Supremo, viciante e visceral: Nioh é tudo isso e mais um pouco

Eu gosto muito da fórmula Souls. Muito mesmo. Assim como vários outros jogadores, demorei para entender a essência, mas quando a absorvi, ela se tornou uma experiência única e extremamente cativamente. A mudança de ares foi excelente em Bloodborne e, para mim, o game foi o jogo do ano de 2015. E o que esperar quando esse gênero vai para o Japão feudal, uma das minhas atmosferas prediletas?

O rótulo de Dark Souls japonês foi por bastante tempo o que definiu Nioh, uma nova empreitada da Team Ninja no PlayStation 4. Mais um jogo difícil que bebe inspiração da fórmula From Software? Talvez. Mas Nioh é muito mais. Talvez, pela primeira vez, a receita de bolo não foi seguida à risca e surgiu algo extremamente original. Quem sabe essa seja a inovação da fórmula?

O título da Koei Tecmo é muito mais focado e direcionado, desde o ritmo da jogabilidade à narrativa, mas nem por isso a variedade menor traz algum tipo de desvantagem. Durante as dezenas de horas que passei me aventurando nas paisagens do Japão feudal, o vício e o sentimento de recompensa estiveram presentes o tempo todo, provando que Nioh pode ser uma das melhores experiências do ano e também dos últimos tempos. Confira a nossa análise completa.

Uma história mais guiada e realista

A história segue o protagonista William, um mercenário e pirata britânico que presta serviços ao Reino Unido para trazer Amrita do Japão, uma pedra similar a uma joia, mas com poderes especiais. Contudo, ao se deparar com um projeto para utilizar a energia mística para fins militares, o personagem é preso e impedido de voltar às terra nipônicas.

William é o protagonista de Nioh

Esse é só o pontapé inicial da narrativa, mas o grande ponto positivo aqui é que o enredo se constrói muito bem, é intrigante e, principalmente, bem direcionado. Diferente da série Souls, não é necessário sair em busca de mais informações ou se atentar muito ao cenário, ou seja, é algo mais acessível e guiado. A história tem várias cutscenes, personagens dublados, diversos diálogos, um protagonista marcante e concebido com sua própria personalidade e um universo incrível.

E, por falar no mundo de Nioh, ele não é completamente fantasioso. Demônios, deuses, mitos, magias e muito mais fazem parte do game, mas a história traz muitos paralelos com acontecimentos reais, incluindo figuras históricas como Hozoin Inei, Hattori Hanzo e muitos outros. O balanço entre o lado sobrenatural e o factual é impressionante e nos entrega uma experiência espetacular.

Desde Tenshu e Onimusha, foram lançados poucos títulos que explorassem tão bem essa ambientação e essa mitologia tão rica

No entanto, a grande sacada é que o enredo é muito guiado e segue uma lógica sem nenhum tipo de dúvida. Eu amo o tom intrigante de epopeia de Dark Souls, mas certamente o formato direcionado de Nioh é mais agradável aos novatos e oferece uma compreensão maior do que ocorre no mundo do título. Não se trata de algo melhor ou pior, apenas diferente, mas que cumpre muito bem a sua função e entrega uma narrativa espetacular e cheia de referências históricas.

Desde o começo da aventura, ficam muito claros quem é o personagem principal e quais são as suas motivações, assim como o que o antagonista deseja e quais são os motivos para cada um seguir o curso da história. Não há margem para erro aqui, pois tudo é muito bem definido. Basta um pouco de atenção para entender todas as nuances narrativas.

O jogo tem muitos personagens e uma história muito mais guiada

Um combate que atinge o ápice de excelência

A direção e a progressão de Nioh têm ótimo ritmo, mas a cereja do bolo mesmo é o combate. Se você já jogou algum título da fórmula Soulsborne, perceberá facilmente as semelhanças de golpes fortes e fracos aliados a uma barra de stamina, com confrontos elegantes no x1 que funcionam de maneira viciante e visceral. E isso tudo em um ritmo mais acelerado é ainda melhor.

