Anônimos ou comentários. Qual é o problema? (Fonte da imagem: Reprodução/WPTeach)

Os benefícios que a internet trouxe para o mundo são incontáveis – e essa lista de “melhorias” para as nossas vidas não para de crescer dia após dia. Basta ver, por exemplo, a expansão meteórica de serviços como o Deezer ou o Netflix, os quais fazem streaming em tempo real de conteúdos multimídia.

São coisas que surgiram praticamente de uma hora para a outra e que, sem que nós mesmos pudéssemos perceber, estão conseguindo transformar drasticamente a maneira como ouvimos música e assistimos filmes em qualquer lugar.

Dentro dessa enorme gama de mudanças, a internet também veio para aproximar pessoas de partes diferentes do mundo, além de dar voz a minorias e indivíduos que muito provavelmente nunca teriam a chance de expressar publicamente as suas opiniões.

No entanto, quando o assunto é interação e compartilhamento de conteúdo, infelizmente nem tudo são flores. A internet também produziu efeitos negativos, como os chamados trolls, pessoas que se divertem incomodando os outros na rede. E uma das ferramentas mais exploradas por esses indivíduos é o anonimato.

Os trolls anônimos da internet (Fonte da imagem: iStock)

Se ninguém lhe conhece, o seu rosto e o seu nome não aparecem (ou não correspondem à realidade) e não há praticamente nada que alguém possa fazer para pegá-lo, ele se sente completamente à vontade para “tocar o terror” na internet.

Isso inclui provocações, bobagens, insultos e um tipo de bullying que pode ser até pior do que aquele visto entre as crianças nas escolas. Com esse tipo de comportamento surgindo de forma cada vez mais frequente em tudo o que é lugar, surge a pergunta: será que o anonimato na rede mundial de computadores deveria acabar?

Agressões gratuitas em todos os lados

Basta acessar alguma página grande – e com artigos ou notícias bastante populares – para já começar a identificar agressões gratuitas e piadinhas que nada acrescentam às discussões. São provocações bobas e situações que acabam gerando conflitos entre pessoas desconhecidas e trolls.

Brigas online são constantes (Fonte da imagem: Reprodução/Your Anger Management)

Isso, além de poluir as seções de comentários, também acaba prejudicando o rendimento dos debates por dois motivos: primeiro, porque age de forma negativa, afastando quem quer ter uma discussão saudável sobre algum assunto. Em segundo lugar, porque essas “batalhas” acabam sempre desvirtuando totalmente o assunto da postagem em si.

De quebra, se você entrar em alguns artigos mais específicos – que tratam de gênero, raça ou separação geográfica, por exemplo – aí sim é que você consegue ver aflorar o que há de pior no ser humano, com comentários racistas, discriminatórios e que só servem para promover o ódio entre pessoas que deveriam se tratar como iguais.

Sem nenhum bloqueio biológico (ou psicológico)

Segundo a Baronesa Susan Greenfield, professora de farmacologia na Universidade de Oxford, esse “fenômeno” dos comentários da internet também ­pode ser explicado por uma espécie de ferramenta de bloqueio biológica que teria sido desenvolvida pelo corpo humano durante o nosso processo evolutivo.

A professora Mary Beard (Fonte da imagem: Reprodução/The Telegraph)

Greenfield, em uma conversa com o jornal The Telegraph, explica que ao longo do tempo nós acabamos por desenvolver uma espécie de “freio de mão”, ativado pelo corpo durante as interações humanas.

Esse “dispositivo” seria ativado quando estamos conversando frente a frente com uma pessoa. Há o contato visual, os gestos, as bochechas vermelhas, a respiração diferenciada, enfim, vários fatores que nos fazem ter um comportamento diferente. Com isso, comportamentos mais ácidos e pesados acabariam sendo contidos quase que automaticamente.

