Quem é o internauta hoje? (Fonte da imagem: Reprodução/QQA)

As relações entre produtores e consumidores de conteúdo digital online se estreitam – e se confundem – cada vez mais. Henry Jenkins, um dos teóricos mais aclamados do ramo da comunicação, diz que, hoje, a convergência midiática possibilitou a fusão dessas duas figuras (consumidores passam a produzir material, configurando-se também como parte ativa da relação comunicacional).

Em estudo realizado pela KPMG International, uma das maiores empresas do mundo do setor de auditorias, consultoria e gestão estratégica, a figura dos consumidores multitarefas veio à tona. Analisando o comportamento de mais de 9 mil consumidores de mídias digitais espalhados por 9 países (Austrália, Brasil, Canadá, China, Alemanha, Singapura, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos da América), em cinco anos foi possível fazer três grandes constatações:

  1. Existe um apetite insaciável por mídia;
  2. Uma onda crescente de consumidores online pode acelerar as mudanças digitais; e
  3. Empresas de mídia e companhias de tecnologia devem cooperar com esse novo fenômeno.

Mais de 9 mil pessoas foram entrevistadas. (Fonte da imagem: Reprodução/InternetSafety)

Apesar de existirem serviços que integram, de alguma forma, as diversas plataformas de mídia (mobiles, notebooks, smart TVS e outros tantos dispositivos), é preciso que determinados esclarecimentos e sugestões sobre como se portar face a essa nova onda digital sejam realizados – companhias como Netflix e Spotify, ao vislumbrar esse cenário, têm provido possibilidades cada vez mais acessíveis à massa consumidora; esse apetite por informação digital tem criado oportunidades únicas às empresas de tecnologia.

Confira a seguir alguns detalhes acerca das três principais constatações feitas pelo estudo:

1 - Um apetite insaciável por mídia

Os consumidores gastam seu tempo entre plataformas de mídia tradicionais, conteúdo online e com novas tecnologias de comunicação. E, ao contrário do que se pode pensar em um primeiro momento, os novos meios não suprimem ou substituem por completo as plataformas antigas de mídia.

  • De acordo com o estudo, a maioria das pessoas ainda passa a maior parte do tempo desconectada. Entretanto, 70% dos entrevistados dizem acessar conteúdos digitais "de forma moderada"; mais da metade deles afirmam que "possuem um melhor acesso às mídias online".
  • No ano passado, mais tempo foi gasto com mídias online e mais consumidores foram angariados para cada tipo de mídia digital. Em contrapartida, algumas plataformas foram deixadas em segundo plano (como CDs, DVDs e certas plataformas de entretenimento).
  • A TV ainda é o meio de comunicação mais popular: poucos entrevistados preferem assistir à televisão em dispositivos móveis (em Singapura, 30% gostam de apreciar a obra televisiva via gadgets; nos EUA, 14% dizem usar os dispositivos móveis como tocador do sinal de TV). Além disso, o crescimento e aprimoramento dos serviços de TV via streaming e vídeo online têm conquistado cada vez mais usuários – o que deve "forçar" as companhias especializadas em mobiles a desenvolver novas formas de integração entre TV, smartphones e tablets.
  • As propagandas tradicionais podem entrar em crise: a televisão não é mais um meio de comunicação "frio". Hoje, os consumidores multitarefas assistem a seus programas favoritos interagindo com eles por meio de seus gadgets (26% das pessoas ouvidas pretendem adquirir tablets próprios; 53% delas intentam comprar smartphones).

De acordo com Paul Wissmann, chefe de mídia e telecomunicações da KPMG dos EUA, "a mudança para o `digital` tem gerado impactos dramáticos nas formas de consumo de músicas, notícias e publicações. Mas estamos ainda `engatinhando` por esse processo de transição para o `a qualquer hora/em qualquer lugar` por todos os setores das mídias".

A televisão é ainda o meio de comunicação dominante. (Fonte da imagem: Reprodução/3Seventy)

O executivo faz projeções e afirma que novas maneiras de tratamento aos consumidores pelas companhias de tecnologia deverão ser criadas. "Ao passo em que o consumo de mídias online é demandado, os conteúdos tradicionais precisarão transformar seus modelos de negócios enquanto mantêm os consumidores tentados a pagar preços que condizem com os modelos atuais [de distribuição de conteúdo digital]".

2 - A onda online pode acelerar as mudanças digitais

Os "consumidores de amanhã" vão passar a inserir conteúdo online por meio de tablets e smartphones. Atualmente, indícios dessa onda crescente de "usuários ativos" de gadgets demonstram que os consumidores multitarefas possuem uma forte preferência pelas novas mídias digitais.

A pesquisa apontou também que o conteúdo online postado por grande parte dos usuários (especialmente quando se analisa os mercados brasileiro e chinês) é upado, primeiramente, por meio de "centrais de mobiles". Essa é, inclusive, uma prática de mercado já há algum tempo em ascensão (levar o escritório para qualquer cômodo da casa, a qualquer hora) mundo afora.

