A gente vai atender a um pedido da galera no capítulo da semana da nossa série de história da tecnologia. Vamos falar da Gradiente, uma marca nacional que tá na memória do brasileiro, que tem muita história pra contar e merece ser valorizada.

Você vai ficar sabendo como ela surgiu, os lançamentos em games, o Iphone dela e todos os altos e baixos — sendo que um "baixo" é atualmente a fase dessa companhia.

O começo de tudo

A Gradiente foi fundada em outubro de 1964, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Ela já mostrava potencial quando lançou em 65 um dos primeiros amplificadores do Brasil. Em 1970 e ainda uma pequena loja e fabricante de eletrônicos, a Gradiente é comprada pelo empresário Émile Staub. Logo em seguida, quem assume o comando é o filho dele, Eugênio Staub, já atuando ao lado dos cofundadores originais, Nelson Bastos e Alberto Salvatore.

Eugênio Staub.Eugênio Staub.

Em 1972, ela começa com ações que serão bem comuns daqui pra frente: comprar e se aliar a outras marcas. Nesse caso, foi uma parceria com a JVC e a compra da Selectrix, empresa da área de transmissão de TV.

Se aproveitando da situação

Na segunda metade dos anos 70, a Gradiente vive um bom momento por conta da política de protecionismo e proibição de importação de eletrônicos estrangeiros no Brasil. É a chamada lei de reserva de mercado imposta pela ditadura militar em produtos de informática. Ela era boa? Mais ou menos.

Por um lado, ficamos atrasados em anos no setor e deixamos de receber vários produtos. Por outro, fez empresas nacionais ficarem gigantes, como a Gradiente. Só que várias delas, quando a reserva de mercado acabou, não conseguiram se sustentar.

Nessa época que a empresa se muda pra ainda nova Zona Franca de Manaus, onde fábricas brasileiras tinham incentivos fiscais.

A expansão andava a todo vapor e, em 75 ela até abre uma subsidiária no México e mantém ela por 13 anos. Já em 79, a Gradiente vai às compras e adquire duas marcas. A primeira é a tradicional inglesa Garrard, especializada em toca-discos e aparelhos de som, para exportar e fortalecer o nome. Mas a aquisição deu bem errado.

Um toca-discos.Um dos toca-discos da Gradiente com a Garrard.

Em 82, ela fechou a planta da Garrard na Inglaterra pelos altos custos e passou a produzir tudo no Brasil. Em 97, ela revendeu a marca para a também inglesa Loricraft Audio, em um negócio que fez a Gradiente perder 18 milhões de dólares.

A era dos video-games

A segunda marca é a Polyvox, que tinha como engenheiro o Alberto Salvatore e era concorrente direta da Gradiente. Com a nova dona, ela fez sistemas 3 em 1 e radio gravadores. Mas claro que o principal produto dela foi mesmo o console Atari 2600, licenciado pela Warner em 1983. O mercado de games no Brasil ainda era bem jovem, e trazer o Atari foi um ótimo acerto. O país já tava cheio de clones de outras marcas e Ataris importados mas o selo de original transformou o console em sensação. Foi o primeiro console de muitos brasileiros.

Uma caixa de Atari.

Só que a marca Polyvox enfraqueceu com o tempo e a Gradiente começou a abandonar ela na década de 90 até deixar de usar ela de vez. Tem muita gente que diz que esse foi um dos grandes erros que vão cobrar seu preço mais pra frente. Pra saber mais sobre toda essa época dos games, a gente recomenda o excelente documentário 1983 o ano dos videogames no Brasil da galera da zeroquatromedia.

Em 89, a Gradiente volta a investir em games com o Phantom System. O console era o mais famoso clone brasileiro do Nintendinho e vendeu muito bem, inclusive com a fabricação de cartuchos piratas.

Um Phantom SystemO lendário clone do NES.

Ela volta a cruzar caminhos com a Nintendo só em 93, mas agora legalizada. Em uma parceria com a fabricante de brinquedos Estrela chamada Playtronic, ela lança oficialmente no Brasil consoles e cartuchos da marca japonesa.