E é aí que os comentários de internet se mostram diferenciados. De acordo com a professora, na rede você não está frente a frente com ninguém, não precisa “falar na cara”, afinal de contas, você se encontra no conforto da sua casa, muito provavelmente a milhares de quilômetros daquele com o qual você possa estar debatendo. 

E tudo isso seria amplificado pelo fato de você ainda poder lançar mão do anonimato e/ou utilizar um perfil falso, um codinome que esconderia ainda mais esse comportamento agressivo.

Google – não queremos anônimos por aqui

Para tentar combater esses comentários que não acrescentam muito às discussões, várias empresas têm assumido uma postura um tanto mais rígida com relação aos anônimos. A Google, por exemplo, não quer mais aceitar esse tipo de participação em seus serviços.

As mudanças da companhia nesse sentido aparecem mais do que nunca em um dos seus principais produtos: o YouTube. Dois movimentos recentes da empresa vêm para mostrar essa postura. No começo do ano, a empresa passou a exigir que o nome completo das pessoas fosse exibido nos comentários, deixando, assim, de exibir os tradicionais apelidos.

Agora, mais recentemente, a Google adotou outra estratégia, obrigando as pessoas a utilizarem os seus perfis do Google Plus no site de vídeos. Com isso, além de dar mais um passo no sentido de unificar todos os seus serviços, a empresa também deixa as publicações ainda mais pessoais.

Dessa forma, a Google utilizaria essa mudança para matar “dois coelhos com uma cajadada só”. Além de unificar os seus serviços e criar uma identidade única para as pessoas, a companhia tentaria diminuir a ocorrência de comentários ofensivos dentro da sua plataforma de ferramentas. Vale lembrar, no entanto, que nem todo mundo curtiu essas mudanças.

Não mostrar a cara pode ter a sua justificativa

Se tanta gente vem se posicionando contra os comentários anônimos, há também aqueles que fazem o contraponto dentro dessa discussão, dizendo que existem(sem) sim situações em que a opção de esconder a identidade em determinadas situações é algo extremamente necessário.

Existem fakes e anônimos com boas justificativas também (Fonte da imagem: Reprodução/Facebook)

Quem assume essa posição é Dave Maass, nesse artigo escrito para o site da Electronic Frontier Foundation. De acordo com ele, não é justo que o anonimato de todo mundo seja sacrificado por causa dos trolls da internet.

Segundo ele, em diversas situações utilizar um perfil anônimo pode ser algo muito mais benéfico do que se imagina. O autor do artigo cita algumas situações hipotéticas para justificar a sua opinião, dizendo, por exemplo, que um jovem homossexual poderia utilizar o anonimato para pedir ajuda aos membros de uma comunidade da internet para encontrar formas de contar algo para a sua família.

Protestantes que lutam por causas polêmicas, como a liberação das drogas ou, então, ativistas políticos que sofrem com a opressão em determinados países também encontrariam nos perfis anônimos uma chance de se manterem sãos e salvos.

Até mesmo alguns exemplos bem menos drásticos são citados por Maass, como o fato de que alguns jogadores de games online – e que não querem ter a sua “vida real” relacionada às partidas online – poderiam se beneficiar de um perfil anônimo.

Anonimato é realmente o problema?

Com todos esses fatos sendo pontuados, outra discussão acaba aparecendo. Será que o anonimato em si é realmente o problema? Muitas pessoas pensam que não, assim como algumas empresas, que vêm adotando uma posição ainda mais drástica com relação aos comentários online. Nos Estados Unidos, um estudo mostrou que, em algumas situações específicas, o comportamento dos usuários online é ainda mais agressivo – chegando, inclusive, a se tornar bastante perigoso.

Muitos só querem bagunça – inclusive usando memes nos comentários (Fonte da imagem: Reprodução/Gerador de Memes)

Quando se trata dos gamers, muitos desenvolvedores têm sofrido com excessos online. Jogadores mais abusados, vamos dizer assim, têm se juntado para pressionar criadores de títulos em fóruns, sites e até mesmo em suas contas nas redes sociais, achando-se no direito de cobrar jogos que sejam exatamente da maneira que venha a agradar os seus respectivos gostos pessoais.