Centrais de mobiles estão forjando, aos poucos, pequenos escritórios. (Fonte da imagem: Reprodução/TheJakartaPost)

“Muitos consumidores estão acessando suas mídias via smartphones, tablets ou laptops. Poucos deles querem imprimir o conteúdo; a navegação é feita ‘enquanto a informação ainda circula’ – o que está gerando uma explosão massiva dos mobiles”, conclui Ning Wright, chefe de tecnologia, mídia e telecomunicações da KPMG chinesa.

3 - Empresas devem acompanhar essa nova onda digital

Companhias de telecomunicação e de tecnologia precisam estar antenadas à ascensão dos consumidores multitarefas, uma vez que ambas as indústrias estão, como bem se sabe, amarradas uma à outra “pelo cordão umbilical” (uma vez que os produtos e serviços negociados por elas são oferecidos à mesma classe de consumidores).

Parcerias entre companhias de mídia e de tecnologia devem florescer. (Fonte da imagem: Reprodução/TheVerge)

“Se a ascensão dos mobiles nos ensinou algo, foi que a cooperação entre as indústrias múltiplas vai ser decisiva para o sucesso desse mercado. Organizações vão precisar cooperar mais entre si para que um mercado sem ‘proposições embaraçosas’ seja criado”, diz Graeme Ross, chefe da KPMG, sobre medidas que devem ser tomadas com o intuito de evitar a criação de um monopólio no setor dos dispositivos móveis.

Quem é o consumidor de conteúdo online atual?

“É aquele sempre logado, de olho em tudo o que rola no mundo virtual”. “Ledo engano se pensar assim”, diriam os pesquisadores responsáveis pelo estudo que serve como base deste texto. Fato é que o comportamento dos consumidores multitarefas é único; cada um deles possui suas próprias preferências – e as companhias produtoras de conteúdo têm tido certa dificuldade em enxergar o internauta como usuário dotado de exclusividades que, em alguns casos, fogem às projeções mais óbvias acerca do perfil genérico dos tais consumistas.

Ele é único, dotado de preferências e gostos particulares. (Fonte da imagem: Reprodução/TheNextWeb)

Assim, as empresas de tecnologia e companhias de comunicação precisam prover modelos de negociações digitais ainda mais dinâmicos – certos serviços oferecidos a partir da integração entre TV e internet não são suficientes para atender à demanda dessa nova e crescente onda de consumidores. Na opinião um tanto ácida de David Elms, chefe de mídia da KPMG do Reino Unido, “não estamos falando sobre o desenvolvimento de novas estratégias de marketing digital, mas sobre a criação de estratégias de conteúdo para expandir toda a mídia”.

Números

Para que todas as afirmações feitas até esta altura não fiquem desprovidas de suporte estatístico, dois gráficos vão ser apresentados a seguir. No primeiro, as atividades executadas em ambientes online e offline pelos entrevistados dos nove países serão mostradas.

Em seguida, duas outras relações vão ser exibidas: na primeira, pessoas que assistem TV enquanto acessam a internet; na segunda, usuários logados em uma rede social ao mesmo tempo em que assistem a algum programa de televisão. 

Gráfico 1

1.1: Atividades executadas online

(Fonte da imagem: Divulgação/KPMG)

A primeira linha, em roxo, mostra a porcentagem de pessoas de cada país que visita uma rede social, blog ou site. A linha seguinte, amarelada, publica a quantidade de pessoas que acessa informações sobre endereços e mapas online. Por fim, e em verde, as porcentagens evidenciam a quantidade de usuários que acessam notícias via internet.

1.2: Atividades executadas offline

(Fonte da imagem: Divulgação/KPMG)

Neste segundo gráfico (acima), a primeira linha, em vermelho, mostra quantas pessoas assistem à televisão nos 9 países. Em seguida, a quantidade de ouvintes de rádio é listada pela linha cor de vinho da figura. Por fim, em azul, publica-se quantas pessoas (sempre em porcentagem) leem jornais físicos, de papel.

Gráfico 2

2.1: Assistir à TV e acessar a internet via PC ou laptop ao mesmo tempo

(Fonte da imagem: Divulgação/KPMG)

Acima, a relação de pessoas que assistem à televisão e navegam pela internet ao mesmo tempo é mostrada.

2.2: Assistir à TV e ler jornal (físico, de papel)

(Fonte da imagem: Divulgação/KPMG)

Nesta figura, e em relação semelhante à listada pelo gráfico anterior, a quantidade de pessoas que assistem à TV e leem jornais fica em evidência.

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É certo que enfrentamos um fenômeno novo no campo da comunicação. Atualmente, aquela clássica e quase insuficiente divisão entre mídias “quentes, mornas e frias” sofre, se não de uma crise, ao menos uma mutação. Pôde-se perceber que, ao contrário do que se pode pensar em primeira impressão, cada internauta possui modos de comportamento e preferências únicas quando o assunto é “consumo de conteúdo online”.

E você, o que achou desta pesquisa? Podemos esperar para os próximos anos uma integração completa entre todos os dispositivos digitais que leva em consideração, sobretudo, as preferências de cada consumidor multitarefa?

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