campo investigar que projetos estão sendo desenvolvidos para mudar esse cenário e como as comunidades carentes utilizam as novidades tecnológicas para melhorar sua qualidade de vida em áreas como educação, emprego, saúde e comunicação. Para isso, focamos nossos esforços em Heliópolis — considerada a maior favela do estado de São Paulo —, que anda se destacando com programas inovadores e bastante interessantes.

Heliopolis

Cidade do Sol

O território de quase 1 milhão de metros quadrados no qual hoje se localiza a comunidade de Heliópolis passou por várias mãos até que a Prefeitura de São Paulo resolveu utilizar a região como abrigo provisório para 153 famílias retiradas das favelas de Vila Prudente e Vergueiro. O terreno, na época, pertencia ao Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (IAPAS). Foi daí que começou a ocupação: outras famílias passaram a construir barracos, e, cerca de 15 anos depois, o número de habitantes aumentou 20 vezes.

Após inúmeras disputas com grileiros na década de 80, Heliópolis foi adquirida pela Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab), que gerencia a área desde então e permite que os moradores permaneçam lá sem pagar aluguel. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 92% da população de Heliópolis é baiana, e foi exatamente desse estado nordestino que vieram os primeiros habitantes da região.

A origem do nome

Heliópolis é um topônimo, ou seja, uma junção de duas palavras do idioma grego: hélios (sol) e pólis (cidade). A comunidade paulista foi nomeada assim porque a maioria de seus primeiros habitantes eram originários do município homônimo da Bahia, localizado a 300 km da capital, Salvador.

Hoje rebatizada como Cidade Nova Heliópolis (tendo recebido o estatuto de bairro somente em 2006), a comunidade ainda enfrenta problemas estruturais. Não há transporte público dentro da favela, já que as ruas são estreitas demais para permitir a passagem de ônibus — os moradores precisam se deslocar até as vias exteriores. Também faltam programas culturais, opções de lazer (como museus, cinemas, teatros etc.) e maior segurança para os habitantes, já que o tráfico de drogas é uma prática comum na região.

Apesar disso, Heliópolis também vem se destacando por receber inúmeros programas de apoio e incentivo ao uso de novas tecnologias para melhorar a qualidade de vida da população local. Diversas empresas privadas demonstraram interesse em contribuir com o desenvolvimento econômico do bairro, provendo uma melhor infraestrutura de telecomunicações e oferecendo ferramentas para disseminar novidades tecnológicas na região — acredite, os resultados já são visíveis.


Campos Salles: um exemplo de superação

De “escola para favelados” a um modelo de inovação no setor de educação. Fundada em 1956, a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Campos Salles está localizada no número 2.347 da Estrada das Lágrimas, famosa avenida que atravessa a comunidade de Heliópolis e se estende até o distrito de Vila Cristalia, na divisa com São Caetano do Sul. Conta com cerca de 400 alunos em cada um dos ciclos (do 1º até o 5º a e do 6º até o 9º ano), além de quase 250 participantes do programa Ensino para Jovens e Adultos (EJA).

Desde 2012, a instituição vem trabalhando junto com a Fundação Telefônica para a aplicação do programa Escolas que Inovam, que busca aplicar novas tecnologias nas salas de aula e aprimorar o desenvolvimento profissional dos alunos. Agraciada com cerca de 200 laptops, uma conexão de internet de 100 Mbps e total suporte para a capacitação dos professores a trabalharem com essas ferramentas, a Campos Salles desde então tem empregado plataformas digitais em seu plano pedagógico e incentivado a participação dos estudantes no mundo virtual.

“Às 9h30, os corredores do local estavam cheios de crianças, que corriam para lá e para cá exibindo seus smartphones”

Convidados pelo professor Eder, o TecMundo fez uma visita à escola durante um dos dias de aula. A ideia era conferir de perto os trabalhos de alguns alunos em suas aulas de Robótica e Programação. Às 9h30, os corredores do local estavam cheios de crianças, que corriam para lá e para cá exibindo seus smartphones. Sem se envergonhar com a presença deste jornalista, um grupo de cinco meninas — que provavelmente tinham entre 7 e 10 anos — se aglomeram para tirar uma selfie com uma professora.