Se o inimigo estiver longe, você não precisa se preocupar: Nioh traz uma boa variedade de arcos, rifles e canhões

O sistema de luta cadenciado é uma obra-prima e a alma do jogo. O grande destaque e ao mesmo tempo o que diferencia Nioh de suas inspirações é a mecânica de postura. Instâncias baixas, médias e altas mudam drasticamente o gameplay de cada arma e têm papéis específicos para cada situação. Nioh encoraja a mudança e variação dessas poses, criando um combate extremamente diversificado.

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Assim como em Bloodborne, a ofensiva é recompensada, mas de forma diferente. Em vez de recuperar vida nos golpes, você consegue reaver parte da barra de energia gasta. Se você utiliza esse bônus para realizar dashes e se esquivar do inimigo ou para recuperar uma fração dela e realizar mais ataques (similar à recarga perfeita de Gears of War), a escolha é sua. Ambas as opções podem ser úteis em situações distintas e cabe ao jogador entender qual é a melhor situação.

Cada momento de um confronto é como um duelo de xadrez, ou seja, requer muita estratégia e análise dos próximos movimentos porque, se a stamina de algum dos personagens acabar, a situação muda, deixando-os exaustos e suscetíveis a execuções. Alguns chefões parecem impossíveis de ser derrotados, mas com tática, postura, paciência e a arma certa, a batalha fica bem mais fácil.

O combate de Nioh é singular na indústria e pode criar novos paradigmas daqui para frente

Nioh não é exatamente o jogo mais difícil e desafiador do mundo. Contudo, diferente da fórmula Soulsborne, é muito mais complicado apostar em um único estilo de combate e, certamente, você não aproveitará a experiência completa se jogar apenas com um machado na postura alta, por exemplo. Isso nos leva ao próximo ponto: o incentivo à variedade de gameplay.

Sistema robusto de magias e habilidades

É incrível quanto Nioh incita você a trocar de arma sempre que possível, pois cada uma delas conta com uma barra de familiaridade que oferece pontos para as skills. Esse é um dos sistemas mais exclusivos do game e que o distancia da experiência de Dark Souls ou Bloodborne, colocando o título em um patamar de RPG de ação bem dinâmico. Você pode adquirir magias, ninjutsus e outras habilidades para o arsenal de armas, como parries, contra-ataques, golpes carregados e muito mais.

Cada tipo de armamento conta com uma árvore de habilidades própria e com muitas mecânicas distintas. Em algum ponto da progressão, você deverá escolher quais skills vão compor o seu combo. Não são combinações complexas como as de um hack ‘n slash, mas há uma variedade grande de golpes para cada postura, criando um sistema de luta absurdamente completo, caprichado e bem-feito.

Há muitos espíritos-guardiões e eles trazem uma dinâmica espetacular ao já excelente combate

Contudo, não há pontos apenas para as armas. Você pode gastar também com nijutusus, que envolvem imbuir armas com veneno ou fabricar shurikens e kunais, e com as magias Omnyo, que são essenciais para atribuir elementos aos seus golpes.

O espírito-guardião é um verdadeiro salva-vidas nas batalhas e pode resgatá-lo de uma situação de aperto

No entanto, a grande estrela aqui é o espírito-guardião. Pode ser só mais um recurso de gameplay? Talvez. Mas ele é mais que isso. Trata-se de um poder especial que combina a sua barra de stamina e de vida em um só lugar e o deixa invencível por um curto período de tempo, além de habilitar golpes especiais. Quem jogou a série Onimusha com certeza vai associar, mesmo que de maneira distante, com os especiais das espadas de Samanosuke.

O melhor looting dos últimos tempos

Nioh tem uma variedade incrível de equipamentos. Não há armas únicas aqui: você vai pegar katanas, kurisagamas, machados, arco e flecha, lanças e espadas duplas o tempo todo, e muitas delas têm o mesmo nome, mas com estatísticas diferentes. O game tem como alicerce um sistema de looting espetacular, com itens separados por cores de raridade e atributos variados à la Diablo.

