Como os extintos rios de Marte se formaram? Novo estudo traz pistas

2 min de leitura
Imagem de: Como os extintos rios de Marte se formaram? Novo estudo traz pistas
Imagem: NASA/JPL/Caltech
Avatar do autor

A superfície de Marte carrega marcas de um passado em que os fluxos de água líquida eram comuns em suas paisagens. Antes localizada de forma abundante em bolsões, lagos e rios, hoje, os resquícios de que um dia o planeta vermelho possuiu água encontram-se presentes nas cicatrizes geológicas de vales profundos, lagos secos e canais vazios.

Representação artística de Marte com oceanos e lagos no passado geológicoRepresentação artística de Marte com oceanos e lagos no passado geológicoFonte:  Wikimedia Commons 

No final da manhã desta quarta-feira (29), foi publicado na revista Nature um novo estudo que revela descobertas animadoras sobre os processos fundamentais que formaram a rede de rios de Marte. Liderado por Timothy Goudge, professor e pesquisador da Universidade do Texas, o estudo aponta que as rupturas topográficas provocadas por inundações de lagos foram um processo geomórfico fundamental nas incisões dos vales nos primeiros bilhões de anos da existência de Marte. Em outras palavras, os transbordamentos causados pelas enchentes dos lagos são apontados como um dos principais processos que esculpiram os vales fluviais, podendo ter causado até cerca de um quarto da erosão dos antigos vales de rios.

Exemplo de uma bacia de lago em Marte (centro) e um desfiladeiro de saída (acima à esquerda) que se formou a partir de uma enchenteExemplo de uma bacia de lago em Marte (centro) e um desfiladeiro de saída (acima à esquerda) que se formou a partir de uma enchenteFonte:  THEMIS (NASA/JPL-Caltech/Arizona State University) and MOLA (NA-SA/GSFC/MOLA Science Team), Timothy A. Goudge 

Para chegar a esta conclusão, Goudge e seus colegas analisaram as formas e as características da paisagem marciana, principalmente nas regiões onde a água líquida existiu no passado, focando nos vales formados durante o período de pico da atividade fluvial em Marte. Os resultados de suas análises mostram que a vazão da água armazenada nos lagos influenciou a forma topográfica de muitas regiões dos vales e possibilitou uma evolução mais ampla da paisagem, incluindo também as áreas de planalto.

Representação artística da paisagem marciana com rios e lagosRepresentação artística da paisagem marciana com rios e lagosFonte:  Kees Veenenbos/Science Photo Library 

Estudos anteriores realizados nas últimas décadas apontam que, em geral, a história climática e geológica de Marte se traduz na evolução de um passado onde o planeta era quente e úmido para um planeta frio e seco. O estudo de Goudge, juntamente com outras descobertas recentes, mostram que essa história é bem mais complexa do que parece. Eventos como a vazão de lagos devem, portanto, ser considerados ao estudar as propriedades dos vales dos rios marcianos e o histórico hidrológico da água no planeta, uma vez que a comparação entre os sistemas geomorfológicos existentes na Terra e aqueles de Marte nem sempre é direta e linear.

No futuro próximo, os cientistas poderão desvendar ainda mais mistérios sobre o passado líquido de Marte. A análise de novos dados e o aperfeiçoamento dos mapas da superfície marciana, principalmente produzidos pelas sondas em solo, como os rovers Curiosity e Perserverance, e a sonda espacial Mars Reconnaissance Orbiter, que possui o objetivo de procurar indícios da existência de água e está em órbita no planeta desde 2006.

ARTIGO Nature: doi.org/10.1038/s41586-021-03860-1