Uma fotografia icônica do primeiro Picturephone produzido pela AT&T (Fonte da imagem: TDI)

Hoje em dia, a única coisa que você precisa fazer caso queira conversar em vídeo com alguém é ligar sua webcam e usar o Skype ou o Google Hangouts. Mas as coisas nem sempre foram tão fáceis assim. Houve um tempo em que era necessário se deslocar até um prédio da AT&T – hoje conhecida como uma operadora de telefonia móvel – e pagar cerca de US$ 610 (R$ 1,3 mil) para usar um dispositivo estranho que só conseguia exibir imagens em preto e branco e a 30 frames por segundo. Por apenas quinze minutos.

O cenário descrito acima pode parecer um absurdo, mas acredite: essa era a realidade dos cidadãos estadunidenses a cinco décadas atrás. Revelado publicamente em 20 de abril de 1964, o aparelho batizado como Bell’s Mod I Picturephone é considerado o primeiro videofone a fazer sucesso comercial e o responsável por incentivar a indústria mundial a investir pesado em pesquisas no segmento de videoconferências.

O produto foi lançado pela AT&T em uma época favorável: ocorria em Nova York a Feira Mundial de 1964 (mais conhecida como Expo 64), o que reunira milhares de turistas na cidade norte-americana. Qualquer pessoa interessada em testar a novidade podia entrar em uma fila interminável para ter a chance de conversar durante dez minutos com um completo estranho posicionado em outro Picturephone, que estava sendo exibido simultaneamente na Disneylândia (Califórnia).

Picturephone Mod I em plena sessão de videoconferência; repare no formato curioso do aparelho (Fonte da imagem: Mashable)

Versão comercial e primeiro desastre

Em 24 de junho do mesmo ano, a AT&T iniciou seus serviços comerciais com o tão curioso Picturephone. Além das unidades previamente posicionadas em Nova York, a companhia resolveu distribuir mais aparelhos em Washington e Chicago. Os interessados em usar o gadget precisavam fazer reservas com antecedências e pagar o preço absurdo de US$ 16 por três minutos de conversação. O plano mais comum era o de 15 minutos, que custava US$ 80 – quantia que hoje seria equivalente a US$ 610 ou R$ 1,3 mil.

Olhando para o aparelho sob uma perspectiva contemporânea, fica difícil não dar uma risadinha de suas especificações técnicas – especialmente quando temos em vista o valor exorbitante que as pessoas gastavam para utilizá-lo.

O Picturephone Mod I tinha uma tela monocromática de 13 cm x 12 cm e exigia que seu usuário permanecesse praticamente imóvel para que sua câmera de baixíssima resolução pudesse enquadrar seu rosto com sucesso. Além disso, as conexões eram um tanto instáveis e podiam cair ao mínimo de interferência que fosse.

Para a infelicidade dos engenheiros responsáveis pelo invento, ele não conseguiu se firmar no mercado. O primeiro modelo do Picturephone quase não obteve clientes e logo foi tido como um experimento fracassado – o que não impediu a AT&T e outras companhias de telefonia a continuar investindo nesse segmento.

Segunda versão do Picturephone tinha design mais atraente (Fonte da imagem: Mashable)

E mais tentativas...

A companhia logo lançou o Picturephone Mod II, uma versão levemente aprimorada de seu aparelho e voltada especialmente para o mercado corporativo. O aparelho – que possuía um design bem mais atraente, mas tinha um hardware idêntico ao modelo anterior – começou a ser vendido diretamente para grandes empresas, em vez de ser distribuído em forma de serviço para a população em geral. Outro fracasso: estima-se que a AT&T gastou mais de meio bilhão de dólares com o invento entre 1966 e 1973, sem ter retornos satisfatórios.

Provando que desistir é para os fracos, a companhia fez outra tentativa em julho de 1982, lançando o Picturephone Meeting Service (ou Serviço de Reuniões Picturephone, em uma tradução livre). Uma videoconferência de uma hora entre Nova York e Los Angeles custava pelo menos US$ 2,3 mil – caso a companhia quisesse, era possível comprar o equipamento por mais de US$ 117 mil ou alugá-lo por aproximadamente US$ 18 mil. Não é preciso dizer que não deu certo, né?

A última tentativa da AT&T foi em janeiro de 1992: o VideoPhone 2500 era compacto e possuía uma pequena tela LCD capaz de exibir imagens em cores, mas custava US$ 1,5 mil em seu lançamento. O preço logo foi reduzido para US$ 1 mil, e o produto posteriormente foi oferecido sob o sistema de locação por US$ 30 a diária. Ao perceber que ninguém se interessaria pelo gadget, a companhia finalmente desistiu do Picturephone.

VideoPhone 2500 foi a última tentativa da AT&T (Fonte da imagem: Gaétan Cambra)

Era realmente necessário?

Especialistas afirmam que o problema da AT&T foi acreditar que o Picturephone era, de fato, um aparelho indispensável para a população mundial e que o problema estava apenas na velocidade, na resolução e em outros aspectos de hardware de seus equipamentos. A verdade é que poucas pessoas estavam (e ainda estão) dispostas a pagar caro por não apenas um, mas dois dispositivos – um para você e outro para quem você quer manter contato – apenas para conversar em vídeo com alguém que está longe.

Tudo mudou com o advento da internet e invenção das webcams, que podem ser embutidas em PCs, notebooks, smartphones e tablets – uma vez que você tenha um aparelho com câmera e acesso à rede, tudo o que você precisa é de um software (geralmente gratuito) para conversar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo.

Obviamente, se não fossem pelos videofones (que ainda são vendidos e usados para fins específicos, como em portarias), é bem provável que não teríamos o Skype ou o Hangouts nos dias de hoje. Temos que ser gratos pela AT&T – e outras empresas que também perderam dinheiro investindo em rivais para o Picturephone, como a Mitsubishi e a Sony – por ter mostrado para o mundo que conversar por vídeo remotamente é algo útil e bastante divertido.

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