Tudo isso funciona muito bem no sistema de missões segmentadas em mapas menores e fechados. Não há um mundo conectado e único, mas os níveis separados abrem espaço para missões secundárias que encorajam o fator replay. Você revisitará a mesma área de vez em quando? Sim, mas essa espécie de repetição é recompensada.

Matar mais e mais demônios em busca de equipamentos melhores é uma fórmula extremamente viciante

Além disso, há as missões crepusculares, que usam a estrutura e level design dos níveis principais da história, mas com um balanceamento diferenciado, deixando a experiência vezes e vezes mais difícil e encorajando a jogatina cooperativa para buscar armas e armaduras melhores, novos espíritos-guardiões ou simplesmente mais XP para evoluir o personagem, algo que pode ser bastante útil para o PVP, que chega em breve.

Há muitas e muitas armas no game

Coop difícil de funcionar ou um incentivo para novatos?

De todos os pontos de Nioh, o cooperativo é, talvez, o que mais divide opiniões. Particularmente, eu gostei muito do que presenciei. Chamar um amigo e se debulhar nas missões, sejam elas secundárias ou primárias, é incrivelmente divertido. Por essa descrição até parece que não existe nada de ruim, não é? Até seria, se não fosse por dois pontos: a dificuldade não é balanceada e há restrições para entrar em partidas.

Do que muitos podem ver como desencorajador, vou discordar: a dificuldade talvez seja essa mesma. Por quê? Simplesmente para ser encorajador ao novato que só quer experimentar o jogo sem suar. É uma experiência incompleta? Provavelmente. Mas talvez seja a oportunidade para um iniciante na fórmula aprender novas técnicas.

Item necessário para invocar outro jogador

Em outras palavras, pode ser um último recurso para quem realmente gostou do que viu, mas tem dificuldades. Deixando isso de lado, há outro fator que pode ser considerado negativo: apenas jogadores que já passaram da missão que você se encontra podem entrar na sua partida. É um limitador? Certamente, mas isso também impede que um usuário que esteja no começo do jogo pule para missões muito além. De qualquer forma, você não depende só de amigos e pode contar com jogadores aleatórios. No final das contas, isso variará de pessoa para pessoa.

Um ponto importante: Nioh não quer frustrá-lo

A grande verdade é que a dificuldade de Nioh é oito ou oitenta e vai servir para veteranos e novatos na fórmula. Caso queira todo o desafio possível, basta seguir o caminho do lobo solitário. Caso queira uma coisa mamão com açúcar, chame um colega para ajudá-lo no cooperativo para facilitar as coisas.

Com a paciência dosada, você não vai se sentir frustrado em Nioh

A melhor parte de tudo é que, mesmo para o jogador que joga sozinho, a frustração nunca será grande demais. Todos os chefes sempre ficam próximos de checkpoints, algo que não tira a dificuldade geral nem a vontade de persistir em um momento extremamente difícil. Dessa forma, você não precisa ter o medo de perder a recompensa ou tentar algo novo e morrer em um só golpe.

Caso empaque em algum ponto, você pode upar em missões secundárias ou chamar um amigo para ajudá-lo

Sinceramente, creio que a palavra versatilidade é a que melhor define a experiência de Nioh. O ponto principal é não afastar ninguém, mesmo que pareça uma fórmula de nicho. É comum ouvir pessoas que se interessam por Dark Souls dizerem: “Ah, parece legal, mas jogo para me divertir, e não para passar raiva”. O game consegue agradar gregos e troianos, oferecendo desafio para quem procura e diversão para quem quer levar a jogatina de forma mais leve.

Para ajudá-lo, há uma sequência de tutoriais bem grande e recompensadora para livrá-lo do aperto. Todos os elementos do jogo, sejam eles práticos ou teóricos, estão registrados. Portanto, se você se sentir perdido em qualquer momento, há uma ajuda de fácil acesso para relembrar algumas mecânicas ou até mesmo partes da história.