Na lista estão o Nintendinho, o Game Boy, o super Nintendo e o Nintendo 64. Três anos depois, a Gradiente compra a parte da Playtronic que pertencia à Estrela e transforma a marca em Gradiente Entertainment. O fim do casamento com a Nintendo é em 2003, por alta taxa de impostos e pirataria.

A primeira em quase tudo

Mas vamos voltar no tempo pra 79, quando ela lança também o primeiro telefone de padrão brasileiro. Ela começa também a comercialização dos systems. Ele são aparelhos receiver, toca-discos, toca-fita e com duas caixas acústicas em um só produto.

Em 1985, a Gradiente entra no mercado de computadores com o Expert. Ele tinha 80 Kbytes de RAM, um processador principal e dois auxiliares pra áudio e vídeo e a plataforma MSX. Ela é da Microsoft e ficou bastante famosa no Japão, tendo também um grande foco em games. A fabricação do Expert original durou até 1990, mas ele chegou até a receber uma versão Plus.

Um computador MSX.

Tem mais compra por aí. Em 89, ela adquire a filial brasileira da clássica alemã Telefunken e começa a lançar uma linha de TVs no país. Já em 1990, vem a primeira TV de tela grande do país. O quanto era grande nessa época? Acima de 29 polegadas!

A Gradiente foi tão importante pro mercado brasileiro que a foi a primeira a lançar e fabricar também os seguintes produtos por aqui. O CD Player, em 84. O DVD Player, em 98. O MP3 Player, em 99. O DVDokê, que fez muito sucesso em festinhas de aniversário, em 2001. E a primeira HDTV, em 2006.
Em 93, o mercado de celulares começava a crescer em todo o mundo e as possibilidades de investir nisso no Brasil chama a atenção de uma gigante que já teve a história contada por aqui: a finlandesa Nokia.

Ela então faz uma parceria nesse ano com a Gradiente, que tinha a marca, mas não a tecnologia pra produzir. Nesse mesmo ano, sai o primeiro celular analógico fabricado no Brasil. E deu muito certo, com a Nokia virando líder de mercado em poucos anos e até criando em 97 uma joint-venture pra gerenciar essa aliança, a NGI, que significa Nokia Gradiente Industrial. Foi nesse ano que saiu o primeiro celular digital feito aqui.

A amizade foi desfeita em 2000. A Nokia compra a outra parte da NGI por 415 milhões de dólares pra fazer carreira solo em celulares, mas ainda com lançamentos conjuntos. Em 96, ela dá outro passo importante no país com o Digital Homesat, o kit de recepção e decodificação pra receber o sinal de TVs por assinatura via satélite.

Montanha-russa de emoções

Para você ver o sucesso dela na época, o faturamento ultrapassou 1 bilhão de reais em 98, muito por causa dos celulares. Só que os altos e baixos ficam ainda mais evidentes. Na década de 90, as más notícias começam a aparecer. No começo da década, nem parecia que ia dar tão certo: ela teve que fazer uma reestruturação, fechar algumas fábricas e demitir funcionários.

Ela sai da lista Interbrand de dez marcas mais valorizadas do país em 2003, mas é considerada líder no segmento de eletroeletrônicos no Brasil em 2005 pela Forbes. Por outro lado, o faturamento em 2006 é de 1,4 bilhão de reais.

Aliás, logo em 2005 ela cometeu um grande erro corporativo. Ela adquire a Philco da Itautec especialmente pelos televisores e, com nada dando certo, revende ela dois anos depois para a Britânia por quase um terço do preço. A Gradiente então sai do mercado de TVs.

A grave crise econômica tem o pico em 2007. A dívida era de 400 milhões de reais, fruto de prejuízos em alguns mercados, compras de marcas de que deram errado e forte concorrência das multinacionais. Em recuperação extrajudicial, a empresa se licencia do mercado e precisa até responder alguns processos.