Convidados pelo professor Eder, o TecMundo fez uma visita à escola durante um dos dias de aula. A ideia era conferir de perto os trabalhos de alguns alunos em suas aulas de Robótica e Programação. Às 9h30, os corredores do local estavam cheios de crianças, que corriam para lá e para cá exibindo seus smartphones. Sem se envergonhar com a presença deste jornalista, um grupo de cinco meninas — que provavelmente tinham entre 7 e 10 anos — se aglomeram para tirar uma selfie com uma professora.

Inovar para transformar

Outra escola paulistana que foi atendida pelo programa Escolas que Inovam foi a EMEF Desembargador Amorim Lima, localizada no bairro do Butantã, perto da Universidade de São Paulo (USP). Quem apoia a Telefônica nessas empreitadas é o Instituto Natura; o responsável por modernizar a infraestrutura tecnológica é a Fundação Vanzolini. Por fim, o Instituto Tellus acompanha os processos de transformação.

Essa não é a primeira vez que a operadora de telefonia investe na educação brasileira. Em parceria com a Qualcomm, a Telefônica também mantém o programa Escolas Rurais Conectadas — que, como o nome sugere, busca garantir o acesso às novas tecnologias em escolas localizadas em regiões rurais ao redor do Brasil (com especial enfoque no Nordeste). Isso inclui treinamento dos corpos docentes, implementação de laboratórios de informática e oferecimento de cursos online gratuitos para os alunos.

Enquanto Eder está ocupado com a montagem de um aparelho de som, aproveito para explorar o pátio da Campos Salles. Interessante observar que a cultura digital já floresce na nova geração dos moradores de Heliópolis, mesmo que a renda familiar média dos habitantes fique na faixa dos R$ 480. Placas espalhadas por todo o recinto incentivam o compartilhamento de fotos da escola nas redes sociais — até mesmo uma hashtag especial para a Mostra Cultural havia sido criada. Enquanto um grupo de bailarinas se prepara para entrar em cena, outros jovens gravam toda a ação usando tablets variados.

“São equipamentos da escola”, explica Eder, que parece ser o faz-de-tudo do local quando o assunto é mexer com tecnologia. Os 12 tablets foram cedidos pela Prefeitura Municipal de São Paulo como parte da implantação do Sistema de Gestão Pedagógica (SPG), um sistema online que tem como objetivo facilitar o acompanhamento pedagógico dos alunos por parte dos pais e professores. “Mas vimos que não fazia muito sentido usá-los só para isso. Hoje, por exemplo, distribuímos os tablets para que os próprios estudantes pudessem filmar a Mostra Cultural”, complementa.

Sala de informatica

Na sala dedicada aos experimentos de robótica, um grupo de meninos se amontoam em uma mesa repleta de obras feitas com peças LEGO. Os inventos são variados: um quebra-cabeça, um carrossel e até mesmo um complexo joguinho de basquete, no qual é preciso usar bolas de gude para acertar o alvo. “Quanto mais você avança, mais difícil vai ficando”, comenta Eder. Um pequeno motor faz com que o ponto de mira se movimente verticalmente, complicando a vida do jogador.

Todas as engenhocas foram feitas por alunos do 5º e 6º ano, e empregaram microcontroladores Garagino em conjunto com scripts programados em Scratch. “Os princípios da escola são autonomia, responsabilidade e solidariedade, de forma que todos os trabalhos pedagógicos precisam estar alinhados com esses três valores. Antes mesmo de começarmos a montagem dos projetos, precisamos pensar em como os grupos serão criados, observar como os alunos estão dialogando, como os conflitos são sendo resolvidos etc.”, explica Eder.

Após pausar a entrevista para auxiliar na resolução de um bug em um dos projetos, o professor explica que o mais bacana das aulas é que elas propõem diversos desafios para os estudantes, que desde já são estimulados a usar a criatividade para pensar fora da caixa. “Teve muito disso naquela montagem ali”, diz, apontando para o quebra-cabeças. “Os alunos reclamavam que queriam desistir, que não queriam mais fazer. O legal é que eles mesmos veem hoje o fruto dessa insistência”, complementa.

