Será que as tecnologias que vieram para simplificar as nossas vidas poderiam fazer justamente o contrário e causar um apocalipse? Não apocalipse do jeito que você está imaginando, como vemos com a Skynet em “O Exterminador do Futuro”, com as máquinas dominando tudo e todos (apesar de isso também ser bem plausível em um mundo distópico), porém no sentido de que vamos nos tornar exageradamente dependentes de tudo que seja efetivamente computadorizado.

Além disso, temos as constantes questões de espionagem digital e proteção de dados pessoais, sempre levantadas cada vez que abrimos mais e mais mão de nossa privacidade em decorrência do uso mais amplo da tecnologia. Muito se fala sobre a Internet das Coisas e como, em um futuro não tão distante, vários dos eletrônicos de nossos lares estarão conectados com o intuito de, supostamente, se comunicar e facilitar as nossas vidas de inúmeras formas – serão as casas inteligentes.

Contudo, pelo que temos visto até o momento, esse cenário pode não se concretizar de modo tão idealizado, já que já enfrentamos problemas que tornam a utilização dessas tecnologias um tanto frustrante (elas funcionam isoladamente e não em conjunto). Apesar de encontrarmos vários tipos de dispositivos inteligentes, eles não são capazes de realmente dialogarem entre si para otimizar as suas funções.

Inclusive, já há projetos para facilitar essa comunicação, como é o caso do Brillo, recentemente apresentado pela Google. O Brillo traz um Android simplificado como SO (chamado Weave) para rodar em aparelhos com hardware mais simples, como geladeiras, lavadoras, alarmes, lâmpadas, termostatos e muito mais. Desse modo, todos os dispositivos se comunicarão, com as funções controladas e automatizadas pelo próprio smartphone.

Por enquanto, não temos mais detalhes sobre o Weave ou o Brillo, assim como as empresas que serão parceiras na fabricação desses utensílios (e é de se esperar que muitas marcas queiram se envolver no projeto), porém eles já representam um grande avanço no que chamamos de Internet das Coisas, no intuito de torná-la realidade de modo mais prático e padronizado.

Quais são os reais benefícios disso tudo?

Por enquanto, não está tão claro para as pessoas por que elas realmente precisariam se preocupar em transformar os seus lares em casas inteligentes (a não ser pelo fato de ser algo considerado legal e interessante) e a ideia de conferir poder a empresas sobre coisas simples do dia a dia pode ser um tanto assustadora (o Brillo, por exemplo, poderá rodar em máquinas de lavar, fogões, trancas, câmeras de segurança etc.).

Os hackers são um problema potencial para os lares smart – imagine se eles pudessem invadir os comandos autônomos de um automóvel para causar acidentes ou abrir as próprias fechaduras de casa sabendo dos horários que você está ou não está lá?

Outro ponto que deve ser aperfeiçoado é o próprio software desses itens. De acordo com estudos da companhia de segurança Veracode, existem questões sérias com a falta de requisitos básicos para acessar interfaces administrativas desses softwares, que, consequentemente, permitem que os dispositivos sejam descobertos por varreduras na internet.

A Veracode cita como exemplo determinada empresa japonesa que fabrica assentos sanitários smart que possuem o mesmo hard-code padrão de Bluetooth de inúmeros outros dispositivos (que também utilizam Bluetooth) para sincronizar os seus serviços – algo que pode ser um tanto problemático, capaz de facilitar invasões a esses sistemas.

A visão dos pessimistas

Existem muitas opiniões discordantes em relação à Internet das Coisas, principalmente no que tange à automatização de funções que não precisariam – necessariamente – de um computador para realizá-las. Por exemplo, Ian Boost cita em reportagem do The Atlantic (em tradução livre: A Internet das Coisas que Você Não Precisa) aplicações que, segundo ele, são irrelevantes, porém que chamam atenção das pessoas somente por se ligarem aos seus smartphones e computadorizarem tarefas até então simples, supostamente deixando-as mais práticas.

O GasWatch (US$ 29) e o BitLock (US$ 139)

Boost cita o GasWatch (um medidor de gás de propano) e o Bitlock (fechadura eletrônica para bicicletas) como exemplos. Esses dois itens se conectam ao smartphone e, apesar de trazerem funções interessantes, são soluções que já existem atualmente de modo muito mais barato: há um medidor manual de propano e as trancas para as bicicletas não são difíceis de encontrar. São exemplos simples, que ilustram um pensamento mais resistente. 

Apesar das constantes afirmações de que a Internet das Coisas será encarregada de tornar as nossas casas e aparelhos eletrônicos mais eficientes, Boost afirma que esse é somente um meio de transmitir informações para a internet em geral. Segundo ele, já é chegado o momento de admitir que a Internet das Coisas é a colonização de dispositivos não computacionais para o campo da informática.

Computadores são essenciais para os aviões, em indústrias, operações de logística e em sistemas de tráfego, porém nesses casos eles são utilizados para fins específicos e muito mais complexos. De acordo com Boost, quando falamos da tecnologia smart em eletrônicos variados, vemos que os benefícios operacionais são descentralizados em favor do engrandecimento de possuir algo conectado com demais aparelhos e à internet.

É claro que esse tipo de afirmação é um tanto polêmica. David Graeber, do The Baffer, diz que o foco do desenvolvimento da tecnologia foi movido de lugar. A Internet das Coisas, de acordo com ele, existe para construir um mercado em torno de novos dados, enquanto faz você acreditar que dispositivos inteligentes estão tornando as nossas vidas melhores, quando na verdade não há diferenças tão significativas assim – a não ser pelo fato de que tudo é conectado e que mais informações pessoais são repassadas a terceiros.

Não será um tanto de paranoia e exagero?

Se formos discorrer sobre as consequências de tudo o que foi mencionado, as teorias da conspiração vão começar e logo vamos falar das predições sinistras de “1984”, livro de George Orwell que aborda o onipresente Grande Irmão, capaz de espionar tudo e todos (e as denúncias de espionagem da NSA só corroboram para hipóteses do gênero). Quão realista ou fantasioso isso realmente é?

Podemos exagerar um pouco mais e ir até além para analisar um exemplo robotização excessiva das coisas no filme “Wall-E”, com seres humanos que nem saem mais de suas cadeiras para andar, dado o tanto de tecnologia que faz todo o trabalho por eles (e esse produto aqui soa um tanto familiar?).

E você, está de qual lado desse debate? Sem dúvidas, Boost e Graeber mostram resistência e um quê de negatividade quanto à Internet das Coisas, porém como você vê esse futuro? De fato, os dispositivos móveis, produtos smart e eletrônicos com acesso à internet estão se integrando tão naturalmente às nossas vidas que é bem capaz que essa transição seja bem menos perceptível do que muitos imaginam – é simplesmente a evolução das coisas, de como nos comportamos e nos relacionamos em sociedade. Compartilhe a sua opinião nos comentários.

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