Direção de arte soberba

Um grande ponto positivo importante de Nioh é o visual do game, que conta com uma direção de arte incrível capaz de recriar muitos cenários do Japão do século XVII. Inspirado, o design dos inimigos, os traços e característica dos personagens do enredo e todo o mapa são extremamente bem construídos.

Os gráficos de Nioh são excelentes

A real é que Nioh é um jogo muito bonito, mesmo que tenha algumas texturas lavadas de vez em quando ou não traga os requintes visuais. Nada que ofusque a experiência; você dificilmente vai encanar com isso porque vai estar ocupado com coisas muito mais importantes. Para completar, os loadings são extremamente rápidos e não encontrei nenhum bug durante a jogatina.

O legal é que a Koei Tecmo deixa o jogador decidir se a prioridade da experiência é a resolução ou a taxa de quadros por segundo, deixando uma personalização excelente para o jogo de ação. A dublagem é outro ponto que vale destaque, já que Nioh faz questão de diferenciar as vozes em japonês e inglês sem forçar um cenário em que todo mundo fale a mesma língua. Atenção aos detalhes é algo que não falta por aqui.

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Vale a pena?

Se você quer embarcar em uma jornada de dezenas de horas bem desafiadora, com muita variedade de gameplay e de conteúdo, um sólido sistema de combate e uma progressão viciante, Nioh é um dos candidatos a jogo do ano e um prato cheio para os amantes do gênero. Vou além: o game é a entrada perfeita dos novatos na fórmula viciante.

Durante todas as horas que passei jogando, a frustração não chegou em momento algum. Muito pelo contrário: cada vez mais quis avançar e ver o que a aventura aguarda. A recompensa de cada chefe derrotado e equipamento novo no fim de uma missão é o suficiente para mantê-lo entretido. O gênero é viciante, empolgante e extremante cativante.

Existem ressalvas? Sim, algumas pequenas como em qualquer jogo. Talvez a história poderia ter mais elementos cinematográficos e o sistema de coop poderia ter opções para agradar a todos, mas isso não é algo que estrague de forma alguma a experiência. Mesmo com pequenos pontos negativos, eu simplesmente não queria mais desligar o console e parar de jogar. No final, Nioh não é uma cópia de Dark Souls no Japão: é a reinvenção de uma fórmula consagrada. Certamente, uma marca na história dos gmaes.

Sim, a nossa análise do Nioh demorou um pouco mais que o normal. Para compensar essa demora, vamos inaugurar aqui uma novidade: um segundo olhar sobre o mesmo jogo por Bruno Micali, um novato nessa fórmula Souls, oferecendo, assim, um contraponto de ideias. Frisamos que isso não vai acontecer em todos os casos e ainda estamos estudando o formato, portanto, não deixe de dar seu feedback, que é o mais importante, a respeito desse modelo.

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Por Bruno Micali: audacioso, Nioh mudou minha visão

Chego ao trabalho por volta de 10h30 da manhã todos os dias. Em meio a notícias, textos, revisões e um pouco de jogatina, tento me embrenhar nas promoções para buscar minhas próximas aquisições e, assim, montar uma listinha de prioridades. Isso geralmente acontece porque, por mais que existam inúmeras opções por aí, nada tem me prendido o suficiente.

Entre 19h e 19h30, pego minhas coisas, desligo minha máquina e sigo para casa. Deslizo a chave pela fechadura, faço minha entrada pela cozinha, vou até meu quarto, tiro o par de tênis, tomo um banho, janto e, enfim, tenho minhas três ou quatro horas de lazer diárias. É o momento de decidir entre a cruz e a espada, ou melhor, entre o video game e a Netflix. Ultimamente, a Netflix tem sido uma companheira mais diligente.

Após a ressaca de The Witcher 3, que foi longa, homérica e quase interminável, embarquei em mundos abertos do calibre de Mad Max, Watch Dogs 2, Just Cause 3, Fallout 4, Assassin’s Creed Syndicate, Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, Need for Speed, entre outros. E não necessariamente nessa ordem, é claro. Gosto de colecionar mundos abertos como se fossem bichinhos de estimação ou chaveirinhos de mochila.