Garagino? Scratch? Entenda

Baseada na plataforma Arduino, o Garagino é uma placa controladora voltada para desenvolvimento de protótipos e projetos caseiros de eletrônica. Compacto e bem mais acessível do que o gadget original, o componente foi desenvolvido em 2014 pelo Laboratório de Garagem, um coletivo brasileiro voltado a incentivar a cultura maker/DIY em nosso país. Enquanto um Arduino (importado) custa cerca de R$ 60, a versão mais simples do Garagino pode ser adquirida por módicos R$ 29 — ou seja, a metade do preço.

Já a Scratch é uma linguagem de programação visual criada em 2003 pelo Laboratório de Mídia do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT). Projetada justamente para ser o mais amigável possível para crianças (entre 8 e 16 anos) e iniciantes em geral, ela utiliza uma interface gráfica para permitir que o programador crie seu software encaixando blocos — que simbolizam diferentes comandos — uns nos outros. Embora a Scratch originalmente fosse empregada para criar jogos e animações, ela pode ser facilmente adaptada para outras finalidades e se comunicar com a plataforma Arduino.

É impressionante ver de perto a empolgação dos pequenos ao brincar com seus próprios projetos — uma animação dificilmente observada durante a aplicação de disciplinas pedagógicas tradicionais. Eles correm, debatem, teclam com desenvoltura e resolvem rapidamente os erros na estruturação do código. O aprendizado vira momento de diversão e fortalece a inspiração para um futuro promissor.

“Eles correm, debatem, teclam com desenvoltura e resolvem rapidamente os erros na estruturação do código”

“Quero ser engenheiro ou técnico de computadores”, declara Adriel, que tem 12 anos e está no 6º ano. Foi um dos responsáveis pela programação de um dos projetos. “Quero continuar trabalhando com tecnologia”, promete. Um pouco mais tímido do que seu colega de estudo, Kevin, de 10 anos, nos contou que trabalhar no seu invento “foi meio difícil, mas muito legal”. O jovem está no 5º ano.

“Eles perceberam que é preciso ter concentração para ter sucesso nos projetos. Às vezes, o guia pedia para usar uma peça com cinco bloquinhos, e eles usavam uma com oito ou com sete. Tivemos que trabalhar bastante no quesito atenção e foco”, relembra Eder, pontuando que os próprios alunos conseguiram se organizar para dividir as tarefas e fazer um trabalho em grupo. “Geralmente, eu fico só de longe olhando. Eles têm que encontrar o caminho sozinhos”, comenta.

Projeto com legos

Para o docente, as aulas de Robótica e Programação também são importantes por englobar diversas outras matérias, como Física e Matemática. Como essas disciplinas ficam “escondidas” por um véu bem mais atraente para os baixinhos, o ensino flui de forma natural. “Estamos finalizando essas montagens hoje para a Mostra Cultural e já teremos outras a partir da semana que vem. Já conseguimos usar o Arduino para controlar motores e luzes LED, e o desafio agora é usar sensores, como de toque e distância”, revela.


WiFi para todos

A EMEF Campos Salles faz parte do Centro Educacional Unificado (CEU) Professora Arlete Persoli, um complexo de quase 48 mil metros quadrados projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake e que desde ano passado substitui o antigo Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis. Ali, junto com duas outras escolas (uma de ensino técnico e outra de educação infantil), uma biblioteca e um centro esportivo, existe uma praça que foi contemplada pelo programa WiFi Livre SP, uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo que conseguiu prover internet sem fio gratuita em todos os 96 distritos da capital. Ao todo, são 120 praças equipadas com sinal wireless de pelo menos 512 Kbps efetivos.

De acordo com o site oficial do projeto, cada hotspot possui capacidade para atender de 50 a 250 usuários simultâneos, dependendo da localidade. O custo médio para manter cada praça em pleno funcionamento é de R$ 6,4 mil por mês; o valor do contrato anual com as empresas privadas responsáveis por implementar e gerenciar a infraestrutura dos pontos de acesso é de R$ 9,2 milhões.

