Recentemente, pudemos acompanhar o lançamento de algumas novas placas de vídeo que deixaram o mundo todo impressionado, prometendo levar os jogadores para novas realidades.

Essas promessas não são diferentes das que vimos em outros anos, já que as fabricantes desse segmento sempre foram muito boas com palavras que levam o jogador a imaginar uma coisa, quando, na prática, ele vai obter outra.

Com números mágicos que incluem taxas de frames elevadas, frases marcantes como “a era da resolução 4K chegou” e palavras como “desempenho irresponsável”, os anúncios mais recentes levaram os gamers novamente a sonhar com uma performance que ainda não se viu em computadores.

NVIDIA deu a largada com duas monstras (a GTX 1080 e a GTX 1070) que prometem revolução em termos de qualidade gráfica, bem como na questão do consumo energético, graças a sua nova arquitetura inusitada, que se mostra revolucionária em vários sentidos.

Algum tempo depois, a Radeon também apresentou suas cartadas, com destaque para uma placa (a RX 480) com preço muito camarada que promete ser a porta de entrada para a realidade virtual, graças a suas novas tecnologias que prometem alto desempenho com baixo consumo.

Todavia, olhando de forma mais detalhada para os novos produtos, podemos perceber que as duas marcas parecem disputar de forma diferente. Tal posicionamento de cada fabricante é notável principalmente quando analisamos as categorias de cada produto.

Enquanto a GeForce GTX 1080 chega com poder absurdo e preço nas alturas, a RX 480 vem com valor tentador e poder suficiente para entregar experiência satisfatória. Afinal, o que está acontecendo nesse mercado? As duas gigantes resolveram focar em diferentes problemas? Neste artigo, vamos debater um pouco sobre os rumos dessa guerra.

Como funciona o mercado?

É preciso entender que as duas companhias disputam o mercado de forma distinta. Isso acontece em qualquer segmento do mundo. Ainda que estejamos falando de um mesmo tipo de consumidor, cada empresa tem seus produtos, suas estratégias, e elas nem sempre estão em posições similares.

No caso da AMD e da NVIDIA, considerando as marcas em suas grandezas, podemos verificar que ambas possuem portfólios variados, com produtos bem diferentes – a NVIDIA, por exemplo, foca em chips para dispositivos portáteis (como celulares e tablets), enquanto a AMD é a segunda maior fabricante de processadores (CPUs) para desktops.

Apesar de serem concorrentes, AMD e NVIDIA possuem portfólios variados, com produtos bem diferentes

Só essa questão supracitada já seria suficiente para verificarmos que elas possuem diferentes prioridades. Todavia, até quando falamos especificamente do mercado GPUs, podemos conferir que, vez ou outra, uma toma decisões específicas – às vezes, para tentar conseguir uma fatia maior nas vendas – que não vemos por parte da outra.

Por conta de diversos fatores — que incluem desde novas tecnologias até o lançamento dessas embutidas em novos produtos —, vimos as duas companhias mudando suas estratégias. Em determinada época, uma estava na frente em vendas, por isso podia apostar mais em alta performance, sem se importar com o volume. Contudo, o jogo sempre pode virar, e aí vemos a dança das cadeiras.

Como toda companhia, ambas buscam vender o máximo de produtos, visando ao lucro e levando cada vez mais inovação ao consumidor. É como um ciclo sem fim: melhores produtos levam a mais vendas, que levam a mais lucro, que garantem o desenvolvimento de melhores tecnologias, que geram melhores produtos, com mais vendas, mais lucro…

Assim, as duas fabricantes jogam de forma inteligente, observando sempre quais táticas dão certo, quais produtos estão vendendo bem, quais recursos mais interessam aos jogadores e até mesmo de que forma é possível chamar mais a atenção. No fim, cada ação de marketing, toda nova tecnologia, parcerias diferenciadas e até brindes fazem a diferença.

Mesmo sem lançamentos, as vendas podem aumentar com o reajustes de preços — e isso vale para os dois lados

O mercado de placas de vídeo apresenta variações constantemente, já que depende de uma série de fatores. Por exemplo: o lançamento de uma determinada placa de vídeo, vamos supor que fosse da NVIDIA, pode impulsionar as vendas da marca. Entretanto, em determinados mercados, pode ser que os números não subam, já que o comércio depende do dólar.

Em outras localidades, mesmo sem qualquer lançamento por parte de uma marca, supondo que estivéssemos falando da AMD, as vendas podem aumentar pelo simples fato de as lojas reajustarem os preços de forma que os valores caibam nos bolsos dos consumidores. Entretanto, os números também podem baixar por conta do lançamento da concorrente.

