Médicos começam a encarar a covid longa como uma nova doença

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Uma das maneiras de exaltar o sucesso de uma estratégia de saúde é contabilizar primeiro os recuperados, depois os contaminados e, por fim, os mortos. Segundo dados da Universidade John Hopkins, há hoje no mundo quase 72 milhões de pessoas que sobreviveram à covid-19. Porém, não se pode dizer que elas estão curadas ou mesmo livres da doença, pois mesmo sem o vírus no sangue, elas sofrem da chamada covid longa, que inflige aos recuperados sintomas novos e antigos, semanas depois da alta médica. Suas causas ainda permanecem um mistério para os especialistas.

“Ao longo dos últimos meses, começamos a ter uma noção de quais problemas essas pessoas estavam tendo”, disse a cardiologista Ani Nalbandian, da Universidade de Columbia, principal autora de um estudo publicado agora na Nature Medicine.

Sintomas de covid-19 podem perdurar pelos meses seguintes à alta médica.Sintomas de covid-19 podem perdurar pelos meses seguintes à alta médica.Fonte:  E+/Özgür Donmaz/Reprodução 

Segundo ela, “é importante que os pacientes saibam que o que estão experimentando pode ser uma consequência da infecção por covid-19 e que eles não estão sozinhos em experimentar os efeitos prolongados da doença”.

A pesquisa, na verdade, é uma revisão sobre os sintomas persistentes deixados pela infecção por Sars-CoV-2, levada a cabo por Nalbandian, sua colega eletrofisiologista cardíaca Elaine Y. Wan e mais o oncologista Kartik Sehgal, da Harvard Medical School. Os três lideraram uma equipe de mais de 30 especialistas de Columbia e outros centros médicos que trabalharam com pacientes durante a primeira onda da pandemia.

Persistência

Em julho do ano passado, um estudo publicado na revista médica JAMA Network revelou que muitos pacientes que vão para casa continuam sofrendo dos sintomas causados pelo Sars-CoV-2. “Há relatos de quem sente intensamente os efeitos colaterais duradouros decorrentes da infecção”, disse à época, em um artigo para o site The Conversation, o imunologista William Petri, da Virginia University.

Médicos italianos rastrearam 143 pacientes (com idades entre 19 e 85 anos) de hospitais em Roma, na Itália; em média, o tempo de permanência em internação foi de 13 dias, e cerca de 20% precisaram ser entubados.

Fadiga é o sintoma que mais persiste.Fadiga é o sintoma que mais persiste.Fonte:  JAMA Network/Angelo Carfi/Reprodução 

Depois de 2 meses de terem sido diagnosticadas com covid-19, somente 18 pessoas (12,6%) não apresentavam mais sintomas da gripe; 32% sofriam com até dois sintomas, enquanto 55% apresentavam três ou mais sintomas típicos da doença – fadiga (53,1%), dificuldade em respirar (43,4%), dor nas articulações (27,3%) e no peito (21,7%). A tosse ainda atormentava mais de 10% dos recuperados; a mesma proporção de pacientes ainda não tinha olfato. Para 44,1% dos pacientes, a qualidade de vida piorou depois da doença.

“Para os pacientes que tiverem quadro mais grave e forem levados para Unidades de Tratamento Intensivo (UTI), há um risco substancial de delirium, estado caracterizado por confusão, dificuldade em prestar atenção, pouca consciência de si mesmo, do seu ambiente e do tempo, e até mesmo inabilidade de interagir com os outros. Essa não é uma complicação específica da covid-19, mas sim do tratamento em UTI”, explicou Petri.

Primeira mão

Segundo ele, essa confusão mental pode permanecer pelos meses seguintes em até 75% dos pacientes tratados em UTI, eles apresentam “dificuldades com a memória de curto prazo, com a habilidade de entender palavras escritas e faladas e com a aprendizagem. Algumas pessoas até já tiveram dificuldade em saber onde estavam e qual era a data, e o desempenho do controle cognitivo também foi significantemente pior”.