Wifi na praça

Fomos conferir a qualidade do sinal no CEU Professora Arlete Persoli, e, para a nossa surpresa, o hotspot funciona muito bem. Além de cobrir toda a área do complexo (abrangendo os diversos prédios que compõem a central de ensino), o sinal WiFi proporcionou uma taxa de 16 Mbps para download e 9 Mbps para upload, um resultado muito superior ao mínimo de 512 Kbps divulgado pela prefeitura. No momento do teste — uma tarde de terça-feira —, a praça estava razoavelmente cheia, sendo sensato estipular que pelo menos 50 pessoas estavam conectadas à rede simultaneamente.

“o sinal WiFi proporcionou uma taxa de 16 Mbps para download e 9 Mbps para upload”

De acordo com um estudo divulgado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de municípios brasileiros que oferecem redes WiFi gratuitamente para seus cidadãos cresceu 83,2% no último ano. São Paulo dispara no topo do ranking com um total de 207 prefeituras ofertando tal serviço, sendo seguido por Minas Gerais (155) e Rio Grande do Sul (116). Apesar disso, apenas o Distrito Federal disponibiliza internet sem fio em 100% de seu território — outras unidades federativas têm cobertura de, no máximo, 46,7% de suas terras.

Embora tais números apresentem um salto impressionante em relação aos anos passados, ainda falta muito para que o Brasil tenha uma infraestrutura de telecomunicações sem fio pública de alta qualidade — apenas 1.457 municípios de um total de 5.570 em todo o país estão devidamente conectados. A expectativa é que, com a ajuda de incentivos como o programa Cidades Digitais, esse cenário mude com maior agilidade a partir de 2016.

Clique na imagem para ver o mapa das praças WiFi Livre SP:

Mapa praças

Uma das principais parceiras do governo brasileiro nesse quesito é a Ruckus Wireless, uma empresa multinacional especializada em prover soluções WiFi de desempenho superior. De acordo com a companhia, há uma tendência global em criar cidades inteligentes que utilizam redes de comunicação sem fio para melhorar as operações municipais, impulsionar o desenvolvimento econômico local e prover melhorias significativas em áreas como educação, saúde, transporte e segurança.

“O governo para nós é muito importante, pois representa 50% do mercado”, afirma Andre Queiroz, diretor de vendas da Ruckus para a América Latina, em entrevista ao TecMundo. “O WiFi Livre aqui em São Paulo, por exemplo, tem um impacto enorme na população. São investimentos com um valor relativamente baixo e com resultados muito satisfatórios”, explica o executivo. A corporação já cuidou da infraestrutura de várias cidades inteligentes ao redor do Brasil, como Fortaleza, Recife, Petrópolis, Belém e Salvador.

Por trás das cortinas

Embora a Ruckus não seja um nome conhecido no Brasil até mesmo entre os apaixonados por tecnologia, a companhia detém uma parcela enorme do mercado de comunicação sem fio em nosso país. Sendo considerada uma das principais fornecedoras de soluções WiFi do mundo, a marca também trabalha com redes de hotelaria, universidades, estádios e comércio em geral. “Dois shoppings aqui de São Paulo estão testando uma solução extremamente inovadora. O estabelecimento vai poder saber por onde o cliente entrou, por onde saiu, quanto tempo ficou parado na frente de uma loja, enfim, saber exatamente quem o consumidor é, para poder fazer ações específicas de acordo com esse perfil”, revela Andre.

As soluções da Ruckus se diferenciam da concorrência pelo tratamento especial do sinal sem fio. Através de antenas especiais, a rede é direcionada especificamente para os dispositivos conectados, em vez de simplesmente ser espalhada por todo o ambiente. Isso reduz interferências na conexão e entrega maior potência para o usuário final. Trata-se do famoso conceito de beamforming, que, nos últimos anos, também tem sido empregado em roteadores residenciais.

“As pessoas precisam de conectividade para trabalhar e para viver”, ressalta Andre. A Ruckus acredita que o WiFi pode e deve coexistir com as redes móveis, sendo inclusive uma forma eficiente de desafogar as bandas 3G e 4G — tanto que a companhia também trabalha ao lado das principais operadoras de telefonia do Brasil que desejam oferecer pontos de internet wireless como serviço complementar aos seus clientes.

