Trabalhar no Facebook é o sonho de muitos jovens. Atraídos pela possibilidade de ganhar um bom salário em um ambiente moderno — com direito a chefia descolada, horários flexíveis e áreas de descompressão cheias de pufes coloridos —, os aspirantes encaram qualquer possibilidade de emprego, simplesmente para figurar entre selecionados por uma das gigantes multinacionais do setor tecnológico mundial. Mas… As coisas podem não ser tão belas quanto parecem: em relato revelado por matéria da BBC, um jovem conta como era sua vida como revisor de denúncias sobre violência e ódio na plataforma.

Eu via vídeos ao vivo para checar se alguém se mataria

Com o nome fictício de Sergio, o rapaz afirma que ele e outros 500 colegas do mundo inteiro tinham um cotidiano mais parecido com o de um call center abusivo: em seu escritório cada um era responsável por avaliar 3,5 mil fotos, vídeos e textos denunciados diariamente, com uma média de uma decisão difícil a cada 8,5 segundos. “Eu via vídeos ao vivo para checar se alguém se mataria”, conta à reportagem da BBC.

Assim como todos da equipe, Sergio precisou decorar uma série de normas sobre publicações, já que os países lidam de formas diferentes com várias questões e algumas mudanças contam com atualizações políticas e culturais. Tudo isso era exercitado constantemente no conteúdo sobre possíveis pedofilia, nudez, necrofilia, suicídios, assassinatos, assédios, ameaças, armas, drogas e violência animal, publicados em 10 idiomas.

Suicídio

Tudo isso em um local em que o uso de celulares são proibidos e as pausas para comida e banheiro são monitoradas, com altas multas e ameaças de processos judiciais contra vazamento de informações. "Era como um grande call center, sem os telefones. A gente estava ali para atender ao cliente: no caso, o Facebook e todos os seus usuários."

Treinando o algoritmo para ser mandado embora

Sergio detalhou um pouco do trabalho. Os revisores usam uma linha alternativa da Linha do Tempo do Facebook para examinar as denúncias aleatórias, somente com a publicação e o nome do autor, sem acesso ao perfil completo.

Em seguida, o material era apagado, ignorado ou enviado para avaliação de superiores, especialmente nos casos de pedofilia e suicídio, pois estes envolvem a investigação de autoridades. O que chamou a atenção foi o fato de boa parte do trabalho se dedicar à máquina de aprendizado de algoritmos da inteligência artificial.

inteligência artificial

Ou seja, os empregados treinam o computador para que ele fique a cada dia mais ágil e preciso no monitoramento e reconhecimento do conteúdo violento ou mensagens de ódio. “Quanto mais ensinávamos o algoritmo, menos nos tornávamos necessários. Nosso trabalho era tornar o nosso trabalho obsoleto”, conta à BBC.

Sergio não aguentou e se desligou do Facebook

Jovens como Sergio são comuns na fila de revisores de conteúdo da plataforma, pois costumam viver no exterior e recorrem ao cargo porque falam outros idiomas e conhecem diferentes culturas mas inicialmente não conseguem empregos em suas áreas. Tudo isso com apenas um salário mínimo. Assim, a rotatividade é alta, muita gente não suporta sequer um ano no posto.

Eu não queria me tornar uma daquelas pessoas que apareciam nas denúncias

"Ver conteúdos fortes todos os dias te faz perder a sensibilidade para certas coisas. Especialmente em relação à nudez - eram tantas selfies de gente nua, closes em pênis, vaginas e mamilos, que a pornografia perdeu a graça", relatou à BBC. O choque causado por outras imagens que incluem crueldade com animais fez com que ele largasse esse cotidiano e até mesmo levou-o a apagar definitivamente sua conta na rede social.

Facebook redes sociais

"Para não ficar preso nas bolhas, nas câmaras de eco onde as pessoas só ouvem as próprias vozes e as de quem concorda com elas, eu decidi me isolar. Eu não queria me tornar uma daquelas pessoas que apareciam nas denúncias."

Facebook não respondeu às questões da BBC

A companhia é conhecida por buscar proximidade com núcleos em atrito com a plataforma e costuma reconhecer suas falhas, assim como os esforços para superar diferenças e atualizações em diversas esferas.

Contudo, procurada pela BBC Brasil para comentar as revelações feitas por Sergio, a empresa afirmou apenas que “não irá comentar” esses relatos. Esperamos que a empresa fale a respeito, até porque o próprio Mark Zuckerberg afirmou recentemente a contratação de 10 mil novos funcionários diretos e indiretos para funções como a de Sergio.

Já tratamos sobre o tema aqui no TecMundo, em 2014. Confira outra traumatizante rotina de um moderador de conteúdo nas redes sociais.

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