Sintomas de covid-19 foram vivenciados em primeira mão pela epidemiologia Margot Gage Witvliet, da Universidade Lamar. Depois de uma viagem à Europa, ela foi internada em fevereiro do ano passado com a infecção e, 4 meses depois, ainda se sentia como nos primeiros dias da doença.

“Mais de 4 meses depois, os sintomas não desapareceram. Meu coração ainda dispara, mesmo que eu esteja em repouso. Não posso ficar ao sol por longos períodos; fico completamente prostrada. Tenho problemas gastrointestinais, zumbidos nos ouvidos e dores no peito”, disse ela em depoimento ao The Conversation.

Segundo o clínico geral Anthony Komaroff, também da Harvard Medical School, “estudos publicados e pesquisas conduzidas por grupos de pacientes indicam que de 50% a 80% das pessoas que se recuperaram de covid-19 continuam a ter sintomas, com incômodos 3 meses depois do início da doença, mesmo que os testes não detectem mais o vírus no organismo. Como a covid-19 é uma doença relativamente nova, não temos muitas informações sobre as taxas de recuperação em longo prazo”.

Próprios casos

É isso que, agora, os três médicos pretendem determinar revisando seus próprios casos e a literatura disponível sobre o atendimento de pacientes que sofrem de covid longa, juntamente com colegas das áreas de Neurologia, Nefrologia e Carsiologia. Entre as descobertas, dor no peito foi uma das maiores queixas, relatada por 20% dos sobreviventes de covid-19 cerca de 2 meses depois da alta médica.

“A doença pode revelar casos previamente não reconhecidos de diabetes. Uma pequena porcentagem de pacientes apresenta coágulos de sangue, que podem levar a embolias pulmonares e derrames – esses últimos seriam desencadeados ainda por arritmias, causa também de insuficiência cardíaca e danos ao coração de longa duração. Isso é algo que os pacientes podem não saber”, disse ela.

Esse é um ponto destacado no trabalho dos 3 médicos: a importância de se olhar o todo, e não somente as partes, tendo-se em conta que o Sars-CoV-2 tem múltiplas frentes de ataque. “Precisamos pensar no paciente como alguém cujos órgãos foram simultaneamente atacados pela covid-19, especialmente o doente que foi hospitalizado,” disse Nalbandian.

Jovens cardíacos

O coração é um dos órgãos que mais estragos sofre com a infecção. “Vimos pacientes jovens que desenvolveram aumento da frequência cardíaca. Não são apenas os mais vulneráveis que têm problemas depois da covid-19. Existe realmente uma síndrome pós-covid e ela nem sempre se correlaciona com a gravidade da infecção aguda em si”, disse Nalbandian.

A revisão dos casos (somente na região da cidade de Nova York, foram quase 740 mil) mostrou que, depois da alta, a maioria dos pacientes não volta, mesmo sofrendo de sintomas similares aos da infecção. “Tenho visto pacientes jovens, até meses depois da infecção por covid-19, desenvolverem arritmias, palpitações e fadiga crônica. Outros reclamam de dor no peito, dificuldade para tomar decisões, problemas de memória e concentração”, revelou Wan.

Independentemente de terem precisado de cuidados em unidades de tratamento intensivo, pacientes recuperados apresentam sequelas cardíacas e cerebrais.Independentemente de terem precisado de cuidados em unidades de tratamento intensivo, pacientes recuperados apresentam sequelas cardíacas e cerebrais.Fonte:  New York Times/Fabio Bucciarelli/Reprodução 

Para a médica, é hora de se pensar em clínicas dedicadas ao problema, como já acontece na Itália, um dos países devastados pela doença. “A covid-19 é a primeira doença infecciosa que descobri que tem um efeito devastador em uma ampla variedade de órgãos”, disse a eletrofisiologista cardíaca.

Segundo Nalbandian, “atendemos pacientes que têm procurado por semanas algum médico que os ouçam, legitimem suas queixas e documentem completamente os sintomas. Com base nessa revisão, todos nós reconhecemos que é necessário haver atendimento interdisciplinar para tratar os pacientes de maneira longitudinal. O cuidado de pacientes com covid-19 não deve ser concluído no momento da alta hospitalar; não sabemos a duração dos sintomas e das complicações de longo prazo”.

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