“95% do tráfego de smartphones brasileiros são de internet wireless, e não de redes móveis”

“Há locais que a operadora não consegue cobrir direito com suas antenas”, afirma o executivo. “Quando você está parado, seja em casa, no escritório, no cinema, no restaurante ou no parque, o melhor é usar o WiFi, caso disponível. Só em momentos de locomoção, como no trânsito, o 4G ou o 3G se tornam a melhor opção”, explica. Essa linha de raciocínio parece estar correta, principalmente se analisarmos um recente estudo feito pelo instituto Informate — 95% do tráfego de smartphones brasileiros são de internet wireless, e não de redes móveis.

Isso deixa claro que o futuro está nos dispositivos móveis, cada vez mais acessíveis e com opções para todas as classes sociais. Porém, de nada serve um celular sem conexão com a web. E é por isso que a Prefeitura de São Paulo está disposta a expandir a cobertura do programa WiFi Livre em 2016 e até mesmo abriu uma consulta pública para que os próprios paulistanos possam sugerir as próximas localidades que devem receber hotspots gratuitos nos próximos meses.


Facebook: a comunidade curtiu isso

A iniciativa privada realmente parece ser o caminho para impulsionar projetos de inclusão digital. Em março deste ano, o Facebook inaugurou seu primeiro Laboratório de Inovação no coração de Heliópolis. Para quem não está acostumado a andar pela comunidade, é um pouco complicado chegar lá. Após enfrentar vielas e ruas estreitas — tão minúsculas que dois carros não conseguem atravessar ao mesmo tempo —, tomando cuidado para não escorregar no chão molhado com a chuva de verão, o jornalista do TecMundo finalmente alcançou o número 128 da Rua Jovens do Sol.

Até a intervenção da empresa de Mark Zuckerberg, o local era nada mais do que o Centro da Criança e do Adolescente (CCA) regional; agora, o logotipo da rede social decora a coloridíssima fachada do prédio. Ao passar por uma portinha de metal, o visitante logo se depara com uma sala ampla equipada com 15 notebooks novinhos em folha. Na parte da manhã, o laboratório oferece cursos e oficinas que estimulam empreendedores locais a usarem ferramentas digitais para alavancar seus negócios; na parte da tarde, o uso dos computadores e da internet é livre.

Laboratório facebook

Pelo horário da visita — aproximadamente 17h — e por conta do tempo chuvoso, o TecMundo encontrou um laboratório relativamente vazio, habitado somente pelos multiplicadores (grupo de jovens treinados pelo Facebook para gerenciar o local). Uniformizados e com sorrisos nos rostos, se mostram prestativos e entretidos com as fotos das recentes ações da rede social nas favelas do Rio de Janeiro. Em uma das paredes, um gigante quadro branco convida o visitante a escrever algum recado. É o famoso “The Facebook Wall”, algo sempre presente nos escritórios da empresa.

Todos os workshops oferecidos pelo Laboratório de Inovação são gratuitos, bastando que o interessado faça a inscrição com antecedência; afinal, são apenas 15 vagas por turma. A divulgação do calendário é feita pela internet — em uma página dedicada ao projeto — e presencialmente, com distribuição de panfletos informativos na casa dos moradores. Para sair do papel e virar realidade, o programa teve o apoio da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (UNAS), uma ONG dedicada a defender os interesses da população regional.

Em terras cariocas

Em novembro de 2015, em parceria com a Central Única de Favelas (CUFA) e com a Universidade Estácio de Sá, o Facebook anunciou a ampliação do programa Facebook na Comunidade para atender também às favelas do Rio de Janeiro. Entre dezembro desse mesmo ano e julho de 2016, uma “Facekombi” — laboratório itinerante montado em um furgão — passará por várias regiões da Cidade Maravilhosa, oferecendo cursos semelhantes aos de Heliópolis.

