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Segurança

Hacker de 15 anos representará o Brasil na Olimpíada Internacional de Cibersegurança 2026

Autodidata desde os 13 anos, o campineiro Felipe Magalhães da Cruz foi selecionado para competir na ICO 2026, na Tunísia, na categoria mais técnica da competição: exploração de vulnerabilidades em sistemas.

Avatar do(a) autor(a): Cecilia Ferraz

schedule09/06/2026, às 18:45

Fernanda Magalhães não entende muito de cibersegurança nem sabe muitos termos técnicos. Mas quando soube que o filho havia sido selecionado para representar o Brasil nas Olimpíadas Internacionais de Cibersegurança (ICO), ela chorou.

"Olhar para um menino que passou tantas horas estudando sozinho dentro de um quarto e vê-lo chegar tão longe através do próprio esforço", ela diz, pausando. "É difícil colocar em palavras."

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O menino tem 15 anos, se chama Felipe Magalhães e mora em Campinas, interior de São Paulo. Em junho, ele embarca para a Tunísia para competir na ICO 2026, realizada entre os dias 29 e 30 de junho em Hammamet, ao lado de estudantes de diversas nações.

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Felipe Magalhães, 15 anos, de Campinas (SP) foi selecionado para representar o Brasil na ICO 2026, na Tunísia.

O que é a ICO 2026?

A competição foi criada em 2025 pelo professor Tan Sun Teck, de Cingapura, com o modelo das olimpíadas científicas internacionais. O evento reúne jovens de até 20 anos em desafios de cibersegurança que exigem domínio de criptografia, engenharia reversa, forense digital e exploração de vulnerabilidades em sistemas. O objetivo do projeto é promover os estudos de cibersegurança e o trabalho em equipe.

A ICO 2026 acontece em dois dias de competição, cada um com sete horas de duração. Em cada dia, os participantes enfrentam três desafios independentes, divididos em subtarefas que valem pontos individuais. O formato segue o modelo “Pegue a Bandeira” (CTF): basicamente, o competidor precisa encontrar e submeter uma sequência específica de caracteres, chamada de flag, que comprova que ele resolveu aquele desafio. A pontuação final é a soma dos pontos dos dois dias, e não há bônus por velocidade, o que conta é resolver. 

Hacker não é a mesma coisa que cibercriminoso

Nesse contexto, também é importante ressaltar a diferença entre hacker e cibercriminoso – termos que se misturam, mas não significam a mesma coisa. Hacker é um entusiasta da cibersegurança, que entende sobre sistemas, tecnologia e procura falhas para corrigi-las. O cibercriminoso é aquele que também tem muito conhecimento, mas usa-o para seu benefício próprio, invadindo sistemas ou enviando conteúdos maliciosos para terceiros, para tentar ganhar dinheiro ou intimidar vítimas.

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O imaginário popular associa hackers a figuras encapuzadas em quartos escuros. Na prática, o trabalho envolve horas lendo documentação e depurando código.

As habilidades de hacker estão sendo muito buscadas no mercado, já que esses especialistas podem se tornar profissionais que avaliam a segurança de redes e sistemas, pesquisadores e até peritos criminais.

Uma das disciplinas mais difíceis da cibersegurança

Felipe compete na categoria que mais domina, Exploração Binária, conhecida no jargão técnico como “Pwn”. Basicamente, é a arte de encontrar e explorar vulnerabilidades em programas de computador, modificando ou interrompendo seus comportamentos esperados.

É uma disciplina próxima do funcionamento interno do processador, que exige tanto raciocínio matemático quanto conhecimento profundo de arquitetura de computadores. Felipe começou a estudá-la há menos de dois anos.

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Binary Exploitation, a especialidade de Felipe, é uma das categorias presentes na ICO 2026 — e uma das mais técnicas da área de cibersegurança.

De documentários a certificações: dois anos de estudo solo

A trajetória começou, como muitas histórias da geração dele, por uma tela. Documentários, vídeos no YouTube, a estética dos filmes de hacker que glamourizam o que na prática é muito mais silencioso. O dia a dia desses profissionais inclui horas lendo documentação, depurando código, tentando entender por que uma exploração não funciona. "Era mais um hobby", ele conta. "Algo que eu fazia de vez em quando por curiosidade."

A curiosidade virou uma rotina intensa de estudos. Felipe passou a usar plataformas como Hack The Box e TryHackMe, ambientes online onde hackers do mundo inteiro resolvem desafios de segurança em troca de pontos e reputação.

Lá, ele tirou a certificação Desec Certified Penetration Tester (DCPT), a primeira certificação de pentest da América Latina. Hoje, ela é utilizada para comprovar a capacidade técnica de profissionais em testes de invasão. Há alguns meses, percebeu que queria trabalhar com isso.