Nunca fui um adepto da fórmula Soulsborne

Nunca fui um adepto da fórmula “Soulsborne”. Lembro que me arrisquei a explorar os calabouços de Demon’s Souls em um já longínquo 2012, quando Dark Souls já havia dado o ar de sua graça e conquistado popularidade suprema no ocidente. A From Software admitiu que “subestimou” a própria fórmula e duvidou do estrondoso sucesso – inesperado por eles, pelos jogadores e pela indústria – que teria em uma escala mundial.

Foi difícil engolir a receita de bolo...

Aí vieram Dark Souls 2, que tratou de botar a franquia no pódio dos campeões, e Dark Souls 3, que representou a consagração da fórmula numa dimensão que pulou todos os abismos da dificuldade. No meio desses dois, um rasgante Bloodborne – rasgante de almas, cortante de paciência e gélido às nossas habilidades – é lançado em uma roupagem gótica-vitoriana que serviu como colírio aos olhos. Difícil, intenso e igualmente visceral à fórmula Souls, mas com suas próprias características e seus méritos exclusivos.

Dark Souls 2: foi difícil de engolir a fórmula

Borrei as cuecas de tanta tensão ao atravessar os nefastos corredores daquela atmosfera absurdamente sombria com tantos ecos de sangue acumulados. Parei na quarta boss, a Vicar Amelia, após ter tido uma mãozinha de um amigo no coop – o mesmo redator que vos escreve aqui a análise do Nioh, Vinícius Munhoz –, mas acabei desistindo.

Apesar de Bloodborne ser teoricamente mais acessível que a franquia Souls, o ritmo não foi didático o suficiente para me convencer a gostar da fórmula

Apesar de o jogo ser teoricamente mais acessível que a franquia Souls, o ritmo não foi didático o suficiente para me convencer a gostar da fórmula – ou sequer entendê-la. Noobice mesmo, vício em outros gêneros, preguiça, o que for. Não me puno por isso, mas olho de longe, de camarote, admirando um produto que “não faz meu tipo, mas parece incrível” e, ao mesmo tempo, lamentando por não ter ido adiante com ele.

Nioh: uma nova chance

Eis que, nesse amálgama de mundos abertos e jogos mais fáceis que sal em lesma, surge Nioh. Bradando espadas, lanças, machados, katanas, shurikens, bastões ou os próprios punhos, William não baixou a guarda diante da mitologia japonesa e de todo aquele feeling de Onimusha para enfrentar demônios que nasceram de um criativo imaginário da equipe de ilustradores e programadores da Koei Tecmo.

O entendimento de uma nova forma de jogar

É como diz o pergaminho artístico: dê o pincel e a aquarela na mão do artista e o deixe criar à vontade. Assim foi a liberdade inventiva da equipe: saber se inspirar numa fórmula existente – toda essa receita descrita acima – e, ao mesmo tempo, implementar sua própria marca, que também tem nítidas influências de Tenchu, Ninja Gaiden, Shinobi e outros clássicos da nossa era saudosa.

Nioh é diferente. Ele dá a mão ao jogador e depois tira. Ele recompensa para punir em seguida. Ele pune para beneficiar. E, no final das contas, o mais importante: ele beneficia com o único propósito de divertir. Viciante, visceral, intenso, hardcore, acessível e, de certa forma, saudosista: Nioh é um mergulho na mitologia japonesa que sabe explorar o lado nefasto do folclore nipônico sem agredir o conhecimento do jogador. Mas, ao mesmo tempo, exigindo muito dele.

Nioh tem uma curva de aprendizado que não tira sarro da sua cara e nem chuta você igual a um vira-lata desamparado

Comecei a me encantar pelos tutoriais nos dojos, pela possibilidade de me movimentar com mais rapidez baseado na minha postura, pelo benefício da escolha, pelo looting encantador e por uma curva de aprendizado que não tira sarro da sua cara e nem chuta você igual a um vira-lata desamparado. Nioh é, definitivamente, o melhor de vários mundos. É difícil, médio e fácil, tudo ao mesmo tempo, em um ritmo constante e inconstante, em um combate incessante e que deixa William, um mero ex-mandado do governo inglês, com cara de aprendiz do Musashi.