A ideia é capacitar os empreendedores locais a tempo da Olimpíada de 2016, que deve gerar muitas oportunidades de negócio para o comércio carioca. Ao todo, serão dez comunidades atendidas: Morro do Dendê, Chapadão, Vila Aliança, Cidade de Deus, Rocinha, Acari, Complexo da Pedreira, Vila Vintém, Vidigal e Complexo do Alemão.

De acordo com informações da própria rede social, 90% dos moradores de Heliópolis usam o Facebook — porém, a maioria esmagadora dos comerciantes locais (86%) ainda não tem presença na web para divulgar seus produtos e serviços. É justamente por isso que os módulos educacionais do laboratório são focados em estratégias para criação de páginas, marketing digital e outras ferramentas para envolver os potenciais consumidores.

“90% dos moradores de Heliópolis usam o Facebook — porém, a maioria esmagadora dos comerciantes locais (86%) ainda não tem presença na web”

Entre os “cases de sucesso” destacados pela empresa, podemos citar a loja Revolução Rap. Gerenciado pelo locutor Mano Zóio (nome artístico para Danilo Barreto, de 28 anos), o empreendimento comercializa camisetas e bonés com temáticas específicas para a população da comunidade. “O Facebook me ajuda a expandir minha marca”, afirma Danilo, que desde 2013 mantém uma página na rede social para se comunicar com clientes.

Outra empreendedora que descobriu recentemente como usar a plataforma virtual para impulsionar suas vendas é Dayse Vilela, de 24 anos. Sua marca de fraldas customizadas, a Arte Bebê, ficou por muito tempo limitada ao marketing boca a boca, mas alcançou notoriedade após ganhar uma representação oficial na rede social. “Tem muita gente entrando em contato comigo que eu nem conheço. Acredito que vou ter ótimos resultados para meu negócio”, afirma.


O futuro é a internet móvel gratuita

Acredite ou não, mas já existem projetos que visam desenvolver um modelo de negócios que permita o acesso gratuito a determinados sites e aplicativos. Um belo exemplo desse tipo de programa é o 0800 Dados, que foi idealizado pela Qualcomm e teve seus primeiros testes no ano de 2012. O conceito é simples: o patrocinador — que pode ser uma corporação, um comércio, um órgão governamental etc. — faz uma parceria com as operadoras de telefonia móvel e permite que qualquer indivíduo acesse seus serviços online gratuitamente, sem que a navegação gaste a franquia de seu plano de dados.

“já existem projetos que visam desenvolver um modelo de negócios que permita o acesso gratuito a determinados sites e aplicativos”

“Para o patrocinador, o canal mobile é o mais eficiente. Os bancos querem que o usuário faça transações pelo celular e governo preferiria que eu acessasse minhas informações por um dispositivo móvel”, exemplifica Oren Pinsky, diretor de Novos Negócios da Qualcomm Brasil, em uma rápida entrevista ao TecMundo. De acordo com o executivo, o objetivo do 0800 Dados é democratizar o uso da internet móvel assim como os planos de telefonia pré-pagos democratizaram a comunicação por voz. “Queremos que, nos próximos anos, os dados patrocinados sejam algo tão comum que todo mundo estará usando”, afirma.

O Bradesco foi a primeira grande empresa a adotar esse modelo de negócios e se tornou um verdadeiro case de sucesso. Permitindo que seus correntistas usassem o internet banking sem gastar suas franquias de dados desde 2014, o banco conseguiu dobrar o número de transações feitas em dispositivos móveis em menos de um ano — e isso também representou uma grande economia absurda aos cofres da instituição, visto que o custo por transação no ambiente mobile é bem menor do que em canais tradicionais (como agências ou caixas eletrônicos).

WiFi Livre

Recentemente, o Grupo Netshoes também aderiu ao 0800 Dados, e, a partir de agora, clientes das lojas virtuais Netshoes e Zattini podem navegar livremente sem preocupações. “Buscamos sempre facilitar a vida de nossos consumidores e a inovação é uma grande aliada para isso. Neste caso, os principais impactados deverão ser usuários de planos pré-pagos que possuem um acesso mais limitado a rede de dados”, explica o CEO do ecommerce. “O acesso mobile já representa 46% de nossas visitas”.

