Imagem de The Magic Circle
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The Magic Circle

Nota do Voxel
90

Um divertido comentário sobre o desenvolvimento de um game

The Magic Circle é um game que se passa dentro de um jogo eletrônico no qual seu objetivo é quebrar as regras para criar um projeto final totalmente diferente. Parece confuso, não? Felizmente, basta passar alguns minutos dentro do universo criado pela Question para entender qual é a proposta real do estúdio.

Na aventura, você assume o papel de um jogador responsável por testar a versão mais recente de The Magic Circle, um jogo fictício que está em desenvolvimento há mais de 20 anos. Após realizar algumas tarefas simples, você é contatado por uma entidade misteriosa que deseja escapar do controle dos “deuses” (os desenvolvedores do título em questão) e, para isso, conta com a sua ajuda.

A partir desse momento, o jogador ganha poderes especiais que permitem que ele explore o código do jogo que está sendo desenvolvido e o molde de maneira relativamente livre. Com isso, além de mudar o comportamento de inimigos, você ganha acesso a áreas com códigos antigos e situações deixadas incompletas durante o longo processo de desenvolvimento.

Um game metalinguístico

Caso ainda não tenha ficado claro pelos parágrafos introdutórios, The Magic Circle é um game que trata justamente sobre o desenvolvimento de jogos eletrônicos. Durante a aventura, você é apresentado a figuras “divinas”, como Ishmael Gilder, o “visionário” por trás do projeto — paralelos com nomes conhecidos como Peter Molyneux, Ken Levine e outros não são difíceis de fazer.

Da mesma forma, Coda surge como o típico “fanático” por uma obra que nem sempre entende como realmente funciona o projeto de produção de um game, adotando certos posicionamentos alheios ao comportamento típico da indústria. Por fim, também há a figura de Evelyn Maze, uma ex-celebridade dos eSports que tem sua imagem pessoal relacionada ao projeto fracassado, mas não consegue simplesmente se demitir da equipe.

Tais críticas e referências ganham peso quando levamos em consideração que a equipe do estúdio Question é formada por profissionais que já trabalham em games Triplo A como BioShock e Dishonored. Felizmente, o roteiro se desenvolve de forma inteligente, evitando “apontar dedos” de forma clara para uma personalidade específica do universo que lhe serve de inspiração.

Entre os pontos altos de The Magic Circle estão as gravações de áudio que revelam detalhes sobre o processo de desenvolvimento problemático do título e a maneira como indicadores visuais são usados para destacar certos elementos. Não é incomum encontrar pontos do cenário em que sequer há texturas (somente indicadores de quais devem ser usadas) ou em que, por conta de uma mecânica falha, um programador inseriu uma solução “quebra-galhos” que deveria ser consertada posteriormente.

O momento que mais chama atenção no jogo é quando você descobre a versão original do game, que adotava uma perspectiva futurista no lugar do cenário medieval fantástico que você explora no início. Entre as provas de que estamos lidando com um conteúdo genuinamente antigo está desde o uso de gráficos em baixa resolução até registros que mostram uma equipe de desenvolvimento mais empolgada e menos cínica em relação ao lançamento do produto.

Molde o universo

Com uma visão em primeira pessoa, The Magic Circle adota mecânicas bastante diferentes de outros jogos que utilizam a mesma perspectiva. Seu personagem pode usar uma energia que “hackeia” os elementos do jogo e aciona uma tela na qual é possível definir diferentes comportamentos e habilidades para inimigos e elementos do cenário.

Um monstro agressivo, por exemplo, pode ter seus parâmetros mudados para acompanhar seu personagem e defendê-lo de investidas inimigas. Da mesma forma, você pode “roubar” a resistência ao fogo de uma criatura e atribuir essa qualidade a outra, criando uma série de combinações bizarras e úteis no processo.

A liberdade de interação se estende à maneira como você explora os cenários: após uma introdução curta, o jogador é enviado a uma área relativamente aberta na qual pode lidar com objetivos de diversas maneiras. No entanto, essa decisão dos desenvolvedores cobra um pouco seu preço ao gerar momentos em que não fica claro o que é preciso fazer para prosseguir na história.

Não raras vezes, você vai vasculhar todos os pontos do cenário e sair frustrado por não ter descoberto o que o título exige para que um obstáculo seja superado. Nessas situações, o melhor a fazer é deixar The Magic Circle de lado alguns instantes e voltar a ele de “cabeça fresca” — na maioria das vezes, a resolução está escondida na manipulação do comportamento de inimigos e itens de uma forma que antes não ficava clara.

Apesar de oferecer uma quantidade variada de comandos para você manipular o universo, o game não chega a ser excessivo nesse sentido. Dessa forma, ao mesmo tempo em que a experimentação é necessária, ela não chega a ser exaustiva devido a um excesso de possibilidades sem propósito mecânico real.

O único fator que decepcionou um pouco em The Magic Circle é o fato de que o game parece um tanto curto. A partir de determinado momento, a aventura começa a limitar um pouco as possibilidades oferecidas e segue um caminho linear até seus momentos finais — que, embora satisfatórios, poderiam ser prolongados de forma a oferecer uma visão mais ampla sobre alguns pontos do processo do desenvolvimento do jogo que estamos explorando.

Vale a pena?

É fácil recomendar The Magic Circle para qualquer pessoa que esteja à procura de experiências que não têm medo de subverter expectativas ou apostar em narrativas que fogem do convencional. O game é um ótimo comentário sobre o processo de desenvolvimento de jogos, não poupando figuras “mitológicas” do meio, como o “criador visionário” e projetos de Kickstarter destinados a resgatar experiências do passado que se perderam pelo caminho.

Apesar de o título nem sempre deixar claro o que é necessário fazer para prosseguir, isso não chega a ser exatamente um problema vista sua grande qualidade. No entanto, é preciso fazer um alerta: caso você não compreenda o idioma inglês, seu nível de satisfação com o jogo dificilmente vai ser o ideal, tamanha a importância de seu roteiro.

Caso você se interesse pelo desenvolvimento de games ou simplesmente tenha curiosidade em explorar um pouco os bastidores da indústria, The Magic Circle é uma experiência fascinante. E, justamente por isso, fica o desejo de que ela durasse mais: o final, embora seja satisfatório, parece um tanto corrido e deixa a impressão de que os desenvolvedores não conseguiram falar muito do que ainda tinham a dizer.

Pontos Positivos
  • Roteiro bem humorado e imprevisível
  • Comentários inteligentes sobre o desenvolvimento de games
  • Mecânicas que estimulam a experimentação
Pontos Negativos
  • É comum ficar perdido em relação a seu objetivo
  • O fim da história parece um tanto apressado