Fim da picada? Cientistas tornam humanos invisíveis para o Aedes aegypti

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Parece ficção, mas pela primeira vez cientistas conseguiram tornar os humanos efetivamente invisíveis aos olhos dos mosquitos Aedes aegyptitransmissores da dengue, febre amarela, zika e chikungunya. O feito foi realizado por meio da edição de genes via CRISPR/Cas9 dos mosquitos: a equipe eliminou dois dos sensores de luz dos olhos dos insetos, eliminando, por consequência, sua capacidade visual de encontrar hospedeiros. O artigo foi publicado em julho na revista científica Current Biology.

O Aedes aegypti é um problema que atinge os humanos em todo o mundo e só tende a piorar: as fêmeas buscam o sangue para colocar seus ovos e infectam dezenas de milhões de pessoas a cada ano.

“Quanto melhor entendemos como eles percebem o ser humano, melhor podemos controlar o mosquito de uma maneira ecologicamente correta”, disse Yinpeng Zhan, pesquisador de pós-doutorado da Universidade da Califórnia (Estados Unidos) e principal autor do artigo, em entrevista ao jornal americano New York Times.

Como o Aedes aegypti ataca

Mosquito Aedes aegypti adulto.Mosquito Aedes aegypti adulto.Fonte:  Muhammad Mahdi Karim/Wikimedia/Reprodução 

Enquanto os mosquitos Anopheles — transmissores da malária — caçam à noite, o Aedes aegypti caça sob o sol, ao amanhecer e ao anoitecer. A espécie depende de vários sentidos para encontrar sangue.

Um simples sopro de dióxido de carbono — sinal de que alguém ou algo acabou de exalar por perto —, coloca o mosquito em voo frenético. Eles também detectam sinais orgânicos da nossa pele como calor, umidade e cheiro ruim, segundo explicou na mesma entrevista Craig Montell, neurobiologista da Universidade da Califórnia e autor do estudo.

Quando não há um hospedeiro adequado, o mosquito voa direto para o alvo que parece mais próximo: uma mancha escura. Em 1937, os cientistas observaram que os mosquitos Aedes aegypti eram especificamente atraídos por pessoas com roupas escuras, mas o mecanismo molecular pelo qual os mosquitos detectavam visualmente seus alvos era desconhecido.

Como o estudo foi feito

Mosquitos Aedes aegypti preferem alvos escuros.Mosquitos Aedes aegypti preferem alvos escuros.Fonte:  KamranAydinov/Freepik/Reprodução. 

Em experimentos anteriores, de alto custo, mosquitos foram colocados em túnel de vento e receberam cheiro de dióxido de carbono. Eles quase sempre optaram por voar para um ponto escuro em vez de um branco. Dr. Zhan projetou uma gaiola com um círculo preto e outro branco dentro — que custou menos de US$ 100 — e entregou os mesmos resultados.

A equipe da pesquisa suspeitou que uma das cinco proteínas sensoriais de luz no olho do mosquito poderia ser a chave para eliminar sua capacidade de buscar visualmente hospedeiros humanos por meio da detecção de cores escuras.

Primeiro, eles decidiram eliminar a rodopsina Op1: a proteína da visão mais amplamente expressa nos olhos do mosquito. Não deu resultado. Então a equipe tentou com a Op2, outra proteína próxima. Os mutantes Op2 também não mostraram nenhum declínio significativo na visão — e continuaram preferindo o alvo escuro.

Mas quando Dr. Zhan eliminou as duas proteínas em conjunto, os mosquitos giraram sem rumo, sem mostrar preferência entre o círculo branco e o preto. Eles haviam perdido a capacidade de buscar hospedeiros de cor escura.

Os mosquitos ficaram cegos ou apenas cegos para as pessoas? A equipe fez três testes de visão e os insetos passaram em todos.

Seria o fim da picada?

picada  Reprodução Internet 

Os pesquisadores ainda não expuseram os mutantes duplos a hospedeiros reais, então ainda não é possível saber se a visão prejudicada realmente afeta a capacidade dos mosquitos de se alimentar de sangue, pois os insetos têm muitos outros sentidos aguçados.

O novo estudo pode ajudar em estratégias futuras no controle de populações de mosquitos. Se as fêmeas não conseguissem ver os hospedeiros, teriam mais dificuldade em encontrar o sangue necessário para o desenvolvimento de seus ovos. “A população cairia”, disse Montell.

ARTIGO Current Biology: doi.org/10.1016/j.cub.2021.07.003