Oren nos conta que outros varejistas já estão cogitando adotar esse modelo de negócios, e até mesmo alguns governos estaduais já declararam abertamente seu interesse pelo formato de dados patrocinados. A Prefeitura de São Paulo, por exemplo, quer oferecer gratuitamente alguns serviços da rede Poupatempo. E as operadoras? “Elas estão enxergando nisso uma oportunidade de gerar mais receita”, declara o executivo. “Além disso, o 0800 Dados faz com o que o indivíduo veja mais valor no serviço de conectividade. O grande alvo de um programa como esse é o usuário de planos pré-pagos, que não costuma usar a internet no celular”, explica.

A Qualcomm também afirma que esse modelo de negócios não fere o princípio da neutralidade da rede, defendido por medidas regulatórias como o Marco Civil da Internet. “As operadoras garantem que o tráfego do 0800 Dados não tem nenhuma distinção do tráfego não patrocinado. Não tem priorização, a velocidade não é diferente”, defende Oren. “Na nossa visão, o projeto está totalmente alinhado com os princípios de neutralidade de rede”, conclui.

Ao redor do mundo

O formato de dados patrocinados não existe somente no Brasil — embora só por aqui vejamos quatro operadoras juntas trabalhando em um projeto do gênero. Nos Estados Unidos, por exemplo, a AT&T oferece desde 2014 alguns conteúdos de empresas parceiras que podem ser navegados sem dedução na franquia de dados do usuário. Além disso, modelos similares vêm sendo testados pela Wikipédia (com o Wikipédia Zero) e pelo Google (com o Google Free Zone): ambos podem ser usados gratuitamente em alguns países em desenvolvimento graças a parcerias com determinadas provedoras de telefonia móvel.

Outro projeto semelhante e que também visa popularizar a internet móvel entre aqueles que não têm condição financeira para arcar com um plano de dados é o Free Basics, criado pelo Facebook em parcerias com uma série de empresas do mercado de tecnologia (como Nokia, MediaTek, Opera e a própria Qualcomm). Originalmente conhecido como Internet.org, o programa tem como objetivo oferecer conteúdos e serviços básicos (como a Wikipédia) para os usuários sem custo algum, através de um aplicativo especial que serve como navegador web.

Hoje o projeto oferece cerca de 60 serviços em 19 países ao redor do globo, e a meta de Mark Zuckerberg é aumentar esse número em 2016. Diferente do 0800 Dados, porém, o Free Basics é constantemente alvo de críticas relacionadas ao conceito de neutralidade da rede. No Brasil, até mesmo a Associação Brasileira de Defesa ao Consumidor (PROTESTE) se posicionou contra o modelo de negócios, alegando que o acesso restrito aos poucos parceiros do Facebook nessa empreitada é uma afronta ao Marco Civil da Internet. Dúvidas relacionadas à segurança dos usuários do sistema também são comuns. Procurado pelo TecMundo, o Facebook não quis comentar sobre o assunto.

Free Basics

Independentemente de tais discussões, não há dúvidas de que o Free Basics — tal como o 0800 Dados — seja uma poderosa ferramenta de inclusão digital, com grande capacidade para democratizar o acesso à internet através dos dispositivos móveis. Mesmo restrita, a navegação pelos serviços oferecidos pelo programa é algo precioso para cidadãos desfavorecidos, como os moradores da comunidade de Heliópolis. Os dispositivos móveis se tornaram tão populares quanto os computadores, e programas antigos como os clássicos telecentros já não são mais suficientes para atender à demanda.

Aliás, vale a pena ressaltar que, infelizmente, a maioria dos projetos citados nesta matéria partem da iniciativa privada — o governo brasileiro pouco faz para garantir o acesso à web pela população como um todo. Só nos resta torcer para que esse cenário mude em breve; afinal, como já dissemos, a internet é um dos mais importantes direitos humanos nestes tempos modernos.

Comentários

Design: Saito Takeuchi

Redação: Ramon de Souza

Ilustração: Aline Sentone

Coordenação: Gustavo Abrão, Igor Panki & Wikerson Landim