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Segurança

Deputado tentou aliviar responsabilidades da Meta em casos de adultização, afirma reportagem

Reportagem do Intercept Brasil aponta que o deputado Fernando Máximo (UNIÃO-RO) usou textos de um lobista da Meta em emendas do Projeto de Lei 2628 — voltado para a proteção de crianças na internet.

Avatar do(a) autor(a): Felipe Vitor Vidal Neri

schedule14/08/2025, às 18:30

updateAtualizado em 14/08/2025, às 18:39

Após o vídeo “Adultização” do influenciador Felca viralizar nos últimos dias, a ala governista se movimentou para pautar um novo projeto de regulamentação das redes sociais para proteger crianças e adolescentes. Contudo, o deputado Fernando Máximo, da União Brasil, teria apresentado uma emenda que afrouxa a proteção contra menores, algo orquestrado pela Meta.

Os detalhes foram revelados por meio de uma apuração do The Intercept Brasil, que sugere uma ligação entre Máximo e um lobista da Meta no Brasil, Marconi Borges Machado. Desde 2017, Machado atua como gerente de políticas públicas na dona do WhatsApp e Facebook, e o episódio aumenta as discussões sobre a falta de responsabilização das Big Techs.

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A reportagem veiculada pelo site casa exatamente com o período em que o presidente Lula deve enviar ao Congresso uma nova pauta para regulamentar as redes sociais. O TecMundo já explicou sobre a proposta e relação com o vídeo do Felca, que está em discussão há alguns meses e visa responsabilizar as empresas pelos conteúdos divulgados.

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Máximo também já foi Secretário de Saúde de Roraima (Imagem: Agência Câmara/Reprodução)

O caso Máximo

Fernando Rodrigues Máximo é um deputado federal pelo partido União Brasil de Roraima. Com formação pela UFAM, Máximo é pós-graduado em Cirurgia Geral, e foca sua atuação na Câmera nas áreas da saúde e pessoas com deficiência, e desde 2023 atua como relator na Comissão da PEC 005/23 sobre Imunidade Tributária.

Mas com esse currículo, o que Máximo tem a ver com as grandes empresas de tecnologia? Como aponta o Intercept, segundo metadados de arquivos disponibilizados no site da Câmara, de quatro emendas propostas por ele, pelo menos duas foram diretamente criadas por Marconi Borges Machado, o gerente de políticas da Meta.

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Emendas estão disponíveis para download no site da Câmara dos Deputados (Imagem: Felipe Vidal/TecMundo)

A primeira dessas emendas buscava livrar grandes empresas de tecnologia de uma obrigação em enviar relatórios sobre moderação de conteúdos. Na visão de Máximo haveria uma “falha” ao exigir a divulgação de dados somente pela existência de menores de idade na rede, e isso poderia criar um “ônus sem a necessária contrapartida e benefício”.

Já a segunda emenda almejava livrar a possibilidade das big techs receberem multas e sanções criminais pela “falta de enumeração de crimes ou de lógica que pudesse ensejar responsabilidade criminal”. A proposta de emenda entendia que penalidades administrativas de outras legislações nacionais já eram suficientes para sancionar eventuais incidentes.

Ambas as emendas foram enviadas aos relatores por meio de Fernando Máximo, mas os metadados dos arquivos mostram a assinatura de Marconi Borges Machado.

PL 2628 picotada?

Essas duas emendas, aparentemente redigidas por Fernando Máximo e seu gabinete, tinham como objetivo alterar parte dos artigos 23 e 25 da PL 2628. O Projeto de Lei foi apresentado em 2022 pelo senador Alexandro Vieira (MDB-SE) para estabelecer uma série de regras que mitigariam a exploração sexual infantil, bullying, e estabeleceriam restrições de tempo de tela e punições para as redes sociais.

No entanto, as duas emendas de Máximo acabaram rejeitadas pelo relator da Comissão de Comunicação, Jadyel Alencar (Republicanos-PI), na última terça-feira (12). Apesar disso, o texto final inclui um trecho que dispensa essas empresas da “exigência de consolidação estatística e envio semestral de relatórios de moderação e denúncias”.

O dever de cuidado

Para além dessas duas emendas específicas, Máximo está envolvido em mais uma emenda que afrouxava a responsabilidade das Big Techs. A versão final do PL 2628 recebeu 38 emendas, e em uma delas foi sugerido e posteriormente acatado, o fim do dever de cuidado.

Em termos simples, o dever de cuidado é uma premissa de que as donas das redes sociais deveriam impedir crimes, mitigar danos e proteger preventivamente os usuários que atuam em suas plataformas. Por mais que nessa emenda não tenha sido encontrada a assinatura de Borges, Máximo é creditado como um dos autores.

