Mudanças climáticas podem aumentar casos de doenças renais, diz estudo

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Um estudo internacional realizado por professores da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade de Monash, na Austrália, que abrangeu 1816 cidades do Brasil, revelou que mais de 200 mil casos de doenças nos rins que ocorreram no país entre os anos de 2000 e 2015 foram ocasionados pelo calor. Os resultados, revisados por pares, foram publicados no jornal científico The Lancet Regional Health – Americas e compõem o maior estudo já realizado sobre o tema.

O estudo foi liderado pelo professor Yuming Guo e pelo doutor Shanshan Li, colaboradores tanto da Universidade de Monash, na Austrália, quanto da USP. A pesquisa foi a primeira a quantificar o risco e a carga atribuível em hospitalizações por doenças renais relacionadas à temperatura ambiente.

Ao todo, foram analisadas 2.726.886 hospitalizações por doenças renais no Brasil. A relação entre aumento na temperatura média e o aumento de hospitalizações, de acordo com o professor Guo, é perceptível: para cada aumento de 1 °C na temperatura média diária dos locais analisados, houve aumento de quase 1% nos casos de doenças renais. Pelos registros, as principais afetadas são as mulheres, crianças menores de quatro anos e maiores de 80 anos.

Os dados são alarmantes, já que cerca de 2,6 milhões de pessoas morrem, por ano, em decorrência de problemas de função renal prejudicada. O dado é de um estudo publicado anteriormente, também no The Lancet.

Mudanças climáticas e nossos rins

vsfsfs  Gerd Altmann/Pixabay 

Nesse cenário, as mudanças climáticas geram ainda mais preocupação na comunidade médica e científica, uma vez que o aumento das temperaturas no planeta pode também significar um risco a mais para a saúde dos seres humanos.

O estudo verificou o impacto das mudanças de temperatura nos casos de doenças renais e revelou que 7,4% de todas as hospitalizações por doença do gênero em seu universo de estudo – o Brasil – podem ser atribuídas a um aumento na temperatura. O que equivale a mais de 202 mil casos.

Segundo o comunicado da universidade acerca do estudo, a incidência de morte por doenças renais aumentou 26,6% em comparação com uma década anterior. Os pesquisadores acreditam que o aumento que o estudo indica foi, em parte, causado pelas mudanças climáticas.

Durante a pesquisa, foi descoberta uma relação entre os dias mais quentes e o aumento de casos: em dias de exposição a temperaturas extremas os casos cresciam, e o pior: permaneciam em números elevados por um a dois dias após a exposição da população ao calor extremo.

No artigo, os autores argumentam que o estudo “fornece evidências robustas de que mais políticas devem ser desenvolvidas para prevenir hospitalizações relacionadas ao calor e mitigar as mudanças climáticas”. Segundo eles, no contexto do aquecimento global, "mais estratégias e políticas devem ser desenvolvidas para prevenir hospitalizações relacionadas ao calor.”

Política X doenças renais

fsds  PxHere/Reprodução 

Os autores recomendaram ainda que intervenções sejam urgentemente incorporadas à política governamental sobre mudanças climáticas. Para eles, essas intervenções devem visar particularmente indivíduos específicos, incluindo mulheres, crianças, adolescentes e idosos — que são, segundo os cientistas, a população mais vulnerável ao calor no que diz respeito às doenças renais.

Guo acrescentou que é preciso dar atenção especial aos países de baixa e média renda, como o Brasil. Segundo ele, o país ainda carece de sistemas confiáveis de alerta de calor, além de precisar da implantação de medidas preventivas.

A 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26) começou no domingo (31), e reúne líderes mundiais em Glasgow, na Escócia, em busca de discutir metas de redução de emissões de gases do efeito estufa para frear as mudanças climáticas que estão em curso no planeta e causam sérios riscos à vida na Terra.

ARTIGO The Lancet Regional Health - Americas: doi.org/10.1016/j.lana.2021.100101

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