Com a explosão dos desenvolvedores independentes esse problema tem se agravado, afinal de contas, eles não contam com relações públicas ou uma grande equipe bancada por uma empresa multinacional na hora de lidar com situações desse tipo, como cobranças exageradas e até mesmo ameaças.

Isso, porém, não é exclusividade dos pequenos, pois as gigantes do mercado também podem acabar perdendo a paciência com esse tipo de pressão online. O gerente de redes sociais da Activision, Dan Amrich, praticamente exigiu um comportamento diferente dos “fãs”. Segundo ele, “Se você gosta dos seus games, tenha um pouco de respeito pelas pessoas que os fazem – e parem de ameaçá-las com danos corporais cada vez que elas fazem o seu trabalho”.

Fanboys brigam o tempo todo (Fonte da imagem: Baixaki/Tecmundo)

Companhias de eletrônicos também estão tendo que aprender a lidar com um novo cenário por causa das discussões online. Se os livros de marketing trouxeram sempre o conceito de “advogados da marca” para os clientes que são fãs de alguma empresa, hoje em dia esse comportamento online mostra que algumas pessoas se tornam completamente fanáticas quando o assunto são os produtos eletrônicos. São as guerras entre os chamados “fanboys”.

Se você navegar pelas notícias e artigos do Tecmundo, por exemplo, discussões entre donos de aparelhos da Samsung, da Apple ou da Nokia (entre vários outros) estarão presentes em nove de cada dez links acessados.

Muita gente pode achar que as páginas e as marcas só saem ganhando com esse tipo de embate; entretanto, não é bem assim que a “banda toca”. Isso porque o comportamento de algumas pessoas foge à racionalidade, não trazendo nada de enriquecedor para os debates. Em vez de alguns desses comentaristas trazerem contribuições válidas, as opiniões postadas acabam se tornando uma troca de ofensas gratuitas – algo que acaba associado à página e que relaciona os produtos aos palavrões e a uma imagem negativa, o que, cá para nós, não beneficia ninguém.

Banir os comentários resolveria o problema?

­Até por isso a Popular Science, uma das mais importantes publicações sobre ciências de todo o planeta, baniu de seu site todos os tipos de comentários. Em nota divulgada para justificar tal posicionamento, a revista cita que as participações estavam não só produzindo discussões desnecessárias e muito assédio moral online, como também que o nível dos comentários estava tão ruim, que chegava até mesmo a prejudicar a evolução científica.

Chega de brigas por aqui! (Fonte da imagem: Reprodução/POPSCI)

A ação da Popular Science gerou muita controvérsia online, de forma que há quem se posicione contra e a favor da revista. Há, inclusive, uma tendência de que mais páginas da internet adotem esse posicionamento, mesmo que de forma temporária e somente para “protestar” contra esse cada vez mais comum bullying online.

O fato é que a discussão de ideias é fundamental para a evolução da raça humana. É com os debates que novas abordagens surgem para os mais diversos assuntos. Se todos acabam aceitando “A”, porque é que empresas, inventores e cientistas vão querer desenvolver “B”?

Dessa forma, vale lembrar que discutir não significa agredir, e para discordar não é preciso necessariamente desqualificar o outro – e é justamente esse tipo de comportamento venenoso que pode estar transformando a internet em um terreno desagradável, cheio de pessoas que querem opinar sobre qualquer assunto – mesmo que não tenham o mínimo de conhecimento sobre ele.

E esse “palco” acaba trazendo à superfície um pouco do que há de pior dentro dos seres humanos, gerando conflitos intermináveis quando todos poderiam compartilhar o conhecimento e debater buscando a evolução.

Dessa forma, talvez o problema real seja o fato de que algumas pessoas ainda precisam aprender a utilizar as incríveis possibilidades trazidas pelos comentários online – sejam eles feitos de forma anônima ou não. 

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