Mutações no coronavírus podem torná-lo mais mortal

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Uma das características dos vírus é a extraordinária capacidade de reprodução e, no processo, cópias com mudanças tendem a aparecer. Por isso, não foi surpresa quando o Sars-CoV-2, causador da covid-19, começou a gerar variantes à medida que se espalhava pelo mundo.

Hoje, existem cerca de 30 mil mutações conhecidas e acompanhadas de perto desde que coronavírus surgiu na cidade de Wuhan, na China. Dentre todas as cepas, 3 têm o potencial de mudar os rumos da pandemia e, por isso, são chamadas de Variants Of Concern (variantes de preocupação, ou VOC). Quanto mais o vírus se replica e se espalha, maiores as chances de variantes surgirem.

Há são conhecidas mais de 30 mil variantes do SARS-CoV-2, mas poucas têm potencial de ser mais mortal.Já são conhecidas mais de 30 mil variantes do Sars-CoV-2, mas poucas têm potencial de ser mais mortal.Fonte:  GISAID/Rob Lanfear/Divulgação 

A velocidade de replicação do vírus não prima pelo cuidado em reproduzir seu código genético sem erros, o que acaba gerando mutações. Muitas são perdidas pela morte do vírus, outras são inócuas, mas uma parte é viável e torna o vírus mais resistente, a doença mais contagiosa, seu efeito mais mortal.

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As variações se espalham e se acumulam, dada a velocidade de entrada do vírus nas células, que se reproduzem freneticamente e tomam o organismo, pulando de um indivíduo para outro. Esse é o grande desafio na produção de uma vacina.

Variante B.1.1.7

A primeira variante que suscitou preocupação entre os pesquisadores surgiu no Reino Unido: pouco antes do Natal de 2020, amostras colhidas de 2 pacientes mostraram que o coronavírus havia mudado, e muito. Foram registradas 23 mutações: 13 alteraram as sequências de proteínas do vírus, e 8, a proteína das espículas – as pontas da coroa do vírus responsáveis por fazê-lo se prender ao receptor ACE2 na membrana e infectar a célula.

A proporção da variante entre os casos de covid-19 começou a subir rapidamente nas semanas seguintes, o que levou os pesquisadores a perceber que o vírus havia adquirido uma mutação que o fazia ser capaz de se espalhar mais facilmente. Uma das mutações dessa variante, a N501Y, altera o aminoácido na posição 501 da sequência da proteína da espícula.

No início deste ano, o governo britânico decretou novamente lockdown para tentar deter o avanço da nova linhagem do coronavírus.No início deste ano, o governo britânico decretou novamente lockdown para tentar deter o avanço da nova linhagem do coronavírus.Fonte:  Reuters/Reprodução 

Essa troca aconteceu exatamente na região onde o vírus se liga ao receptor ACE2; em camundongos, a mudança mostrou que o vírus se tornou mais eficiente em se ligar à célula, tornando a doença mais infecciosa e virulenta. Outra mutação, chamada de P681H, aumentou a capacidade do vírus de se fundir à membrana e despejar seu conteúdo dentro da célula.

Essas e outras mutações elevaram a capacidade de transmissão do vírus em até 56%, contaminando a população de mais de 60 países – segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, deverá ser a cepa predominante do país até março. No Brasil, os primeiros dois casos foram detectados em São Paulo.

Mais mortes

Mesmo que em números relativos não haja evidências de que a B.1.1.7 aumente a gravidade da doença ou provoque mais mortes, a velocidade maior de contágio (e a superlotação das unidades de saúde) elevou o número total de casos mais graves e mortes, em números absolutos.

No último 21 de janeiro, o New and Emerging Respiratory Virus Threats Advisory Group (Grupo Consultivo de Ameaças de Vírus Respiratórios Novos e Emergentes – NERVTAG) disse que “há uma possibilidade realista de que a infecção por VOC B.1.1.7 esteja associada a um risco aumentado de morte”.

A preocupação então se voltou para as vacinas que estão sendo usadas para combater a pandemia, e sua eficácia contra a nova variante. Pfizer/BioNTech e Moderna, laboratórios que produzem as chamadas vacinas gênicas (baseadas em RNA mensageiro), já declararam que os imunizantes continuam eficazes frente à nova cepa.

Variante 501Y.V2

Um pouco antes de o mundo tomar conhecimento da B.1.1.7 varrendo o Reino Unido, autoridades sanitárias da África do Sul anunciaram que uma variante prevalecia entre os casos da doença relatados nas províncias de Eastern Cape, Western Cape e KwaZulu-Natal. A 501Y.V2 foi assim nomeada por ter uma das mutações encontradas na B.1.1.7 – aquela que aumenta a eficiência do vírus para se ligar à membrana da célula, aumentando a virulência da covid-19.

Uma enfermeira do Hospital Lancet Nectare colhe material para um teste de coronavírus em Joanesburgo, em dezembro de 2020.Uma enfermeira do Hospital Lancet Nectare colhe material para um teste de coronavírus em Joanesburgo, em dezembro de 2020.Fonte:  AFP/Luca Sola/Reprodução 

Foram detectadas nessa variante 21 mutações, incluindo a citada acima. Outras duas, porém, têm deixado especialistas preocupados quanto à resposta imunológica. As alterações (ambas nas proteínas das espículas) são conhecidas como K417N e E484K. Se a primeira torna a ação dos anticorpos menos eficaz, a segunda reduz a resposta imunológica em até dez vezes. As vacinas baseadas em RNAm, porém, ainda protegem quem recebe o imunizante, mesmo que haja queda na eficiência.

Variante P.1

Quanto mais vírus se espalham, mais chances existem de que sofram mutações e criem variantes, pois o tempo e o número de hospedeiros contam a seu favor. A terceira variante surgiu em Manaus (AM), depois de a cidade ter sido devastada pela covid-19 até meados de 2020 – em outubro, 75% da população já havia sido infectada. Dois meses depois, os casos voltaram a subir, mas, dessa vez, com mais velocidade: o Sars-CoV-2 havia evoluído para a variante P.1.

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Ela reúne, em suas espículas, dez mutações, incluindo as já citadas N501Y, E484K e K417T, o que pode indicar que a doença é transmitida mais facilmente, é mais virulenta e provoca menos resposta imunológica. Se ela é mais mortal, ainda não se sabe, mas as consequências de sua evolução são também medidas pelo colapso da rede hospitalar do estado.

Há um mês, a variante respondia por 42% das amostras de Sars-CoV-2 sequenciadas em Manaus; agora, ela está em 91,4% das amostras colhidas este mês no estado, segundo o Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) e Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas.

Pacientes ocupando leitos clínicos em hospitais de Manaus começaram a ser transferidos para outros estados em meados de janeiro.Pacientes ocupando leitos clínicos em hospitais de Manaus começaram a ser transferidos para outros estados em meados de janeiro.Fonte:  Ministério da Saúde/Divulgação 

A P.1 já está em sete países, e o temor das autoridades sanitárias agora é que ela se espalhe pelo Brasil por causa do envio de pacientes a outros estados, já que há falta de oxigênio nos hospitais de Manaus. Ainda não há dados sobre a eficácia das vacinas hoje distribuídas no Brasil no combate a essa variante do Sars-CoV-2.

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