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A ICO 2026 reúne jovens de até 20 anos em desafios que exigem domínio de criptografia, engenharia reversa, forense digital e exploração de vulnerabilidades em sistemas.

Um dos marcos dessa trajetória foi um desafio classificado como Hard na Hack The Box, lançado recentemente. Felipe tentou resolvê-lo no dia do lançamento, quando a competição pelo ranking é mais acirrada e conseguiu uma boa colocação. Mas o que mais o satisfez foi o script que escreveu para chegar lá.

A solução envolvia uma técnica chamada “House of Apple2” executada em três estágios, um encadeamento de manipulações de memória que exige planejamento preciso e execução limpa. "Foi um desafio que me deixou bastante satisfeito quando terminei, principalmente pelo script que consegui desenvolver”, afirma Felipe.

Mãe coruja respeita espaço e liberdade de estudos

Em casa, Fernanda observa tudo isso de longe e de perto ao mesmo tempo. De longe porque não entende a linguagem, de perto porque conhece o filho. De acordo com a mãe, Felipe é um rapaz muito organizado e responsável pela própria rotina de estudos.

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Felipe organiza a própria rotina de estudos e dedica grande parte do tempo livre à cibersegurança.

"Ele chega da escola, almoça, descansa um pouco e organiza a própria rotina", ela conta. "Grande parte do que ele conquistou veio de horas e horas de estudo independente, disciplina e paixão pelo que faz." Na escola, diz ela, Felipe raramente precisa estudar além do que é apresentado em aula, o que libera o restante do tempo para a cibersegurança.

A mãe de Felipe conta que não houve ninguém a quem ele ‘puxar’. “O Felipe sempre foi muito curioso. Não houve uma pessoa específica que o inspirou ou o direcionou para a área. Na verdade, ele foi o protagonista da própria história e descobriu sozinho sua vocação”, ela explica.

Fernanda entende que seu papel não foi de estudar com ele, e confessa que nem entende muito da área. Na verdade, o que pode fazer pelo menino foi “apoiar, incentivar e mostrar que tudo o que estivesse relacionado ao estudo, à construção de uma profissão e ao futuro dele teria o meu apoio”.

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Especializado em Binary Exploitation, Felipe desenvolve a maior parte dos seus exploits em Python e estuda C para aprofundar o conhecimento em sistemas de baixo nível.

Convite via Discord

A convocação para a ICO chegou por um caminho curioso, mas comum para a comunidade hacker e para os adolescentes – um servidor de Discord. Felipe conta que recebeu uma mensagem procurando jovens entre 13 e 19 anos com experiência na área, e membros do servidor o marcaram na conversa. Ele apresentou suas habilidades, seus projetos, foi colocado em contato com os responsáveis pela equipe brasileira e acabou selecionado. Simples assim, e ao mesmo tempo não.

Ele admite o nervosismo. "É uma responsabilidade muito grande", diz. A mãe trabalha isso com ele nas conversas que têm diariamente. Diz para ele imaginar que está resolvendo os desafios que já fazem parte da rotina. “Mais importante do que qualquer colocação é voltar para casa orgulhoso do próprio caminho”, afirma Fernanda.

Felipe costuma brincar que, quando ganhar seus milhões trabalhando com tecnologia, vai cuidar dela. Fernanda ri com a ambição, mas no fundo, reconhece nessa brincadeira o mesmo menino que acreditou no próprio potencial antes de qualquer reconhecimento externo, antes do Discord, antes da certificação, antes da Tunísia. Quando ainda era só um garoto num quarto, estudando sozinho uma coisa que quase ninguém ao redor entendia.

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A convocação para a ICO chegou por um servidor de Discord, plataforma comum na comunidade hacker, onde membros marcaram Felipe na mensagem que procurava jovens talentos na área.

Para Fernanda, a melhor forma de apoiar um filho com um sonho específico é dar asas a esse sonho.

“Nem sempre temos condições de oferecer tudo o que eles desejam, mas podemos acreditar, incentivar, caminhar junto e sonhar junto também. Muitas vezes o que uma criança ou adolescente precisa não é de alguém apontando o caminho, mas de alguém dizendo: "Eu acredito em você." Mas esteja sempre por perto.Porque apoiar não é controlar os sonhos dos nossos filhos. É estar ao lado deles enquanto aprendem a transformá-los em realidade”, conclui Fernanda.

É possível apoiar a história de Felipe e sua trajetória para a Tunísia, que começa dia 27 de junho. Acesse a Vakinha, em nome de Fernanda Magalhães, para contribuir.

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