Logo TecMundo
Segurança

GentleKiller: ransomware de grupo cibercriminoso desativa antivírus antes de atacar

Pesquisadores da ESET analisaram o GentleKiller, framework desenvolvido pelo grupo para matar processos de segurança no kernel do Windows antes de iniciar a criptografia.

Avatar do(a) autor(a): Cecilia Ferraz

schedule23/06/2026, às 16:00

updateAtualizado em 23/06/2026, às 21:09

Um dos grupos de ransomware mais ativos de 2026 desenvolveu um conjunto de ferramentas próprias para desativar softwares de segurança – tudo antes de iniciar o processo de criptografia nos sistemas das vítimas. A descoberta é de pesquisadores da ESET, que analisaram o arsenal do The Gentlemen, uma operação de ransomware-as-a-service (RaaS). O kit foi batizado de GentleKiller.

A função do GentleKiller é simples de entender. Antes de o ransomware começar a criptografar os arquivos da vítima, ele entra em ação para apagar do caminho qualquer software de segurança que possa interromper o ataque.

smart_display

Nossos vídeos em destaque

A ESET identificou que o framework mira mais de 400 processos de cerca de 48 produtos de segurança diferentes. Entre os alvos estão Microsoft Defender, CrowdStrike, Sophos e até ferramentas da própria ESET.

gentlemens edr.png
O GentleKiller em ação: disfarçado de ferramenta da Kaspersky, o malware varre processos ativos a cada dois segundos e encerra qualquer software de segurança que encontrar em execução. Imagem: ESET.

Como o GentleKiller consegue desativar um antivírus

Para entender o ataque, é preciso saber que um sistema operacional funciona em camadas. Os programas comuns, como navegadores e antivírus, operam em uma camada chamada "modo usuário". Já o kernel é o núcleo do sistema, a camada mais profunda, onde o sistema operacional tem controle total sobre o hardware.

O GentleKiller usa uma técnica chamada BYOVD, que significa "traga seu próprio driver vulnerável", em tradução livre. Um driver é um software que permite que o sistema operacional se comunique com um hardware ou componente específico.

O ataque funciona assim, o grupo carrega um driver legítimo, assinado digitalmente por um fabricante real, mas que contém uma falha de segurança conhecida. Por ser assinado, o Windows aceita o driver sem reclamar. Uma vez dentro do kernel, o GentleKiller usa essa falha para encerrar os processos de segurança a partir de dentro do núcleo do sistema.

Softwares de segurança que rodam no modo usuário não conseguem impedir ações que vêm do kernel.

gentlemens edr (1).png
Trecho de código descompilado de uma variante do GentleKiller que se passa pelo Kaspersky 2026; a string "Stariy Ded Edition" é parte do disfarce usado para enganar sistemas de detecção. Imagem: ESET.

Oito variantes, cada uma com um disfarce diferente

A ESET encontrou pelo menos oito variantes do GentleKiller. Cada uma abusa de um driver diferente e se disfarça de um produto legítimo, com nomes copiados de marcas conhecidas como Valorant, FACEIT e Kaspersky.

Para dificultar a detecção, os arquivos carregam informações de versão falsas, assinaturas digitais inválidas copiadas de outros softwares e ícones das marcas que imitam. Os binários ainda são empacotados com ferramentas comerciais para dificultar a análise.

gentlemens edr (2).png
Interface de linha de comando do builder do GentleKiller, que permite aos operadores configurar e gerar variantes personalizadas do EDR killer para cada ataque. Imagem: ESET.

O grupo também age rápido. Quando uma nova vulnerabilidade em um driver é divulgada publicamente, os operadores do The Gentlemen conseguem transformá-la em uma variante funcional do GentleKiller em poucos dias.

Um arsenal que vai além do GentleKiller

O que diferencia o The Gentlemen da maioria dos grupos de ransomware é que os próprios operadores constroem e mantêm as ferramentas de ataque. Na maior parte das operações RaaS, cada afiliado precisa encontrar suas próprias soluções para burlar sistemas de segurança.

O The Gentlemen oferece um portfólio completo. Além do GentleKiller, o grupo distribui o HexKiller, antes associado ao grupo Warlock; o ThrottleBlood, visto em ataques do MedusaLocker e do DragonForce; e o HavocKiller, que explora um driver de áudio da Huawei. As três ferramentas externas foram adaptadas com a camada de evasão padrão do grupo.

malware.png
O The Gentlemen surgiu no final de 2025 e se tornou um dos grupos de ransomware mais ativos de 2026, oferecendo a afiliados uma divisão de lucros de 90% e um arsenal próprio de ferramentas para desativar softwares de segurança.

O grupo surgiu no final de 2025, fundado por um ex-afiliado do Qilin, e atrai parceiros com uma divisão de lucros de 90%, número incomum no setor. Ao contrário de muitos grupos, não concentra ataques nos Estados Unidos. Seus alvos estão distribuídos pelo Sudeste Asiático, América do Sul e Europa Ocidental, selecionados a partir de configurações expostas de dispositivos FortiGate.

Em maio deste ano, um vazamento de dados internos confirmou o modelo operacional. O líder do grupo discutia abertamente a manutenção dos pacotes de EDR killers.

O que os defensores podem fazer

ilustracao-de-cadeado-virtual-em-cima-de-um-teclado
Pesquisadores da ESET identificaram que o GentleKiller mira mais de 400 processos de cerca de 48 produtos de segurança, incluindo Microsoft Defender, CrowdStrike e Sophos.

A ESET afirma que entender como o GentleKiller funciona ajuda equipes de segurança a se prepararem mesmo para variantes ainda não criadas.

Na prática, as defesas contra ataques BYOVD passam por bloquear drivers com vulnerabilidades conhecidas e configurar alertas para quando um processo de segurança protegido for encerrado de forma inesperada. O sinal de alerta, nesse caso, é justamente o silêncio repentino do antivírus.

Acompanhe o TecMundo nas redes sociais. Inscreva-se em nossa newsletter e canal do YouTube.

star

Continue por aqui