O dever de cuidado foi uma forte pedra no sapato dos big techs. No relatório apresentado por Jadyel Alencar, o termo foi substituído por alegações de cunho mais genérico, como “prevenção, proteção, informação e segurança”.

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Dever de cuidado poderia gerar exigências “desproporcionais”, segundo os autores (Imagem: Intercept)

Além de Máximo, o deputado Capitão Alberto Neto (PL-AM) também sugeriu a mudança. Porém, no texto que explica sobre essas alterações, Alencar aponta que propostas apresentadas pela Meta e pelo Google também contribuíram para essa decisão de suprimir o dever de cuidado.

O que diz a Meta e Máximo?

Em resposta à publicação do veículo, a Meta aponta estar interessada no debate sobre o PL 2628. “Assim como no caso de sugestões feitas por outras empresas, organizações da sociedade civil, órgãos do governo e especialistas, as propostas apresentadas pela Meta e acatadas no texto estão registradas no parecer do relator”, explica a nota da empresa.

Contudo, a gigante por trás do Instagram e Facebook não respondeu sobre a assinatura de Marconi Borges Machado, ou sua relação com o profissional.

Por outro lado, o deputado Fernando Máximo explicou que trabalhou para “garantir segurança jurídica, não criar burocracia desnecessária, evitar a censura e preservar a liberdade de expressão”. A principal preocupação do médico é com a proteção de “nossas crianças e adolescentes”.

Sobre seu envolvimento com o lobista da Meta, o político comenta que muitos projetos de sua autoria ganham forma após conversas com empresas e entidades. No entanto, Máximo afirma que sua missão “não é representar a defesa de nenhum interesse específico”.

Para mais informações sobre redes sociais e as propostas de regulamentação das redes sociais, fique de olho no TecMundo. 

 

Perguntas Frequentes

O que é o Projeto de Lei 2628 e qual seu objetivo principal?
O PL 2628, apresentado em 2022 pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), visa regulamentar o uso das redes sociais com foco na proteção de crianças e adolescentes. Entre seus objetivos estão a mitigação da exploração sexual infantil, o combate ao bullying, a imposição de limites de tempo de tela e a responsabilização das plataformas por conteúdos prejudiciais.
Qual foi o envolvimento do deputado Fernando Máximo com emendas que beneficiariam as Big Techs?
Segundo apuração do The Intercept Brasil, Fernando Máximo apresentou emendas ao PL 2628 que afrouxariam a responsabilização das grandes empresas de tecnologia. Metadados de arquivos indicam que pelo menos duas dessas emendas foram redigidas por Marconi Borges Machado, lobista e gerente de políticas públicas da Meta no Brasil.
O que propunham as emendas atribuídas a Marconi Borges Machado?
Uma das emendas buscava isentar as Big Techs da obrigação de enviar relatórios sobre moderação de conteúdo, alegando que isso geraria um “ônus sem contrapartida”. A outra visava impedir a aplicação de sanções criminais às plataformas, argumentando que penalidades administrativas já seriam suficientes.
O que é o “dever de cuidado” e por que ele foi retirado do texto final do PL?
O dever de cuidado é o princípio de que as plataformas devem prevenir crimes, mitigar danos e proteger os usuários de forma proativa. Esse conceito foi retirado do texto final do PL 2628 e substituído por termos mais genéricos como “prevenção, proteção, informação e segurança”, após sugestões de deputados e contribuições de empresas como Meta e Google.
As emendas de Fernando Máximo foram aprovadas?
Não. As duas emendas atribuídas a Marconi Borges Machado e apresentadas por Fernando Máximo foram rejeitadas pelo relator da Comissão de Comunicação, Jadyel Alencar. No entanto, o texto final ainda incorporou trechos que aliviam obrigações das plataformas, como a dispensa do envio semestral de relatórios de moderação.
Como a Meta respondeu às acusações sobre influência no PL 2628?
A Meta afirmou estar interessada no debate sobre o PL 2628 e que suas sugestões, assim como as de outras entidades, estão registradas no parecer do relator. No entanto, a empresa não comentou sobre a assinatura de Marconi Borges Machado nos documentos nem sobre sua relação com o deputado Fernando Máximo.
Qual foi a justificativa de Fernando Máximo para suas propostas?
Fernando Máximo declarou que seu objetivo era garantir segurança jurídica, evitar burocracias desnecessárias, prevenir censura e preservar a liberdade de expressão. Ele afirmou que suas propostas visam proteger crianças e adolescentes e que costuma dialogar com empresas e entidades ao elaborar projetos, mas que não representa interesses específicos.
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