A Baleia: filme do Oscar é bom ou só ganha destaque por Brendan Fraser?

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Lançado no dia 23 de fevereiro no Brasil, A Baleia (The Whale), dirigido por Darren Aronofsky e roteirizado por Samuel D. Hunter, marcou a volta de Brendan Fraser, astro de A Múmia (1999) e Endiabrado (2000), ao cinema depois de muitos anos afastado das telonas. O ator, inclusive, foi indicado ao Oscar 2023 na categoria de Melhor Ator por sua atuação na obra, que foi produzida pela badalada produtora A24.

Em A Baleia, Fraser interpreta um professor com obesidade severa que, ao perceber que sua saúde está se deteriorando cada vez mais, tenta se reconectar com sua filha adolescente Ellie (Sadie Sink), que guarda muito remorso do pai, uma vez que este a abandonou ainda criança para viver um romance com um de seus estudantes.


Mas será que A Baleia é bom, afinal? Vale a pena assistir ao filme, que coleciona polêmicas desde antes de sua estreia oficial? Abaixo, você confere uma análise narrativa e crítica de The Whale!

A Baleia: análise narrativa e crítica (COM SPOILERS)

Inconstância. Essa é a palavra que me veio à mente após assistir A Baleia. A impressão que ficou comigo é a de que o filme de Aronofsky não é de todo bom, tampouco de todo ruim, e oscila com certa frequência entre momentos interessante e outros um tanto quanto desnecessários. E isso acontece desde o início da projeção, passando pelas escolhas estéticas (que reforçam muito as ideias narrativas) feitas pela direção, pela forma como o protagonista Charlie é retratado até as dinâmicas narrativas e de personagens.

O que é bom em A Baleia?

Mas vamos por partes. Começando pelos bons momentos de A Baleia: o grande ponto alto do filme, sem dúvida, é a ótima atuação de Brendan Fraser, que há tempos não dava as caras no cinema. Ao longo do projeto, o ator confere uma sutileza muito grande a Charlie, o que desperta empatia no público, que consegue perceber o quão gentil e afável é o homem. Sem que notemos completamente, abraçamos a história do personagem e passamos a nos importar e torcer por ele (mesmo sabendo de seu passado conturbado), algo que se deve muito ao belo trabalho realizado por Fraser.

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Agora, já entrando na narrativa, o maior destaque fica para o famigerado ensaio que Charlie declara (ou pede para que outra pessoa o faça) sempre que acha que vai morrer. A princípio, a trama não deixa claro se o texto é de autoria de Charlie, de algum escritor famoso ou coisa do tipo. Apenas sabemos que ele é extremamente importante para o protagonista, que parece se enxergar nele de alguma forma.

Mais tarde, no terceiro ato de A Baleia, descobrimos, em uma passagem carregada de emoções, que o ensaio foi escrito por Ellie, sua filha, quando ela ainda era criança. Isso cria uma espécie de círculo completo na narrativa (já que o ensaio aparece no começo, durante e no fim da obra) e constitui um detalhe sensível e terno que consegue, de fato, emocionar.

Ellie é o grande afeto da vida de Charlie, porém, a garota não corresponde às aproximações do pai.Ellie é o grande afeto da vida de Charlie, porém, a garota não corresponde às aproximações do pai.Fonte:  A24 

Por fim, ressalto também a escolha de manter a casa de Charlie como único cenário de The Whale, fazendo alusão à peça de teatro, escrita por Samuel D. Hunter, na qual o filme de Aronofsky é baseado. Assim como acontece nos palcos, Charlie permanece em seu lar durante todo o filme, interagindo com os demais personagens que o visitam. Opção que funciona, visto que a narrativa até que flui bem ao longo de suas quase duas horas de duração, e que dá aquela tímida piscadela para a criação original de Hunter.

O que é ruim em A Baleia?

Apesar desses bons momentos e escolhas, A Baleia peca em diversos outros quesitos e, infelizmente (ou não), seus lados ruins acabam ofuscando aquilo que poderia tornar a obra mais interessante ou memorável. Primeiramente, preciso citar a forma rasa e unilateral com a qual o roteiro retrata Charlie: um homem triste, afundado em seus próprios problemas, que pede perdão para tudo e para todos (mesmo não precisando), que causa sustos em quem o vê e que não consegue se reerguer.

É como se a própria produção do longa não gostasse de seu protagonista e não se esforçasse nem sequer um pouquinho para mostrar que Charlie tem muito mais para oferecer do que um enorme punhado de tristeza e infelicidade. Nesse sentido, a atuação de Fraser realmente é o que salva o personagem que, apesar de tudo, ainda consegue exprimir simpatia (não graças ao roteiro).


Pior do que isso, o roteiro de Hunter parece, por vezes, querer reforçar a ideia de que, além de irremediável, Charlie seria uma criatura repugnante cujo fim soturno é inevitável. Por exemplo, você se lembra de quando falei das escolhas estéticas da direção de A Baleia? Pois então, analisemo-las. Além de uma fotografia mais escura e descolorida, o que já transmite uma sensação mais melancólica à narrativa, o projeto ambienta Charlie em um casa um tanto quanto velha, desorganizada, mal iluminada e pequena. É como se o local fosse uma caverna reclusa, abandonada e claustrofóbica na qual vive algum tipo de monstro, que está sempre perambulando pelas sombras (pense em quantas vezes vemos Charlie sentado no escuro, sem enxergá-lo bem).


Para piorar um pouco mais a situação, a produção deu vida a sequências e passagens que reforçam ainda mais seu aparente desprezo por seu próprio protagonista. Qual seria a função narrativa da cena em que Ellie (que parece personificar o citado desprezo) "obriga" o pai a levantar e caminhar até ela, por exemplo, se não a de uma humilhação gratuita e desnecessária? Ou do corte em que a melhor (e única) amiga de Charlie, Liz, pede para que ele mastigue a comida "igual gente", mesmo sabendo que sua compulsão é uma doença, reforçando novamente a ideia de que Charlie é uma criatura? Talvez, Aronofsky tenha pensado que as cenas adicionariam à carga dramática da história ou ao arco de Charlie, mas, no fim das contas, não foi isso o que pareceu.

Por falar em equívocos, no meio disso tudo, a narrativa também aborda uma questão religiosa, a qual tenta tratar com mais profundidade, mas falha miseravelmente, tecendo críticas superficiais, que já foram trabalhadas em diversas outras obras, e que parecem um tanto quanto perdidas no meio da trama principal, cujo foco é a relação entre Charlie e Ellie. Novamente, é possível enxergar as intenções de Aronofsky com o tema, todavia, as pretensões do diretor não atingem seus alvos e não contribuem muito para o resultado final de A Baleia.

Em suma, A Baleia até conta com momentos promissores, mas seus pontos negativos, especialmente em relação ao seu próprio protagonsita, minam a experiência proporcionada pela narrativa, que poderia ter feito muito mais do que acabou fazendo.

Fontes

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