Missões para Vênus podem indicar como a vida na Terra deve acabar

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Imagem: NASA GSFC
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A Terra é mesmo única? Para responder essa pergunta, o cientista planetário Paul Byrne sugeriu à revista online Science Focus que as missões DAVINCI+ e Veritas, da agência americana NASA e a EnVision, da Agência Espacial Europeia (ESA), podem trazer respostas. Para o pesquisador, Vênus – que também é rochoso, próximo à Terra e orbita a mesma estrela que nós, o Sol –, pode ser o ponto de partida para entender a história do nosso planeta e descobrir como ela pode terminar.

Fogo e enxofre

Vênus pode realmente ter sido como a Terra, com oceanos e placas tectônicas. Segundo Byrne, uma das descobertas mais interessantes das missões ao planeta nos anos 70 e 80 foi ligada à relação deutério-hidrogênio (o deutério é um isótopo do hidrogênio).

"Em Vênus, descobrimos que a proporção é cerca de 100 vezes maior do que a da Terra, e a melhor explicação para isso é que em algum ponto Vênus pode ter tido muita água e agora ela se foi. A superfície está completamente seca", disse o cientista. Para ele, isso significa que algum evento poderia ter desencadeado um efeito estufa descontrolado.

Atualmente, a temperatura de Vênus é de cerca de 470 °C na superfície, dos polos ao equador. Um ser humano assaria. A atmosfera do planeta é composta por 96,5% de dióxido de carbono (CO2) – o que asfixiaria alguém muito rápido. A pressão atmosférica lá é 90 vezes maior que a temperatura ambiente – segundo Byrne, equivalente a estar 1 km debaixo de água na Terra. Há também uma camada de nuvem global que derrama chuvas de ácido sulfúrico. O local é completamente inabitável.

Sistema SolarFonte: Pixabay

Quais questões as missões devem ajudar a responder?

Há outro modelo sobre como Vênus surgiu e, neste caso, o planeta sempre foi terrível. Começou com um oceano de magma – e Vênus estava perto demais do Sol para esfriar tempo o suficiente para condensar os gases na atmosfera. A água não teria esfriado para formar oceanos e crostas, retendo apenas uma atmosfera de CO2. Nessa teoria, Vênus sempre teve um efeito estufa descontrolado e era arruinado desde o início. As novas missões podem esclarecer qual versão é a verdadeira.

A missão DAVINCI+ (Deep Atmosphere Venus Investigation of Noble gases, Chemistry, and Imaging) terá uma sonda que descerá ao planeta por uma hora em um paraquedas e entrará em queda livre por cerca de 60 km em direção à superfície, medindo a proporção de deutério-hidrogênio. "A razão deutério-hidrogênio nos dirá quanta água havia em Vênus, mas não nos dirá em que estado estava" explicou Byrne. Para descobrir isso, será preciso medir os gases nobres: hélio, argônio, xenônio e neon.

"Os gases nobres estão ligados a diferentes partes do interior do planeta, e se olharmos para sua concentração, podemos construir um modelo do que foi ejetado do interior do planeta e obter uma imagem da história de Vênus e de sua água", afirmou o pesquisador.

E se Vênus era mesmo como a Terra?

Se Vênus já foi como a Terra, isso terá grandes implicações. Um trabalho recente, liderado por Michael Way, do Instituto Goddard de Ciência Espacial da NASA, construiu modelos que mostram que as camadas de nuvens poderiam ter mantido Vênus frio desde o início. Depois desse ponto, o planeta deveria ter permanecido estável. "Claramente, algo deu errado. E é aí que o modelo sugere que algo introduziu uma pilha inteira de CO2 no ar rapidamente, geologicamente falando", explicou Byrne.

"O único processo em que podemos pensar que pode fazer isso são os vulcões. Muitos deles", afirmou o acadêmico – o que poderia desencadear uma mudança climática drástica. "Não sabemos o que impulsiona esses eventos, se eles acontecem em ciclo ou se são aleatórios", disse o cientista. Se for o caso, foi apenas azar de Vênus ter vulcões explodindo ao mesmo tempo ou a Terra é que tem sorte de não ter acontecido aqui ainda?, questionou o pesquisador.

"Talvez Vênus seja o 'normal' e a Terra seja incomum. Tudo o que encontrarmos em Vênus será importante para dar sentido à história e ao futuro de nosso próprio planeta", afirmou Byrne, que está empenhado em garantir que as próximas não sejam as únicas missões que a NASA envie a Vênus nos próximos 30 anos. "Essas duas missões não responderão a todas as perguntas", encerrou.

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