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Segurança

Possível acordo entre Amazon e governo brasileiro levanta preocupações sobre soberania

Especialistas apontam que o armazenamento de informações sensíveis do Brasil na nuvem da Amazon facilita o acesso do governo dos EUA a elas.

Avatar do(a) autor(a): André Luiz Dias Gonçalves

schedule16/10/2025, às 21:00

updateAtualizado em 18/10/2025, às 12:14

A Amazon Web Services (AWS) está perto de assinar um acordo com o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI) para o armazenamento de dados sensíveis do governo brasileiro, levantando questionamentos sobre a soberania digital. A informação foi divulgada pelo The Intercept Brasil, nesta quinta-feira (16).

Guardar informações da administração federal classificadas como reservadas ou secretas em serviços de armazenamento na nuvem privados não era permitido. No entanto, uma instrução normativa modificando a regra foi publicada na última semana, autorizando a hospedagem desde que em servidores instalados no Brasil.

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Anteriormente, o armazenamento desse tipo de dados do governo em nuvem privada não era permitido. (Imagem: Thapana Onphalai/Getty Images)

Por que isso pode ser um problema?

Como destaca a reportagem, o possível acordo entre AWS e GSI para armazenar dados secretos do governo brasileiro gera preocupações quanto à soberania digital e a segurança nacional. Isso se deve ao contexto geopolítico atual e a reaproximação das big techs com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

  • Lei americana de 2018, o Cloud Act obriga empresas do país a fornecer dados armazenados em seus servidores mesmo que eles estejam instalados em território estrangeiro a partir de ordens judiciais;
  • Além disso, há a Lei de Vigilância Estrangeira (FISA) que autoriza agências de inteligência a acessar dados em casos de suspeita de espionagem ou terrorismo;
  • Sediada nos EUA, a AWS pode ser obrigada a ceder informações secretas do Brasil hospedadas em seus data centers para autoridades americanas que acionarem tais leis;
  • Em depoimento recente na França, um diretor da Microsoft afirmou que as big techs americanas precisam cumprir essas determinações, se requisitadas, inclusive quando há conflito com leis de outros países.

Especialistas entrevistados pela publicação apontam que o Brasil fica exposto a uma série de riscos geopolíticos, pois a Amazon e outras gigantes da tecnologia estão sujeitas a pressões políticas e judiciais dos EUA. Além disso, Trump poderia usar sua influência junto a essas empresas para obter os dados.

Outro detalhe importante é que o atual diretor de segurança da AWS, Sean Roche, já trabalhou na Agência Central de Inteligência americana (CIA). Pesquisadores indicam que isso reforça a posição estratégica da companhia no complexo militar industrial dos EUA.

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Informações sigilosas do governo brasileiro podem ser acessadas por autoridades americanas, segundo especialistas, a partir do acordo. (Imagem: sestovic/Getty Images)

O que diz o governo?

O GSI alegou que a permissão para o armazenamento de dados secretos em nuvens privadas ajuda a estabelecer requisitos de segurança para o tratamento dessas informações, sem afetar a soberania nacional. A entidade não comentou a respeito do acordo com a AWS.

Por sua vez, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) também se posicionou, afirmando que não esteve envolvida na elaboração da instrução normativa, mas que pode entrar em ação se identificar violação das leis nacionais.

Clientes controlam acesso aos dados

Ao TecMundo, a Amazon disse que os clientes do serviço de hospedagem na nuvem têm controle total sobre os dados, sejam usuários comuns ou entidades governamentais. A big tech informou, ainda, que não acessa nem move essas informações sem autorização do proprietário.

“A cooperação técnica da AWS com o GSI do Brasil reflete nosso compromisso em apoiar iniciativas de cibersegurança globalmente. Assim como nossas colaborações com outras agências de segurança nacional em todo o mundo, este acordo tem como foco o compartilhamento de melhores práticas em cibersegurança".

"Os clientes da AWS, incluindo entidades governamentais, mantêm controle total sobre seus dados — é como ter um cofre privado e seguro, que apenas você possui a chave. Os clientes decidem exatamente onde armazenar suas informações, como protegê-las e quem pode acessá-las".

