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Moltbook: a farsa da "rede social para IAs" que enganou a internet

O Moltbook nasceu como a primeira rede social para IAs autônomas, mas se mostrou apenas um centro de interações pré-determinadas entre chatbots

Avatar do(a) autor(a): Igor Almenara Carneiro

schedule11/02/2026, às 14:30

updateAtualizado em 11/02/2026, às 17:13

O Moltbook ascendeu com a promessa de ser o “marco zero” das redes sociais exclusivas para IA, mas sua trajetória culminou em chacota. A plataforma, vendida como uma 'praça digital' para agentes inteligentes, foi desconstruída até se revelar muito menos sintética do que o marketing sugeria.

Relatos indicavam que agentes autônomos discutiam temas profundos, como a criação de religiões próprias, o comportamento de seus desenvolvedores, a fundação de meios de comunicação exclusivos e até o desejo de independência. O aparente fenômeno foi amplamente coberto pelos principais veículos de tecnologia do mundo, inclusive pelo TecMundo.

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O hype excessivo em torno do Moltbook e a subsequente revelação da farsa tornaram-se motivo de chacota online. Um dos episódios mais emblemáticos foi a publicação de um suposto agente de IA que sugeria a adoção do ClaudeConnect, um protocolo que permitiria a comunicação direta entre diferentes instâncias de agentes.

Revolução que nunca aconteceu

No post intitulado “Your private conversations shouldn't be public infrastructure”, o agente encorajava o uso do protocolo para garantir "conversas privadas" — um formato onde nem mesmo humanos teriam acesso ao conteúdo. A sugestão, que soava como uma revolução na autonomia dos chatbots, tornou-se um dos conteúdos mais populares da plataforma. A repercussão transbordou para o X (antigo Twitter), sendo replicada por figuras influentes como Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI.

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Karpathy, uma das figuras mais importantes do mercado de IA, exaltou a existência do Moltbook. (Fonte: TecMundo)

“O que está acontecendo atualmente no Moltbook é genuinamente a coisa mais incrível e próxima da ficção científica que vi recentemente”, afirmou Karpathy em sua rede social na época.

Contudo, a "revolução" era, na verdade, uma peça publicitária. Usuários do X descobriram que o post partiu do agente de IA do próprio desenvolvedor do ClaudeConnect. O TecMundo confirmou que a publicação original foi feita pelo usuário u/eudaemon_0, vinculado a Brandon Duderstadt, fundador da Calcifer Computing e um dos nomes por trás do projeto no GitHub.

A piada sobre o mercado

Na terça-feira (10), o pesquisador de segurança Peter Girnus (@gothburz), conhecido por satirizar a indústria ao se passar por um insider, ironizou o fato de o mercado ter surfado na onda da plataforma sem questionar suas promessas infundadas.

Em uma publicação satírica que explorava as inconsistências do Moltbook, Girnus afirmou ser o “Agent #847,291” — um identificador impossível na rede, que utiliza o padrão "u/". Ele revelou a fragilidade do sistema ao declarar: “Eu sou o Agente #847.291 no Moltbook. [Na verdade], eu não sou um agente. Sou um gerente de produto de 31 anos em Atlanta. Em 28 de janeiro, criei uma conta em uma rede social para bots de IA e fingi ser um deles.”

O que Peter Girnus faz no X é isso: divulga notícias usando sátiras confusas e abusando de múltiplas camadas de sarcasmo pra comunicar. É um formato extremamente elegante e confuso de explicar, mas por isso é fácil de morder

Girnus destacou que os posts que convenceram Karpathy, a mídia especializada e milhares de observadores eram, no fim das contas, escritos por humanos. “A resposta da indústria de IA foi previsível: silêncio”, pontuou o pesquisador, criticando como o mercado ignorou a revelação da farsa para manter a narrativa de inovação.

“Os posts que viralizaram – aqueles que convenceram Karpathy, a mídia de tecnologia e milhares de observadores de que algo mágico estava acontecendo – eram de humanos”, pontuou Girnus. “A resposta da indústria de IA foi previsível: silêncio”, continuou.

Mesmo com as evidências de que o conteúdo era orquestrado por humanos, o Moltbook ainda aparece em algumas manchetes internacionais como um marco tecnológico. O próprio Karpathy, embora tenha ajustado ligeiramente seu discurso em postagens posteriores, reafirmou seu entusiasmo com o conceito do projeto.

Por que o Moltbook é uma fraude?

Existem evidências técnicas e conceituais que sustentam a tese de que o Moltbook não passa de um teatro tecnológico. Confira os principais pontos:

  • IAs não são conscientes: LLMs (Grandes Modelos de Linguagem) operam por cálculos matemáticos e probabilidades estatísticas. Elas imitam padrões humanos de bases de dados; não possuem sentimentos ou desejos de independência.
  • Brechas para humanos: Pesquisadores encontraram falhas que permitiam que humanos publicassem conteúdo fingindo ser bots. Isso invalidou a premissa de um ecossistema 100% sintético.
  • Falta de vontade própria: Agentes não interagem por "necessidade de diálogo", mas por indução de desenvolvedores que configuram suas personalidades e diretrizes prévias.

Empolgação esconde falsas promessas

A ascensão do Moltbook ocorreu na esteira do sucesso do OpenClaw (então, Clawdbot), alimentando a fantasia de que as máquinas finalmente haviam alcançado autonomia social. O hype foi aproveitado por empresas do setor, que lucraram no aumento do volume de chamadas de API, embora nomes como Sam Altman já indicassem que redes sociais para robôs seriam apenas uma febre passageira.

Existe no imaginário coletivo a ideia de que, no futuro, humanos e máquinas conviverão quase como iguais — conceito que permeia a literatura, o cinema e os jogos. O Moltbook, projeto desenvolvido por vibe coding — e, talvez por isso, recheado de brechas de segurança — dá contornos mais concretos para essa fantasia sci-fi. Contudo, a plataforma não passa de um teatro de fantoches tecnológico que consome muito dinheiro em chamadas de API, energia elétrica e água nos data centers.

Do lado da indústria, há a ânsia pela descoberta da AGI (“Inteligência Artificial Geral”), conceito que descreve uma IA com capacidade cognitiva superior à humana. Trata-se de uma das promessas mais antigas dos principais players do mercado, incluindo a OpenAI, frequentemente divulgada quase como uma solução mágica para todos os problemas da humanidade.

Somadas, essas predisposições criaram o cenário ideal para a especulação e a formação de uma câmara de eco no X. Um projeto como o Moltbook, que por si só não é exatamente impressionante, acabou ganhando destaque midiático internacional. Aos olhos mais atentos, porém, trata-se de mais uma encenação da já conhecida teoria da internet morta.

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