Como estão as vendas?

Bom, dito tudo isso, a gente chega ao atual estado do mercado de placas de vídeo. De um lado, temos a AMD com produtos revolucionários como a Radeon Fury X, a R9 Nano (talvez o projeto mais inovador da marca) e outras tantas opções que a colocam como uma excelente concorrente. Há modelos com preços para todos os gostos.

Do outro, temos a NVIDIA com um grande favoritismo por parte dos consumidores, algo comprovado pela maioria dos gamers no Steam que adotaram a GTX 970 como sua placa para jogos. A marca conta com uma série de modelos impressionantes, como a GTX 980 Ti, a GTX TITAN X e, mais recentemente, lançamentos como a GTX 1080 e a GTX 1070. A fabricante das GeForces também tem opções com valores para todos os bolsos.

O market share  indica que a situação tem sido preocupante para a AMD, que tem 23% das vendas em desktop

A disputa é acirrada, mas o market share (número que revela a participação das companhias no mercado) indica que a situação tem sido bem mais preocupante para a AMD. A empresa que, em outros tempos, já representou muito perigo para a NVIDIA, se vê ameaçada com a concorrente dominando com folga nas vendas.

No quarto trimestre fiscal do ano passado, a AMD tinha apenas 20% do market share de placas de vídeo para desktops, o que significa que a NVIDIA tinha quase 80% das vendas. Quanto ao mercado de chips gráficos para notebooks, a AMD forneceu componentes para 31% dos dispositivos, de modo que a NVIDIA estava em quase 70% dos produtos.

Agora, no começo de 2016, a NVIDIA tinha 77% — uma queda de apenas 3% — do mercado de placas de vídeo para desktop, enquanto a AMD corria atrás com quase 23% das vendas — tomando o percentual da concorrente. No setor de notebooks, a NVIDIA também viu as vendas reduzirem para 61% — decréscimo de quase 8% —, de modo que a AMD tinha aproximadamente 39% — mostrando bom crescimento.

Apesar de os números jogarem a favor da NVIDIA, os resultados recentes comprovam que a AMD pode ter uma reviravolta se fizer as jogadas certas. É claro que nem sempre é fácil prever o comportamento do consumidor e as variantes do mercado; porém, pode ser que, num futuro breve, as duas empresas disputem de forma mais semelhante nesses segmentos.

NVIDIA aposta em marketing e alto desempenho

A atual situação da NVIDIA possibilita que ela mantenha a estratégia que vem adotando nos últimos anos. Funciona mais ou menos assim. Em um período que pode levar até dois ou três anos, a fabricante desenvolve novas arquiteturas que serão utilizadas no futuro, ou seja, uma placa lançada em 2016 começou, na verdade, a ser planejada lá em 2013.

Esse longo período de desenvolvimento garante que a empresa tenha tempo de planejar cuidadosamente cada detalhe do produto. Paralelamente, a companhia acompanha os movimentos da concorrente, realizando mudanças em seu planejamento caso veja a necessidade de levar uma tecnologia mais inovadora ao consumidor.

A NVIDIA segue um cronograma inteligente e libera produtos robustos para quem busca o máximo em desempenho

Com todo esse projeto de longa duração e levando em conta a grande quantidade de verba, a NVIDIA pode, paralelamente a cada movimento, preparar estratégias de marketing para garantir que o consumidor saiba de todo o processo de desenvolvimento e entenda quais benefícios ele terá com um determinado produto.

Além dessa estratégia, a NVIDIA, aproveitando sua verba e equipe de especialistas, faz parcerias com vários estúdios para melhorar o desempenho dos games em seus produtos. Resultado: o jogador sempre obtém uma boa experiência com os itens da marca.

Assim, todos os anos (ou quase todos), a NVIDIA segue um cronograma bem inteligente e libera novos produtos para o consumidor que busca o máximo em desempenho. No início do ano, a marca costuma lançar uma placa top de linha (geralmente da série 80, como a GTX 980).

Depois, ela libera uma derivada, ainda de alta performance, como a GTX 970. Na sequência, a marca solta uma intermediária, como a GTX 960. Por fim, vem a mais básica, que é da série 50, como a GTX 950. Nesse meio-tempo, a marca pode lançar outras placas, inclusive modelos mais robustos, como a GTX 980 Ti e a GTX TITAN X.

A GTX 1080 é uma top de linha, que tem preço elevado, mas que leva o melhor desempenho para o jogador

Neste ano, a companhia não agiu diferente e começou o ano com um grande lançamento: a GeForce GTX 1080. A placa em questão é uma top de linha que traz a arquitetura Pascal, levou um bom tempo para ficar pronta e custou bilhões de dólares. Ela é o que há de mais robusto no mercado, sendo o exemplo do poder da NVIDIA para o mundo.

