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Justiça brasileira expôs indevidamente dados de vítimas de estupros e agressões, mostra reportagem

A maioria das informações vazadas pelo judiciário é de crianças e mulheres que sofreram estupro ou agressões.

Avatar do(a) autor(a): André Luiz Dias Gonçalves

schedule04/06/2025, às 13:00

Dados de mais de 100 vítimas de abusos, principalmente crianças e mulheres, foram expostos indevidamente por meio da divulgação das ordens de prisão para os autores dos crimes expedidas pela justiça. É o que aponta uma reportagem do g1, publicada no último domingo (01).

Segundo o relatório, as informações estão inseridas no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP), base de dados de acesso público e que funciona como ferramenta para auxiliar as forças policiais nas buscas pelos foragidos. No entanto, os dados de quem foi alvo dos criminosos deveriam estar protegidos da consulta pública.

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As vítimas não sabiam que seus dados estavam disponíveis publicamente. (Imagem: Getty Images)

Quais dados das vítimas foram expostos?

Como detalha a matéria, dados de pelo menos 120 pessoas estavam expostos após uma consulta a 123 mil mandados de prisão, menos da metade desse tipo de documento em vigência no Brasil. As informações se referem às vítimas de abuso sexual, agressões e tentativas de feminicídio.

  • Em alguns dos documentos analisados, foram encontrados os nomes completos das vítimas, assim como números de telefones e endereços residenciais;
  • Parte do material também expôs os depoimentos dessas pessoas, trazendo descrições detalhadas dos crimes que elas sofreram;
  • O crime de estupro de vulnerável representa a maioria dos casos vazados, com um total de 58 registros;
  • Na sequência, aparecem os casos referentes à Lei Maria da Penha (44) e os de estupro (18);
  • Os dados expostos estão em mandados de prisão expedidos por 19 tribunais de justiça;
  • Tribunais dos estados do Maranhão e do Pará são os com mais documentos expostos, totalizando 45 e 18 ordens de prisão, respectivamente.

Esse tipo de exposição de informações sigilosas viola uma lei criada em 2009. O texto determina a tramitação em segredo de justiça de quaisquer crimes contra a dignidade sexual, o que inclui estupro, estupro de vulnerável, importunação sexual, assédio sexual e a divulgação de imagens de abusos ou pornografia.

Já quanto à violência doméstica, uma lei de 2024 estabelece que os casos envolvendo tal tipo de crime sejam colocados automaticamente sob sigilo, sem depender do pedido da vítima. Apenas as informações sobre o acusado e o andamento do caso devem permanecer acessíveis publicamente.

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Nomes e outros dados de crianças estão entre as informações vazadas. (Imagem: Getty Images)

Como as informações foram encontradas e o que será feito?

Os dados das vítimas de abuso foram localizados após a análise de 123 mil dos 335 mil mandados de prisão em vigor no país. Conforme a reportagem, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) não permitiu o acesso à totalidade das ordens, além de ter impossibilitado a visualização dos documentos dos estados de Tocantins e São Paulo.

Após uma varredura inicial, foram separados 7 mil casos em que os dados das vítimas deveriam estar sob sigilo, pelas leis. Em seguida, uma ferramenta de IA identificou os casos com maior potencial de exposição das informações, que foram checados manualmente, chegando às 120 vítimas.

Sobre a exposição, o CNJ disse que planeja avançar no desenvolvimento de uma política de dados abertos, preservando as informações sigilosas e possibilitando gerar relatórios em diferentes formatos. A entidade também descartou a existência de erro sistêmico e afirmou ter editado normas para evitar novas exposições.

Já os tribunais se manifestaram de diferentes maneiras, alguns informando que estão investigando o caso, acionando as corregedorias ou retirando os mandados da consulta pública. Aparecendo com o maior número de documentos expostos, o TJ do Maranhão disse ter orientado os juízes a cumprirem a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e as demais normas em vigência.

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Perguntas Frequentes

O que aconteceu com os dados das vítimas de abuso e violência doméstica?
Mais de 100 vítimas, principalmente crianças e mulheres, tiveram seus dados pessoais expostos indevidamente em mandados de prisão públicos. As informações estavam disponíveis no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP), uma base de dados acessível ao público, apesar de a lei exigir sigilo nesses casos.
Quais tipos de informações foram vazadas?
Foram expostos nomes completos, números de telefone, endereços residenciais e até depoimentos detalhados das vítimas, descrevendo os crimes sofridos. A maioria dos casos envolve estupro de vulnerável, violência doméstica (Lei Maria da Penha) e estupro.
Por que esses dados deveriam estar sob sigilo?
Desde 2009, a legislação brasileira determina que crimes contra a dignidade sexual, como estupro e assédio, devem tramitar em segredo de justiça. Em 2024, uma nova lei passou a exigir sigilo automático também para casos de violência doméstica, independentemente de solicitação da vítima.
Como os dados foram identificados como expostos?
Foram analisados 123 mil dos 335 mil mandados de prisão em vigor. Uma ferramenta de inteligência artificial ajudou a identificar 7 mil casos com potencial de exposição, que foram verificados manualmente, resultando na confirmação de 120 vítimas com dados vazados.
Quais tribunais estão envolvidos na exposição dos dados?
Os mandados com dados expostos foram emitidos por 19 tribunais de justiça. Os estados do Maranhão e do Pará lideram em número de documentos com informações vazadas, com 45 e 18 mandados, respectivamente.
O que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) disse sobre o caso?
O CNJ afirmou que está desenvolvendo uma política de dados abertos que preserve informações sigilosas. Também declarou que não houve erro sistêmico e que normas foram editadas para evitar novas exposições.
Como os tribunais reagiram à denúncia?
As reações variaram: alguns tribunais iniciaram investigações, acionaram corregedorias ou retiraram os mandados da consulta pública. O Tribunal de Justiça do Maranhão, por exemplo, orientou os juízes a seguir a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e demais normas vigentes.
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