Sensação recompensadora: finalmente descobri

Desde o começo, meus olhos se sentiram atraídos por Nioh. Não sei se foi a nostalgia de Tenchu, o favoritismo de Onimusha ou as saudades de Ninja Gaiden 2 e Sigma da geração passada. Eu simplesmente fui com a cara dele mais do que qualquer Dark Souls ou Bloodborne.

Quando enfrentei aquele maldito demônio do barco, na primeira fase, após ter morrido umas duas ou três vezes, comecei a refletir sobre o que tinha feito de diferente para avançar. Meu amigo traçou a estratégia para mim: corra, dê um golpe e recue. Corra, dê um golpe e recue. Siga com essa tática até o bicho morrer. Dito e feito: consegui de primeira. Foi fácil, ridiculamente fácil.

E tudo porque usei o método correto de confronto. E aí parece que uma ficha entalada no meu cérebro caiu e me fez entender toda uma fórmula que já existe há muitos anos. É como se eu estivesse vislumbrando um novo horizonte, uma forma inédita de jogar. Em que a tensão, aliada a uma boa estratégia e mera paciência, gera o prazer de rejogar. Parece que qualquer outro game ficou fácil – ou simplesmente entediante.

E aí agora, e tão somente agora, eu começo a entender a doença que é essa praga da fórmula From Software. Esse vício inexplicável que os fãs da receita têm. Que foi aplicada com maestria e assinatura própria pela Koei Tecmo em Nioh. Atrasado, reconheço, quero agora degustar Dark Souls e Bloodborne do jeito que eles merecem.

Nioh é um suprassumo desse gênero. É RPG, é ação, é hack’n’slash, é exploração, é tudo que você deseja com um ingrediente oriental e uma curva de aprendizado que, enfim, teve a competência de me fazer entender essa fórmula. Estou completamente viciado, com mais de 50 horas de jogo, no level 40 e na segunda metade da aventura. Somado a tudo isso temos uma narrativa muito mais guiada e riquíssima em boas referências.

Eu tenho o seguinte e humilde conceito: a partir do momento em que um game consegue me prender por dezenas de horas e me deixa morrendo de ansiedade para ir embora do trabalho, chegar em casa e jogar, é porque ele atingiu o ápice. No final das contas é isso. No fim do dia é isso. Nioh é um influenciado e um influenciador. Eu não consigo imaginar uma nota menor que 100 para ele. Tanto que nem citei as eventuais ressalvas que o jogo tem. Elas existem, os gráficos são imperfeitos, mas nem percebi. Passou que nem mosca. Nioh não é só a porta de entrada dos Yokai; é o convite a um novo entendimento na forma de jogar.

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Lembrete: pela primeira vez, fizemos uma análise colaborativa. Coincidentemente, a nota foi idêntica de ambos os redatores, mesmo que cada um de nós tenha uma bagagem e uma visão diferente da fórmula de Nioh. Isso significa que o jogo tem esse grau de excelência para todos os jogadores? Certamente não. Atribuir uma nota numérica a uma experiência tão única de cada jogador é sempre bem complicado, ainda mais em casos como esse, portanto, é sempre importante respeitar a opinião de todos e promover o debate educado.

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Pontos Positivos
  • História intrigante e muito bem guiada
  • Sistema de combate extremamente robusto, caprichado e acessível
  • Grande variedade de inimigos e equipamentos, com looting impecável
  • Missões secundárias expressivas e que incentivam o replay
  • Exploração estimulante
  • Tutorial excelente e recompensador
  • Gráficos de ótima qualidade e que rodam em até 60 fps
  • Livre de bugs e com loadings muito rápidos
  • Coop é bem divertido
Pontos Negativos
  • Texturas lavadas em alguns pontos