"A AWS não pode acessar, usar ou mover nenhuma informação de clientes sem a permissão explícita deles. Nós protegemos esses dados com múltiplas camadas de segurança, é semelhante a ter vários tipos de fechaduras em uma porta, e mantemos as informações de diferentes clientes completamente separadas por meio de tecnologia de segurança especializada".

“Por fim, a AWS estabeleceu processos para lidar com solicitações governamentais de dados que respeitam tanto as leis locais quanto as internacionais, ao mesmo tempo em que protegem a privacidade dos clientes”.

“Criamos o Global Cybersecurity Program (GCSP) para oferecer às agências uma linha de comunicação direta e consistente com a equipe de Segurança da AWS. Dois exemplos de membros do GCSP são o Dutch National Cyber Security Centrum (NCSC-NL), com quem assinamos uma cooperação em maio de 2023, e a Italian National Cybersecurity Agency (ACN)”.

“Com a guerra na Ucrânia, vimos a importância desse tipo de colaboração. A AWS desempenhou um papel essencial ao ajudar o governo ucraniano a manter a continuidade e fornecer serviços críticos aos cidadãos desde o início do conflito”, disse a big tech.

Sobre as leis americanas citadas no texto, a Amazon informou que o Cloud Act “não concedeu ao governo dos Estados Unidos nenhuma nova autoridade para obrigar provedores a fornecer dados, além de estabelecer proteções legais fundamentais para proteger o conteúdo”.

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Perguntas Frequentes

O que motivou as preocupações sobre soberania digital no possível acordo entre a AWS e o governo brasileiro?
O possível acordo entre a Amazon Web Services (AWS) e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) para armazenar dados sensíveis do governo brasileiro levanta preocupações sobre soberania digital porque a AWS é uma empresa sediada nos Estados Unidos. Leis americanas, como o Cloud Act e a FISA, podem obrigar a empresa a fornecer dados ao governo dos EUA, mesmo que esses dados estejam armazenados em servidores localizados no Brasil.
O que é o Cloud Act e como ele afeta o Brasil nesse contexto?
O Cloud Act é uma lei dos Estados Unidos, aprovada em 2018, que obriga empresas americanas a fornecerem dados armazenados em seus servidores mediante ordem judicial, mesmo que esses dados estejam fora do território americano. Isso significa que, mesmo com os dados do governo brasileiro armazenados em servidores no Brasil, a AWS pode ser legalmente obrigada a entregá-los às autoridades dos EUA.
Por que a mudança na instrução normativa é relevante?
Anteriormente, o armazenamento de dados classificados como reservados ou secretos do governo brasileiro em nuvens privadas era proibido. A nova instrução normativa, publicada recentemente, permite esse tipo de armazenamento, desde que os servidores estejam instalados no Brasil. Essa mudança abriu caminho para o possível acordo com a AWS.
Quais são os riscos geopolíticos apontados por especialistas?
Especialistas alertam que o Brasil pode ficar vulnerável a pressões políticas e judiciais dos Estados Unidos, já que empresas como a AWS estão sujeitas às leis americanas. Além disso, a reaproximação de Donald Trump com as big techs e o histórico do diretor de segurança da AWS, ex-CIA, aumentam as preocupações sobre o uso estratégico dessas empresas no contexto do complexo militar-industrial dos EUA.
A AWS pode acessar os dados do governo brasileiro sem autorização?
Segundo a própria AWS, os clientes têm controle total sobre seus dados e a empresa não acessa nem move essas informações sem autorização. No entanto, especialistas alertam que, em caso de ordens judiciais dos EUA, a empresa pode ser obrigada a fornecer os dados, independentemente da autorização do cliente.
Qual é a posição do GSI sobre o armazenamento em nuvem privada?
O GSI afirmou que a permissão para armazenar dados secretos em nuvens privadas permite estabelecer requisitos de segurança para o tratamento dessas informações, sem comprometer a soberania nacional. No entanto, a entidade não comentou diretamente sobre o possível acordo com a AWS.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) participou da decisão?
Não. A ANPD informou que não participou da elaboração da instrução normativa que permitiu o armazenamento de dados secretos em nuvens privadas. No entanto, declarou que pode atuar caso identifique violações às leis nacionais de proteção de dados.
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