O retorno é só a partir de 2011, agora o nome IGB Eletrônica, mantendo a marca Gradiente para os produtos. Quem controla a maior parte das ações é a Companhia Brasileira de Tecnologia Digital, fundada pelo próprio Eugenio Staub e vários acionistas e funcionários.

O iPhone é de quem?

Aí vem a história do iPhone da Gradiente. A confusão começa no ano 2000, quando ela registra o nome Internet Phone, abreviado para Iphone com "i" maiúsculo. Saiu então o primeiro Iphone dela, com acesso à rede e outras funções de um celular da época. Só que o registro no nome no INPI, que é o instituto nacional de patentes, foi confirmado apenas OITO anos depois, quando o smartphone da Apple chegou ao Brasil, e bem no meio da crise da marca nacional.

Em 2012, a Gradiente resolveu reviver a marca, e aí começou a briga: os gringos queriam a exclusividade do nome, e a brasileira alegava que tinha registrado antes. A decisão judicial foi para a Apple, e o iPhone continuou circulando normalmente por aqui. Atualmente, o caso ainda não acabou, e está no Superior Tribunal de Justiça.

Um celular.

Mas e esse iPhone C600 é tudo isso? A própria Gradiente confessa que ele não é tão poderoso quanto o da Apple, mas tinha dois chips como diferencial. Na análise do TecMundo, mostramos que ele era só razoável e tinha alternativas melhores no mercado.

Confusões e amizades

Essa não foi a única história da Gradiente com marcas iguais. Ele comprou de uma empresa pernambucana chamada Lismar no fim dos anos 90 o registro nacional do nome PlayStation. Ele viraria uma linha de PCs, mas logo a Sony se interessou na licença pra lançar os consoles no Brasil. O acordo foi feito em 2002 por valores não divulgados. Nesse ano, saiu o Gradiente Oz Work & PlaySolution, um tudo-em-um que era PC, DVD player e aparelho de som.

A Gradiente sempre fez parcerias com outras fabricantes, para usar certas tecnologias em seus produtos. Dá para citar a JVC nos videocassetes e amplificadores, as câmeras de vídeo da Sony e componentes da Yamaha e Pioneer pra toca-discos e CD players.

Um tablet.

Outra boa amizade veio em 2014, com o tablet Tegra Note 7, com foco gamer e processador da NVIDIA. Ele foi bem elogiado pelo desempenho na época. A linha de tablets OZ é uma das mais recentes, com representantes como o Black, de 2012, e o Tab 700, de 2014. A marca ainda lançou o SafePhone, um celular mais intuitivo voltado para o público idoso.

Mirando na nostalgia

A empresa também aposta nas crianças por causa da linha "Meu Primeiro Gradiente". Ela começou nos anos 80 com um clássico reprodutor e gravador de fitas cassete, tipo um karaokê analógico, que foi relançado em 2013. O nome pegou e virou sinônimo de uma linha infantil que inclui também tablets, um DVD portátil e uma câmera digital.

Um brinquedo.

Só que nem essa repaginada deu muito certo. Os novos produtos não venderam o esperado e a Gradiente voltou a cair. Em janeiro de 2017, a negociação de ações da marca saiu da Bovespa e passou a ser feita apenas em leilões.

Eugênio Staub foi presidente da Gradiente mais de uma vez por vários anos, mantendo uma rotina forte de trabalho mesmo com mais de 70 anos. Ele foi afastado pela última vez em setembro de 2016, quando teve o nome ligado a Operação Greenfield, da Polícia Federal, que investiga esquemas ilegais em fundos de pensão. Eugenio continua como presidente do conselho de administração.

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E essa é a história da Gradiente, uma marca nostálgica e que merece a nossa homenagem. Mais recentemente, ela trabalhou com tablets, smartphones e celulares menos modernos, TVs, players de Blu-ray, conversores de Smart TV, home theater e fones de ouvido. Muita gente se lembra bem dos produtos de games, áudio e vídeo da empresa por conta da qualidade e, por vários anos, ela chegou a ser uma das marcas brasileiras mais valorizadas do país.

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