Em seguida, pudemos conhecer a GTX 1070, que chega com promessas de vender muito (tal como foi com a GTX 970) ao levar altíssimo desempenho com preço acessível. No futuro, devemos ter a GTX 1060 (talvez a concorrente da RX 480, da Radeon) e a GTX 1050.

AMD visa ao grande volume com produtos econômicos

Ao longo dos últimos anos, percebemos que a AMD seguiu um cronograma muito parecido com o da NVIDIA. A marca responsável pelas placas Radeon também trabalha durante anos no desenvolvimento de suas arquiteturas e acompanha os movimentos do mercado para planejar seus produtos.

O mesmo esquema de lançamento com produtos mais robustos no começo do ano e derivados (com GPUs intermediárias e mais básicas) ao longo dos meses é notável na forma de trabalho da AMD. Só que, de uns tempos para cá, a companhia mudou um pouco as estratégias, tanto que a Radeon Fury X saiu um pouco depois da GTX 980 Ti.

A AMD agora quer recuperar market share, por isso ela está focando num público muito maior

Paralelamente à redução de market share, a AMD se viu obrigada a mudar seu sistema de negócios e criou o Radeon Software Group, que se dedica exclusivamente às placas de vídeo. Com essa reestruturação, a marca pretende levar mais inovação ao consumidor, sem ter que necessariamente apresentar uma placa tão poderosa todos os anos.

A mudança é notável já neste ano, quando, em vez de trazer a tão prometida Vega com HBM2, a marca resolveu apostar em uma placa de vídeo mais econômica e eficiente: a Polaris. Conhecida hoje como Radeon RX 480, a fabricante pretende levá-la a um público muito maior, que está sedento para experimentar a realidade virtual.

Por apenas 200 dólares, o jogador pode adquirir uma placa que dá conta do recado em Full HD e que vem com tecnologias prontas para o futuro. A ideia da AMD agora é recuperar o market share, por isso a companhia está focando num público muito maior.

De todos os jogadores no mundo, apenas uma pequena porcentagem (algo entre 10 e 15%) pode comprar uma placa como a GTX 1080. Assim, a AMD foca nos 85% que querem ter alta qualidade, mas não contam com tanta grana para isso. A RX 480 vem para ser essa placa e muda completamente a forma como a fabricante trabalha no mercado de chips gráficos.

Por 200 dólares, o jogador pode ter uma placa pronta para a Realidade Virtual e para o futuro

Junto com essa placa, a AMD vai lançar a RX 470 e a RX 460, que vão ser ainda mais baratas e oferecer níveis de performance diferenciados para consumidores que querem jogar sem gastar muita energia. Inclusive, esses chips devem ser levados para notebooks, o que pode aumentar a representatividade da Radeon em outro segmento.

Como vai acabar essa guerra?

Na verdade, a guerra das placas de vídeo não deve acabar tão cedo — aliás, talvez nunca. Ainda que a AMD esteja com algumas dificuldades para recuperar mercado, a marca tem muita representatividade nos desktops. Mesmo que 20% pareça algo preocupante, esse número ainda é suficiente para continuar representando alguma concorrência para a NVIDIA.

Não só isso. A AMD também é sinal de preocupação por trazer novas tecnologias acessíveis ao consumidor. A marca desenvolveu, ao longo dos últimos anos, novidades como o Mantle, o FreeSync e o HBM, todas acessíveis a uma parcela menor de jogadores, mas padrões que estão revolucionando o mercado.

É importante notar ainda que, do ponto de vista de tecnologia, a AMD não deve em nada aos concorrentes, uma vez que tem grandes parcerias e domina no segmento dos consoles. Claro, a marca tem se mostrado muito preocupada com tudo isso, tanto que vem se coçando para desenvolver novos produtos que agradem aos gamers, mas ela está bem viva.

Obviamente, não estamos desmerecendo a NVIDIA. A marca GeForce está onde está porque leva altíssima tecnologia ao jogador, que vê muitas vantagens nos produtos e acaba apostando nos dispositivos da fabricante. Todavia, como estamos falando de uma guerra, a companhia precisa continuar atenta para não perder market share nem o interesse do consumidor.

No fim das contas, a guerra de placas de vídeo está um pouco diferente neste ano. As armas são um tanto distintas, as táticas podem ter algumas alterações, mas os protagonistas são os mesmos. Ainda bem que temos essa concorrência, pois somente com inovação dos dois lados podemos ter melhores perspectivas para o futuro dos games.

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