Existe uma categoria de companhias digitais que são especializadas em lidar com dados pessoais e hábitos de consumo de pessoas. São os data brokers, serviços de importância para áreas como finanças ou marketing e que operam em uma linha tênue, que pode se transformar em invasão de privacidade e riscos para a sua proteção digital.
Mas o que exatamente são os data brokers e como eles usam seus dados? A seguir, conheça mais sobre essa categoria de empresas e como elas sabem tanto sobre você, mesmo sem o usuário sequer ter ouvido falar nelas.
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O que são data brokers
Data brokers são empresas que coletam, reúnem de forma organizada e vendem informações pessoais de indivíduos para terceiros — normalmente, de usuários de plataformas digitais para outras companhias interessadas.
O nome mistura a palavra dados em inglês com o termo para agentes, intermediários ou corretores, sendo esse o papel do serviço. No fundo, ele serve para criar perfis detalhados de consumidores com base em um conjunto de informações, posteriormente comercializando esses "pacotes" detalhados.
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A coleta ocorre por meio de múltiplas fontes que podem ser públicas, fruto de parcerias comerciais com outras empresas de políticas mais flexíveis de privacidade ou via rastreamento online, em ações que muitas vezes são realizadas sem consentimento explícito dos usuários.
Algoritmos são usados para "cruzar" e enriquecer esses dados, gerando categorias de pessoas a partir de variáveis como comportamento e interesses.
Data brokers: é legal ou proibido?
Tecnicamente, a atividade de coleta de dados, perfilamento de consumidores e venda dessas informações para empresas e prestadoras de serviços não é ilegal. Ou seja, é possível realizar o trabalho de um data broker sem que as práticas sejam consideradas criminosas.
Porém, isso só é possível caso as companhias sigam legislações como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), principal regulamentação de privacidade em território brasileiro. Ela está em vigor no Brasil desde 2021 e funciona a partir da fiscalização de agentes da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
Esse conjunto de diretrizes define como pode ocorrer a coleta, tratamento e compartilhamento de dados pessoais, incluindo a consentimento ou interesse por parte do usuário. Porém, não há uma lei federal dedicada só a esse tipo de prática.
Os controladores ou operadores de dados precisam seguir normas mais gerais de transparência e segurança. As medidas da LGPD valem mesmo que elas sejam companhias estrangeiras, desde que processem dados de brasileiros ou ofertem produtos e serviços no país.
Que tipo de dados os data brokers coletam
As companhias especializadas na obtenção de dados para venda buscam informações valiosas no processo de construção de perfis de consumo e na formação de um "desenho" o mais completo possível do consumidor.
Isso significa que data brokers buscam a maior quantidade de detalhes possível na internet, a partir de bases públicas ou privadas e que contenham informações pessoais, profissionais e até sobre o comportamento online de um consumidor.
Informações pessoais mais comuns
Entre os dados que mais costumam ser visados por data brokers, é possível identificar algumas categorias. Normalmente, essas empresas estão atrás dos seguintes conjuntos de detalhes:
- Dados castrais básicos, como nome completo, idade, gênero, estado civil e CPF (ou equivalentes);
- Formas de contato ou localização, como endereço atual, número de telefone, e-mail e perfis vinculados a redes sociais;
- Comportamento digital, como histórico de navegação, buscas e compras, interações em redes sociais, forma de uso de apps e até movimentação via GPS;
- Informações financeiras, como histórico de crédito, pontuação em serviços de monitoramento de dívidas, renda estimada, padrões ou preferências de consumo;
- Detalhes governamentais, como situação eleitoral ou em processos judiciais.
Como empresas lucram com seus dados
A principal forma de receita de data brokers está na venda de perfis detalhados e segmentados de consumidores para empresas que usam essas informações.
Esses "pacotes" são importantes para companhias que dependem de dados precisos e em alta quantidade para melhor entender o comportamento do consumidor ou ter formas de contato. A comercialização é feita com empresas de marketing, do mercado financeiro, seguradoras e até mesmo governos.
Venda de informações para anunciantes
Um caso recente envolvendo esse tipo de negociação foi registrado em janeiro de 2026, quando uma empresa de coleta e comercialização de dados foi multada na Califórnia por vender informações sensíveis nos Estados Unidos sobre pacientes diagnosticados com Alzheimer e outras condições graves de saúde.
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Esses dados podem ser utilizados por empresas farmacêuticas ou planos de saúde para direcionar publicidade ou ofertas de venda de medicamentos ou coberturas, por exemplo, sem qualquer consentimento prévio dos envolvidos.
