Novelas e séries: quais são as diferenças entre elas?

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Para começar esta conversa, convido você, leitor, a pensar em dois produtos televisivos que se tornaram verdadeiros fenômenos – o primeiro no contexto brasileiro, o segundo em âmbito mundial.

Em março, a Globo estreou o seu remake da novela Pantanal, um grande sucesso exibido em sua primeira versão na finada rede Manchete em 1990. Quem já tinha idade suficiente para acompanhar novelas nesta época sabe: Pantanal mobilizou os brasileiros que acompanharam os 216 episódios da trama que envolvia José Leôncio, Juma, Jove, Madeleine e tantos outros personagens marcantes.

Ao retornar à TV, 32 anos depois, a novela tem se mostrado mais uma vez um grande evento da mídia, fazendo com que muita gente acompanhe (muitos pela primeira vez) esta novela. No entanto, há algo essencialmente diferente da versão original: o fato de que os hábitos de consumo de entretenimento mudaram muito em três décadas.

Pulo agora para o segundo exemplo. Em maio, encerrou-se o seriado This is Us, narrativa da NBC que foi produzida entre 2016 e 2022, em seis temporadas que totalizaram 106 capítulos. Milhares de pessoas espalhadas pelo globo se comoveram com a tocante trama da família Pearson, que se desdobra a partir do nascimento dos filhos de Jack e Rebecca: os gêmeos Kevin e Kate, e o irmão Randall, adotado no mesmo dia.

A série também é um sucesso estrondoso, em uma escala muito maior que Pantanal. E não foram poucas as pessoas que mencionaram que This is Us, na verdade, seria uma grande novela. Mas será que esse comentário faz sentido? Afinal, o que faz uma narrativa seriada ser uma novela ou uma série? E por que depois de tantos anos com séries muito sofisticadas, nós seguindo acompanhando telenovelas?

Aspectos estruturais das novelas e séries

(Fonte: NBC)(Fonte: NBC)Fonte:  NBC 

A forma mais fácil de responder a este questionamento é voltar-se à questão da duração destes produtos. Ou seja: novelas televisivas tendem a ser muito mais longas que séries. Um exemplo: a novela Um lugar ao sol, exibida entre 2021 e 2022 no horário das 21h pela Globo, foi anunciada como curtíssima, uma vez que teria inicialmente 100 episódios – praticamente toda a duração de This is Us em 6 anos.

A outra característica tem a ver com a forma que essa história é contada. Enquanto as telenovelas são levadas ao público de uma vez só, as séries televisivas são apresentadas em temporadas que se repetem – na forma mais usual – a cada ano. Na maior parte das vezes, os episódios das séries são entregues juntos aos espectadores, proporcionando a experiência de maratonar – ou, na expressão usada em outros países, de fazer binge watching, ver tudo de uma vez.

Isto vai significar mudanças estruturais em um escopo mais amplo: a temporada de uma série precisará recapitular, em seu retorno, o que ocorreu pelo menos na temporada anterior, de modo a não desinteressar o espectador. Da mesma forma, ela precisa se encerrar de uma maneira surpreendente e que deixe um suspense no ar pela volta da história no ano seguinte: o famoso cliffhanger.

Já as novelas também trazem esse gancho, mas ele costuma ser mais enfatizado de episódio a episódio. Ou seja, as telenovelas costumam criar narrativas isoladas que se encerram de uma forma que o público fique motivado para voltar no dia seguinte. Diferente de uma série, a audiência não tem (pelo menos em teoria, já que hoje em dia há plataformas de streaming que oferecem novelas) como ver o episódio se não for na própria TV, no horário em que ele é exibido.

Novelas e séries por uma perspectiva sócio-econômica

(Fonte: Globo)(Fonte: Globo)Fonte:  Globo 

Outra forma de olhar as diferenças entre os dois gêneros é de uma maneira menos evidente: observando sobre o que eles nos falam em relação aos contextos sociais e mesmo econômicos dos públicos aos quais se direcionam.

Uma informação relevante aqui é que as telenovelas têm uma forte importância histórica aqui no Brasil, e remetem a raízes bem antigas. Elas não surgem originalmente na TV: as telenovelas são as “netas” dos folhetins, que eram narrativas literárias surgidas nos jornais franceses do século XIX. O intuito do folhetim era cativar o público (especialmente o feminino) para a venda diária destes jornais.

Por conta disso, as histórias contadas nos folhetins costumavam ser bastante dramáticas. Além disso, elas se encerravam todo dia deixando algo no ar (sim, você captou: havia nelas um cliffhanger). O objetivo, é claro, era que o leitor comprasse novamente o jornal no dia seguinte. Não por acaso, folhetim se tornou um sinônimo de telenovela no Brasil.

Outra raiz histórica das novelas televisivas é o chamado melodrama, que remete originalmente a montagens teatrais feitas para um grande público e que misturavam música e som (o “melos”) e histórias dramáticas (o “drama”). O melodrama era um tipo de espetáculo que precisava se caracterizar pela sua fácil compreensão, já que seria exibido para todo mundo, e não apenas para as elites.

Tudo que se mostrava ali precisava ser muito visível: o drama precisava ser muito dramático, os sentimentos dos personagens precisavam ser evidenciados por muita clareza pelos atores, as histórias contadas precisavam mexer com temas recorrentes na literatura popular (como amor, traição, perdas, lutos, roubos, etc.).

Ou seja, há uma chave importante aqui em entender o que é o melodrama, para por fim compreender por que as novelas são essencialmente melodramáticas. E a resposta é: porque elas necessitam ser acessadas e entendidas por um público muito diverso. As novelas são feitas para as pessoas pobres e ricas, sofisticadas e simples, letradas e pouco alfabetizadas.

Por conta disso, é esperado que uma telenovela seja relativamente exagerada: os personagens precisam ser pouco sutis. Precisam ser muito maus, ou muito bons. E ela precisa remeter o tempo todo a sentimentos fundamentais dos seres humanos, como a dificuldade na relação entre pai e filho, a dor da perda do amor, as noções de lealdade e traição. Se você estiver assistindo a Pantanal, sabe que estes temas estão todos lá.

This is Us é um novelão?

(Fonte: NBC)(Fonte: NBC)Fonte:  NBC 

Por fim, vale voltar à questão que abre o texto: será que é injusto compreender This is Us como uma grande novela? Minha opinião é que sim, This is Us trazia muitos elementos que, como já vimos, são típicos do folhetim e do melodrama.

A história contada da narrativa da NBC, por mais que tirasse vantagem de recursos avançados mais típicos das séries (como a cronologia recortada, misturando os tempos pelos quais a história era contada), baseava-se nos sentimentos mais básicos da vida humana: o amor, a rejeição, o conflito, o luto, entre vários outros.

Não por acaso, This is Us ficou conhecida como uma série que nos fazia chorar o tempo todo. E se era capaz de causar este sentimento em tanta gente, é porque havia algo de muito democrático nesta premiada série. Assim como acontece com as telenovelas.

E caso pareça ofensivo chamar This is Us como “um grande novelão”, vale a pena refletir: talvez essa crítica ao "espetáculo do povo" esconda uma espécie de preconceito de classe. Pense sobre isso.