As informações têm utilidade para campanhas políticas, que estudam faixas demográficas e perfis de eleitores em potencial que precisam receber mensagens sobre determinados assuntos — seja por estarem indecisos ou priorizarem temas como segurança ou economia, tendo mais chance de votar em um candidato que fala sobre o tema.
Uso de dados para segmentação
Data brokers também podem cruzar dados demográficos, de consumo e hábitos digitais para gerar rótulos. Dessa forma, é possível classificar grandes grupos de pessoas em subgrupos que receberão um certo tipo de tratamento ou forma de contato.
As "etiquetas" podem incluir grupos como o de pessoas que gastam muito, fãs de saúde e bem-estar ou clientes premium. Os dados passam por uma análise de padrões de algoritmos e determinam se você terá uma oferta de crédito ou empréstimo aprovada, por exemplo, ou qual é a cobertura do plano de saúde mais vantajosa e menos arriscada para a prestadora de serviços.
Impactos de data brokers na sua segurança digital
Há uma série de riscos na cibersegurança em quem tem dados coletados por data brokers, em especial pelo próprio método de funcionamento desse setor. Ao concentrar uma grande quantidade de informações em um só lugar, às vezes sem a devida proteção que elas merecem, ele se torna uma mina de ouro para agentes mal intencionados.
Os possíveis impactos negativos incluem as seguintes consequências:
- Invasão sistemática de privacidade, que expõe detalhes de cotidiano, saúde, finanças e opiniões políticas de forma massiva;
- Risco de invasões a essas bases de dados, que concentram tantos detalhes precisos sobre você — assim como aconteceu em 2017 com a Equifax;
- A obtenção desses dados para serem usados em cibercrimes como fraudes financeiras e roubo de identidade;
- O envio de spam direcionado e disparos massivos não autorizados com base nas suas preferências;
- Consequências sociais como discriminação, viés e piora em atendimentos de marketing, seguros ou crédito, cada vez mais automatizados com base nesses dados.
Operações da Polícia Civil no Brasil em 2020 confirmaram que até mesmo golpes aplicados via WhatsApp se beneficiam da interceptação de dados de data brokers para ter acesso a grandes bases de cadastros e tentar enganar vítimas com base na precisão de informações pessoais.
Como saber se meus dados estão com data brokers?
A grande maioria dos consumidores dificilmente tem acesso a detalhes sobre em que canto da internet estão os dados coletados sobre você e quem já usou tais informações.
Ainda assim, há alguns procedimentos que podem revelar se há informações suas exibidas sem autorização. Um processo simples e eficiente é fazer buscas pelo próprio nome em sites de pesquisa, revelando nos resultados páginas que trazem bases prontas de dados.
É possível também contratar os serviços de empresas especializadas em análise de crédito e dados como o Serasa, que oferecem formas de monitoramento de informações e alertam o usuário sobre possíveis exposições — muitas vezes de forma paga ou com modalidades de assinatura.
Além disso, desconfie se você estiver sendo vítima de tentativas muito frequentes de golpes, como falsas centrais telefônicas de banco. Cibercriminosos tendem a usar bases roubadas de dados obter formas de contato com vítimas em potencial e empresas de oferta de informações são fontes para esses arquivos.
É possível se proteger de data brokers?
Não há como ter 100% de eficácia em escapar de data brokers, em especial se você utiliza a internet com regularidade, acessa plataformas digitais e realiza ações simples no meio digital, como compras, navegação por site e publicações em redes sociais.
Por outro lado, há um conjunto de práticas que auxiliam você a manter o controle sobre quais dados estão expostos e onde eles são encontrados mais facilmente. É recomendável limitar a quantidade de apps instalados ou cadastros realizados e sempre proteger os perfis com senhas únicas e de difícil adivinhação, preferencialmente mantidas em gerenciadores de senhas.
Se achar necessário, adote ferramentas pagas que realizam a exclusão massiva de dados ao procurar por suas informações em múltiplas fontes.
É possível fazer pedidos de exclusão ou não autorização (o chamado "opt-out") de fornecimento dessas informações pessoais em buscadores como o Google ou sites especializados. Isso ajuda a reduzir a visibilidade das suas informações para qualquer interessado, apesar de ser um processo manual e mais trabalhoso.
Como se manter mais seguro digitalmente na era da IA? Saiba dicas e mais detalhes sobre o tema nesta matéria!
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